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março 20, 2026

Terror em Shelby Oaks (2025)

 


Título original: Shelby Oaks
Direção: Chris Stuckmann
Sinopse: Acompanhe a busca desesperada de Mia por sua irmã desaparecida, Riley, uma youtuber famosa por investigar o paranormal. A obsessão de Mia recomeça quando ela recebe uma fita misteriosa com indícios de que Riley ainda pode estar viva. A partir daí, ela mergulha em uma espiral de horror de um mal desconhecido, repleta de revelações perturbadoras e uma atmosfera sufocante.


Há algo quase inevitável em Terror em Shelby Oaks (2025), de Chris Stuckmann. Não falo da trama sobre uma mulher que investiga o desaparecimento da irmã em uma cidade abandonada envolta por mistérios sobrenaturais, mas da sensação de que tudo ali já nasceu gasto. A ideia central até carrega um potencial curioso, com ecos de investigações paranormais, vídeos antigos e traumas familiares atravessando o tempo, mas o que se vê na tela é um projeto que parece permanentemente preso ao rascunho, incapaz de se tornar um filme de verdade.

A história acompanha Mia, interpretada por Camille Sullivan, que tenta entender o sumiço da irmã Riley, ligada a um grupo de investigação paranormal. A narrativa mistura found footage com investigação contemporânea, criando uma estrutura fragmentada que, em teoria, poderia gerar tensão. Na prática, no entanto, o filme se perde em um emaranhado de ideias recicladas. Há cidades abandonadas, fitas antigas, símbolos demoníacos e sombras que espreitam corredores, mas nada disso se organiza de forma minimamente envolvente. Tudo parece montado como uma colagem de referências que nunca se transformam em linguagem própria.

É impossível ignorar como o filme bebe diretamente de fontes como A Bruxa de Blair e O Chamado, mas sem entender o que tornava essas obras eficazes. Em vez de construir atmosfera, Terror em Shelby Oaks se limita a imitar superfícies. O medo nunca se instala de fato, porque não há ritmo, não há construção, não há paciência. As cenas surgem e desaparecem como se estivessem apenas cumprindo uma lista de obrigações do gênero.

O problema se agrava na condução narrativa. A montagem, que deveria ser a espinha dorsal de um filme com múltiplas linhas temporais e materiais distintos, soa desordenada e sem propósito. Há momentos em que o filme parece esquecer o que estava tentando contar minutos antes. A progressão dramática é inexistente, substituída por uma repetição cansativa de pistas que não levam a lugar algum. O resultado é um filme que, mesmo com pouco mais de uma hora e meia, se arrasta como se tivesse o dobro da duração.

O elenco, que inclui nomes como Brendan Sexton III e Keith David, parece à deriva dentro desse caos. Não se trata de falta de talento, mas de ausência total de direção consistente. As atuações variam entre o exagero e a apatia, como se cada ator estivesse em um filme diferente. Camille Sullivan até tenta sustentar alguma carga emocional, mas o roteiro não oferece base para isso. Sua personagem é definida por uma obsessão que nunca ganha profundidade, tornando difícil qualquer conexão real com o público.

Visualmente, há momentos que sugerem uma intenção estética mais sombria, especialmente nas sequências envolvendo a cidade abandonada. Mas até isso é desperdiçado. A fotografia raramente contribui para o clima, e os enquadramentos parecem genéricos, como se estivessem ali apenas para registrar a ação, não para criar significado. O mesmo vale para a trilha sonora, que surge de forma mecânica, tentando induzir tensão onde não existe construção prévia.

Talvez o aspecto mais frustrante de Terror em Shelby Oaks seja perceber que existe uma ambição clara por trás dele. O projeto nasceu de financiamento coletivo e chegou a se destacar como um dos mais financiados do gênero, o que demonstra o interesse inicial do público. Há também o envolvimento de Mike Flanagan como produtor executivo, o que poderia indicar algum direcionamento mais sólido. Mas nada disso se traduz em resultado. A ambição existe, mas não encontra forma, não encontra voz, não encontra cinema.

O filme tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo. Um falso documentário, um horror psicológico, um drama familiar, uma investigação sobrenatural. No fim, não consegue ser nenhuma delas. Falta identidade, falta foco, falta entendimento básico de como construir tensão ou desenvolver personagens. Em vez disso, sobra uma sensação constante de improviso mal resolvido, como se cada elemento tivesse sido inserido sem reflexão.

A recepção dividida da crítica talvez até seja generosa diante do que o filme apresenta. Há quem enxergue potencial ou valor na tentativa, mas o que chega ao espectador é um produto desarticulado, derivativo e, acima de tudo, vazio.

No fim, Terror em Shelby Oaks não é apenas um filme ruim. É um filme que revela, a cada cena, a distância entre gostar de cinema e saber fazê-lo. E talvez seja justamente essa distância, escancarada sem pudor, que transforma a experiência em algo não só frustrante, mas quase constrangedor.

março 19, 2026

O Encouraçado Potemkin (1925)

 


Título original: Броненосец Потёмкин
Direção: Sergei Eisenstein
Sinopse: Em 1905, na Rússia czarista, aconteceu um levante que pressagiou a Revolução de 1917. Tudo começou no navio de guerra Potemkin quando os marinheiros estavam cansados de serem maltratados, sendo que até carne estragada lhes era dada com o médico de bordo insistindo que ela era perfeitamente comestível. Alguns marinheiros se recusam em comer esta carne, então os oficiais do navio ordenam a execução deles. A tensão aumenta e, gradativamente, a situação sai cada vez mais do controle. Logo depois dos gatilhos serem apertados Vakulinchuk (Aleksandr Antonov), um marinheiro, grita para os soldados e pede para eles pensarem e decidirem se estão com os oficiais ou com os marinheiros. Os soldados hesitam e então abaixam suas armas. Louco de ódio, um oficial tenta agarrar um dos rifles e provoca uma revolta no navio, na qual o marinheiro é morto. Mas isto seria apenas o início de uma grande tragédia.


Falar de O Encouraçado Potemkin é, de certa forma, falar do próprio nascimento do cinema como linguagem. Dirigido por Sergei Eisenstein em 1925, o filme não apenas dramatiza a revolta de marinheiros contra seus superiores em 1905, como também redefine a maneira como imagens podem se organizar para provocar emoção, choque e reflexão. É curioso perceber que, mesmo com mais de um século nas costas, a obra ainda pulsa com uma energia que muitos filmes modernos sequer conseguem alcançar.

A narrativa é simples, quase direta ao ponto. Um grupo de marinheiros, cansado das condições desumanas a bordo, se recusa a comer carne podre infestada de vermes, o que desencadeia um motim. A partir daí, o filme se expande para além do navio e alcança a cidade de Odessa, onde a população se solidariza com os rebeldes, culminando em uma repressão brutal. Essa estrutura em episódios, dividida em cinco partes, dá ao filme uma sensação de progressão inevitável, como se cada ato fosse um passo a mais rumo a uma explosão histórica.

Mas o que realmente diferencia O Encouraçado Potemkin de qualquer outro filme de sua época não é a história em si, e sim como ela é contada. Eisenstein não está interessado apenas em mostrar acontecimentos, ele quer provocar sensações. A montagem aqui não é invisível, pelo contrário, ela é agressiva, quase física. Os cortes não servem apenas para dar continuidade, mas para criar impacto, para fazer com que o espectador sinta o peso de cada situação.

Isso fica evidente na famosa sequência da escadaria de Odessa, talvez uma das cenas mais icônicas da história do cinema. Soldados descem as escadas em formação rígida, atirando contra civis indefesos, enquanto o pânico se espalha em imagens fragmentadas. Uma mulher é atingida, um menino cai, um carrinho de bebê despenca degraus abaixo. Não é só a violência que impressiona, mas a maneira como ela é construída. Cada corte intensifica o anterior, criando um ritmo que transforma o horror em algo quase hipnótico.

O mais interessante é que Eisenstein não foca em um protagonista tradicional. Não há um herói claro, alguém que conduza a narrativa de forma convencional. O verdadeiro protagonista é o coletivo. São os marinheiros, o povo, a massa. Isso reforça o caráter político do filme, que foi concebido como uma obra de propaganda revolucionária, celebrando a luta contra a opressão. Ainda assim, mesmo com esse objetivo ideológico evidente, o filme nunca se reduz a um panfleto vazio. Há uma força estética tão grande que ultrapassa qualquer discurso.

Visualmente, o filme é impressionante. A fotografia em preto e branco, marcada por contrastes fortes, cria imagens que parecem talhadas em pedra. Os rostos são intensos, carregados de emoção, quase esculturas vivas. Não há diálogos falados, mas os intertítulos são suficientes para guiar a narrativa, enquanto as expressões e os gestos dizem tudo o que precisa ser dito. É um cinema que confia na imagem, e essa confiança faz toda a diferença.

Ao mesmo tempo, é impossível ignorar que o filme também carrega suas limitações. Em alguns momentos, o excesso de intenção ideológica torna certas situações previsíveis. Há uma clara divisão entre opressores e oprimidos, sem espaço para ambiguidades. Isso pode afastar quem busca uma narrativa mais complexa ou menos direcionada. Ainda assim, esse aspecto faz parte da proposta do filme, e criticá-lo por isso é, de certa forma, ignorar o contexto em que foi criado.

O impacto de O Encouraçado Potemkin no cinema é gigantesco. A famosa sequência da escadaria foi recriada, homenageada e referenciada inúmeras vezes ao longo das décadas. Mais do que isso, a ideia de que a montagem pode gerar significado por si só mudou completamente a forma como os filmes passaram a ser pensados. Não é exagero dizer que muito do cinema que existe hoje deve algo a esse filme.

Assistir a O Encouraçado Potemkin hoje é uma experiência curiosa. Por um lado, ele pode parecer distante, tanto pela estética quanto pelo ritmo. Por outro, há momentos em que ele se mostra incrivelmente moderno, quase como se tivesse sido feito ontem. Essa dualidade é parte do seu charme. Ele é, ao mesmo tempo, um documento histórico e uma obra viva.

No fim das contas, o filme de Eisenstein não é perfeito, mas talvez nem precise ser. Sua importância é tão grande, seu impacto tão duradouro, que pequenas falhas se tornam quase irrelevantes diante do todo. É um daqueles raros casos em que a experiência vai além do entretenimento e se transforma em algo mais amplo, quase uma aula sobre o que o cinema pode ser. E mesmo depois de tantos anos, a sensação que fica é a de ter visto algo fundamental, como se cada corte ainda ecoasse na forma como enxergamos imagens até hoje.

Parque das Almas (2022)

 


Título original: Lélekpark
Direção: Illés Horváth, Róbert Odegnál
Sinopse: Uma jovem detetive e um policial prestes a se aposentar precisarão confrontar seus traumas do passado para desvendar o misterioso caso de um homem que acordou dentro de um zoológico, sem roupas, ao lado de crocodilos.


Há algo de curioso em Parque das Almas (no original Lélekpark): a premissa, por si só, já carrega um potencial quase irresistível. Um homem acorda nu entre crocodilos em um zoológico, sem memória dos últimos anos, enquanto uma jovem detetive e um policial veterano mergulham em um caso que parece apontar para um culto misterioso. É o tipo de ponto de partida que poderia render um thriller psicológico inquietante, daqueles que exploram a fragilidade da mente e o peso do passado. Mas o filme dirigido por Illés Horváth e Róbert Odegnál parece incapaz de sustentar a própria ideia que propõe, como se tivesse medo de ir fundo demais no que ele mesmo sugere.

A narrativa se arrasta em uma estrutura que mistura investigação policial com elementos místicos, mas nunca encontra um equilíbrio convincente entre esses dois polos. O roteiro parece constantemente hesitar, como se não soubesse se quer ser um suspense procedural ou uma reflexão filosófica sobre consciência e sofrimento, conceito que o próprio filme menciona de forma superficial. Esse conflito interno não gera complexidade, mas sim dispersão. O espectador percebe rapidamente que há algo desalinhado, como se cada cena puxasse para uma direção diferente sem jamais construir um caminho sólido.

O problema se agrava porque o filme insiste em criar uma atmosfera de mistério sem oferecer ferramentas reais para que esse mistério se torne envolvente. Em vez de tensão, o que se sente é uma espécie de vazio dramático. As revelações não impactam, os enigmas não instigam e os personagens parecem caminhar em círculos, repetindo emoções sem evolução. A ideia do culto, que poderia ser o coração perturbador da história, surge mais como um recurso genérico do que como algo realmente desenvolvido. Falta densidade, falta construção, falta risco.

No centro disso tudo estão as performances, especialmente de László Attila Horváth e Viktória Staub, que até tentam dar algum peso emocional à narrativa. Há momentos em que se percebe esforço, principalmente na tentativa de transmitir traumas e conflitos internos, mas o texto nunca colabora. Os personagens são escritos de forma rasa, presos a arquétipos que não evoluem. O policial cansado e a jovem determinada são figuras conhecidas, mas aqui não ganham nenhuma camada adicional que os torne memoráveis.

Visualmente, o filme até apresenta alguns lampejos interessantes. O cenário do zoológico, por exemplo, tem um potencial simbólico evidente, quase como uma metáfora óbvia para aprisionamento e desorientação. Em alguns momentos, a ambientação contribui para um clima ligeiramente estranho, mas isso nunca se transforma em linguagem cinematográfica consistente. São ideias soltas, imagens que sugerem mais do que realmente constroem. A sensação é de um projeto que tenta parecer maior do que é, mas sem os recursos narrativos ou estéticos para sustentar essa ambição.

Também pesa o fato de que a duração enxuta, cerca de 75 minutos, não é aproveitada com eficiência. Em vez de concisão, o filme parece curto e arrastado ao mesmo tempo, uma combinação difícil de alcançar, mas que aqui se concretiza. Há cenas que se prolongam sem necessidade e outras que passam rápido demais, impedindo qualquer envolvimento real. É como se o ritmo fosse constantemente sabotado por decisões equivocadas de montagem e condução dramática.

Talvez o mais frustrante seja perceber que havia um caminho possível. A ideia de memória fragmentada, aliada a um ambiente estranho e a um culto enigmático, poderia render algo genuinamente perturbador ou ao menos intrigante. Mas Parque das Almas escolhe o caminho mais seguro e, paradoxalmente, o mais vazio. Ele não abraça o absurdo da própria premissa nem mergulha de verdade no psicológico de seus personagens. Fica preso em uma zona morna, onde nada é suficientemente ruim para ser caótico, mas também nada é bom o bastante para ser interessante.

No fim, o filme deixa uma sensação de desperdício. Não pela falta de recursos, já que é claramente uma produção modesta, mas pela falta de direção criativa. É um daqueles casos em que a ideia parece muito mais interessante do que o resultado final. E talvez seja exatamente isso que mais incomoda: a impressão constante de que algo poderia ter sido feito, mas simplesmente não foi.

março 14, 2026

Melhores de 2025

 Foram 115 filmes elegíveis de 2025 com estreia durante o ano nos Estados Unidos ou no seu país de origem. Abaixo segue a lista dos indicados e o vencedor em negrito.


Melhor Documentário
Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud
Kaizen
Lumière: A Aventura Continua!
Perfectly a Strangeness
A Vizinha Perfeita


Melhores Efeitos Visuais
Avatar: Fogo e Cinzas
F1: O Filme
Frankenstein
TRON:Ares
Xeno


Melhor Edição de Som
Avatar: Fogo e Cinzas
Extermínio: A Evolução
F1: O Filme
Soberano
TRON: Ares


Melhor Som
F1: O Filme
GOAT
Kaizen
Sirāt
Sonhos de Trem


Melhor Edição
Casa de Dinamite
F1: O Filme
A Vida de Chuck
A Vizinha Perfeita
A Voz de Hind Rajab


Melhor Figurino
O Beijo da Mulher Aranha
Drácula: Uma História de Amor
Frankenstein
Kokuho: O Preço da Perfeição
A Meia-Irmã Feia


Melhor Maquiagem
Drácula: Uma História de Amor
Extermínio: A Evolução
Frankenstein
Kokuho: O Preço da Perfeição
A Longa Marcha: Caminhe ou Morra


Melhor Direção de Arte
Balada de um Jogador
O Beijo da Mulher Aranha
Drácula: Uma História de Amor
Frankenstein
Kokuho: O Preço da Perfeição


Melhor Fotografia
Os Malditos
Perfectly a Strangeness
Sirāt
Sonhos de Trem
TRON: Ares


Melhor Canção (Original ou Versão Para o Filme)
"Clouds Away", November Ultra & Arnaud Toulon (Arco)
"Lose My Mind", Don Toliver feat. Doja Cat (F1: O Filme)
"Golden", Huntrix (Guerreiras do K-Pop)
"Song Sung Blue", Hugh Jackman & Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
"Train Dreams", Nick Cave (Sonhos de Trem)


Melhor Trilha Sonora (Coletânea)
Depois da Caçada
F1: O Filme
Song Sung Blue: Um Sonho a Dois
A Única Saída
Viagem de Risco


Melhor Trilha Sonora Original
Arco
F1: O Filme
Frankenstein
Sonhos de Trem
TRON: Ares


Melhor Filme de Animação
Arco
Elio
Forevergreen
A Pequena Amélie
Snoopy Apresenta: Um Musical de Verão


Melhor Roteiro Adaptado
Drácula: Uma História de Amor
Frankenstein
Kokuho: O Preço da Perfeição
Sonhos de Trem
A Única Saída


Melhor Roteiro Original
Foi Apenas um Acidente
Soberano
Twinless: Um Gêmeo a Menos
Two People Exchanging Saliva
A Vida de Chuck


Melhor Atriz Coadjuvante
Ana Sophia Heger, Fuga Fatal
Ayo Edebiri, Depois da Caçada
Saja Kilani, A Voz de Hind Rajab
Son Ye-jin, A Única Saída
Tilda Swinton, Balada de um Jogador


Melhor Ator Coadjuvante
Jacob Elordi, Frankenstein
Jacob Tremblay, Soberano
Jacobi Jupe, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Sean Penn, Uma Batalha Após a Outra
Sebastian Bull Sarning, Filhos


Melhor Atriz
Julia Roberts, Depois da Caçada
Rose Byrne, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria
Sidse Babett Knudsen, Filhos
Vanessa Kirby, A Noite Sempre Chega
Zar Amir Ebrahimi, Two People Exchanging Saliva


Melhor Ator
Joel Edgerton, Sonhos de Trem
Lee Byung-hum, A Única Saída
Motaz Malhees, A Voz de Hind Rajab
Nick Offerman, Soberano
Taron Egerton, Fuga Fatal


Melhor Elenco
O Agente Secreto
Foi Apenas um Acidente
Sirāt
A Única Saída
A Voz de Hind Rajab


Melhor Filme Brasileiro
O Agente Secreto
A Melhor Mãe do Mundo
Oficina do Diabo
O Papa Que Venceu o Comunismo
Resistentes


Melhor Filme em Língua Não-Inglesa ou Não Brasileiro
Filhos
Lumière: A Aventura Continua!
Perfectly a Strangeness
A Única Saída
A Voz de Hind Rajab


Melhor Direção
Kathryn Bigelow, Casa de Dinamite
Jafar Panahi, Foi Apenas um Acidente
Clint Bentley, Sonhos de Trem
Park Chan-wook, A Única Saída
Kaouther Bem Hania, A Voz de Hind Rajab


Pior Filme
Faça Ela Voltar
Mickey 17
Pecadores
Prédio Vazio
Segredos


Melhor Filme
Arco
Eddington
Filhos
Lumière: A Aventura Continua!
Pretty Thing
Sonhos de Trem
Twinless: Um Gêmeo a Menos
A Única Saída
A Vizinha Perfeita
A Voz de Hind Rajab

março 12, 2026

Perfectly a Strangeness (2024)

 


Título original: Une Parfaite Étrangeté
Direção: Alison McAlpine
Sinopse: Sob a incandescência deslumbrante de um deserto desconhecido, três burros descobrem um observatório astronômico abandonado e o universo. Uma exploração sensorial e cinematográfica do que uma história pode ser.


Há filmes que contam histórias. Há filmes que constroem sensações. E há aqueles raríssimos que parecem existir como uma espécie de experiência quase inexplicável, como se não fossem feitos exatamente para serem entendidos, mas para serem sentidos. Perfectly a Strangeness (2024), de Alison McAlpine, pertence com tranquilidade a essa última categoria.

Rodado no deserto do Atacama, entre observatórios astronômicos reais como La Silla e Paranal, o curta parte de uma premissa tão simples quanto estranha: três burros vagam por uma paisagem árida até se depararem com estruturas humanas dedicadas a observar o cosmos. Não há diálogos, não há explicações, não há qualquer tentativa de guiar o espectador de maneira convencional. O que existe é um convite silencioso para olhar o mundo como se fosse a primeira vez.

E talvez seja justamente aí que o filme encontra sua força mais hipnótica. McAlpine, que vem da poesia antes do cinema, constrói aqui algo que se aproxima muito mais de um poema visual do que de um documentário tradicional. Cada imagem parece pensada não apenas como registro, mas como contemplação. O deserto não é só cenário, é um espaço quase metafísico, suspenso no tempo.

A fotografia de Nicolas Canniccioni é, sem exagero, deslumbrante. Há um cuidado quase obsessivo com luz, textura e profundidade. O uso de lentes anamórficas, pensado para tentar reproduzir uma espécie de “olhar animal”, cria imagens que distorcem levemente a realidade, como se estivéssemos vendo o mundo por outra consciência. E isso dialoga perfeitamente com a proposta do filme: não somos nós observando os burros, mas, de certa forma, somos convidados a imaginar como eles observam o mundo.

Existe algo profundamente curioso nessa inversão. Máquinas gigantescas, construídas para estudar o universo, são apresentadas como objetos misteriosos diante de criaturas que não compreendem sua função. E, nesse jogo, o filme parece sugerir algo desconcertante: talvez nós também não compreendamos tanto assim o que estamos vendo quando olhamos para o céu.

A trilha sonora de Ben Grossman reforça essa sensação de estranhamento constante. Fugindo completamente de qualquer padrão reconhecível, os sons parecem surgir mais como ecos do ambiente do que como música propriamente dita. Instrumentos pouco usuais criam uma paisagem sonora que é ao mesmo tempo orgânica e alienígena, como se o próprio universo estivesse emitindo ruídos.

O mais impressionante é como o filme consegue ser, ao mesmo tempo, extremamente simples e profundamente complexo. Na superfície, quase nada acontece. Três animais caminham, exploram, observam. Mas por baixo dessa simplicidade existe um jogo de ideias muito maior, envolvendo percepção, existência e o próprio ato de contar histórias. Não à toa, o curta foi descrito como uma “exploração sensorial do que uma história pode ser”.

Há também um certo humor sutil, quase imperceptível. A presença dos burros em meio àquelas estruturas tecnológicas cria um contraste que beira o absurdo. É como se o filme, em silêncio, risse da nossa necessidade de entender tudo, enquanto coloca diante de nós um universo que continua, essencialmente, inexplicável.

O reconhecimento em festivais como o Festival de Cannes 2024 e a indicação ao Oscar não parecem exageros ou acasos. Perfectly a Strangeness não é um filme que busca agradar ou entreter no sentido tradicional. Ele exige entrega, paciência e, acima de tudo, disposição para se perder.

E talvez seja exatamente isso que o torna tão especial. Em um tempo em que o cinema frequentemente se preocupa em explicar tudo, McAlpine faz o movimento contrário. Ela retira, simplifica, silencia. E nesse silêncio, cria algo que pulsa.

No fim, o curta deixa uma sensação difícil de descrever, como um sonho do qual lembramos apenas fragmentos, mas que ainda assim nos marca profundamente. Não é um filme que se assiste. É um filme que se atravessa. E quando termina, fica a impressão de que, por alguns minutos, estivemos olhando o mundo com olhos que não eram exatamente os nossos.

Jane Austen's Period Drama (2024)

 


Título original: Jane Austen's Period Drama
Direção: Julia Aks, Steve Pinder
Sinopse: Inglaterra, 1813. No meio de um tão aguardado pedido de casamento, a senhorita Estrogenia Talbot menstrua. Seu pretendente, senhor Dickley, confunde o sangue com um ferimento, e logo fica claro que sua cara educação deixou passar um detalhe importante.


Jane Austen’s Period Drama (2024), dirigido por Julia Aks e Steve Pinder, é um daqueles curtas que parecem nascer de uma ideia quase boba, mas que encontram uma forma surpreendentemente sofisticada de se sustentar. Com apenas cerca de 13 minutos, o filme parte de uma premissa simples e até escrachada, mas a transforma em algo espirituoso, visualmente caprichado e, acima de tudo, bastante inteligente na maneira como lida com seus temas.

A história se passa na Inglaterra de 1813 e acompanha Estrogenia Talbot, interpretada pela própria Aks, no momento exato em que recebe um tão aguardado pedido de casamento. O que deveria ser uma cena típica de um drama de época à la Jane Austen rapidamente descarrila quando ela começa a menstruar, e seu pretendente, completamente perdido, interpreta a situação como uma emergência médica. A partir daí, o curta constrói sua comédia sobre o choque entre ignorância masculina, convenções sociais rígidas e um assunto historicamente tratado como tabu.

O que mais impressiona logo de início é o cuidado estético. A direção aposta em uma recriação bastante fiel do universo dos dramas de época, com figurinos elegantes, iluminação suave e enquadramentos que remetem diretamente às adaptações clássicas de Austen. Esse cuidado não é gratuito. Pelo contrário, ele é essencial para que a piada funcione. Quanto mais sério e refinado o cenário, mais forte se torna o contraste com o tema central, criando um humor que nasce da própria colisão entre forma e conteúdo.

Mas o filme não se apoia apenas no visual. O texto é afiado, cheio de trocadilhos e nomes propositalmente sugestivos, quase infantis, mas usados com consciência para reforçar o tom satírico. Existe aqui uma espécie de humor em camadas. Em um primeiro nível, a situação em si já é engraçada. Em outro, o roteiro brinca com a linguagem e com os códigos do gênero. E, por baixo de tudo isso, há uma crítica bastante clara à forma como a menstruação foi historicamente cercada de silêncio e desinformação.

As atuações acompanham bem essa proposta. Julia Aks constrói uma protagonista que oscila entre o constrangimento social e uma coragem silenciosa que vai crescendo ao longo da narrativa. Já o pretendente, vivido por Lachlan Ta’imua Hannemann, é quase uma caricatura do homem educado, mas completamente despreparado para lidar com algo básico do corpo feminino. Essa dinâmica entre os dois funciona muito bem e sustenta o ritmo do curta, que nunca perde o timing cômico.

Um dos méritos do filme é conseguir manter sua ideia central do início ao fim sem parecer repetitivo. Existe, sim, a sensação de que tudo gira em torno de uma única piada, mas ela é explorada com variações suficientes para não se esgotar. E talvez isso seja justamente o que diferencia o curta de um simples esquete. Ele tem começo, meio e fim bem definidos, e encontra um encerramento que não apenas conclui a piada, mas também reforça seu comentário social.

Outro ponto interessante é como o filme dialoga com o presente sem abandonar sua ambientação histórica. Ao tratar de um tema ainda cercado de desconforto, ele usa o passado como espelho do agora, sugerindo que, apesar de todo o avanço, certas ignorâncias persistem. E faz isso sem soar panfletário. O humor aqui não serve apenas para fazer rir, mas para tornar o assunto mais acessível e menos carregado.

O reconhecimento em festivais e a indicação ao Oscar não parecem exagerados. Trata-se de um curta que entende muito bem o que quer ser e executa sua proposta com precisão, equilíbrio e personalidade. Em um cenário onde muitos filmes curtos apostam no experimental ou no dramático, ver uma comédia tão segura de si ganhar espaço já é, por si só, algo refrescante.

No fim das contas, Jane Austen’s Period Drama funciona porque não tenta ser maior do que precisa. Ele abraça sua premissa absurda, investe nela com convicção e encontra, no meio do riso, uma forma de dizer algo relevante. É leve, é rápido, mas deixa uma marca. E isso, para um curta, já é mais do que suficiente para justificar sua existência.