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fevereiro 01, 2026

Nuremberg (2025)

 


Título original: Nuremberg
Direção: James Vanderbilt
Sinopse: O psiquiatra americano Douglas Kelley, encarregado de determinar se os prisioneiros nazistas estão aptos a serem julgados por seus crimes de guerra, se vê em uma complexa batalha de inteligência com o braço direito de Hitler, Hermann Göring.


O filme Nuremberg entra na sala com a ambição de contar um dos capítulos mais densos da história moderna através da lente humana e íntima de um duelo psicológico. James Vanderbilt, que já havia se destacado como roteirista em filmes como Zodíaco, assume aqui não apenas o roteiro, mas também a direção, optando por uma narrativa que privilegia o embate de vontades mais do que uma reconstituição histórica linear. Ao adaptar o livro The Nazi and the Psychiatrist, de Jack El-Hai, ele mergulha no coração moral dos julgamentos que marcaram o fim da Segunda Guerra Mundial, tentando explicar como homens aparentemente comuns chegaram a cometer atrocidades indescritíveis.

O ponto de partida é simples em sua estrutura: após a rendição da Alemanha nazista, o psiquiatra do Exército dos Estados Unidos, Douglas Kelley, interpretado por Rami Malek, é encarregado de avaliar Hermann Göring, papel entregue a Russell Crowe, e outros prisioneiros de alto escalão para determinar se estão mentalmente aptos para enfrentar os julgamentos. A relação entre Kelley e Göring é a espinha dorsal da história e funciona como uma mesa de negociações entre ciência, moral e poder. Crowe domina a cena com uma presença que alterna charme e maldade, dando vida a um Göring que não é apenas vilão caricatural, mas um homem capaz de hipnotizar e manipular. Malek, por sua vez, traz à tona a insegurança escondida sob a fachada racional do seu personagem, embora seu desempenho nem sempre encante da mesma forma que o de seu parceiro de cena, criando uma dinâmica desigual que tira um pouco da força emocional que o roteiro tenta imprimir.

Tecnicamente o filme é sólido. A fotografia de Dariusz Wolski ajuda a transportar o espectador para aquele fim de guerra em que o peso de cada decisão parecia esmagador, mesmo quando filmado com tons relativamente contidos e um ritmo que aposta mais no drama interno do que em momentos de choque visual. A edição de Tom Eagles e a música de Brian Tyler contribuem para manter a narrativa fluindo, embora em alguns momentos o ritmo pareça ponderado demais, quase como se estivesse sempre equilibrando entre um documentário e um drama de tribunal tradicional. Essa escolha de ritmo é compreensível considerando a temática pesada, mas ela também acaba por arrastar algumas partes sem permitir que o espectador absorva plenamente cada cena antes de avançar para a próxima.

A estreia mundial do filme aconteceu no Festival Internacional de Cinema de Toronto, onde foi recebido com uma longa ovação de pé, e isso pode ter criado expectativas muito altas que a obra não consegue sustentar completamente ao longo de suas quase duas horas e meia de duração. O roteiro, por mais que tente explorar o jogo de inteligência e poder entre Kelley e Göring, às vezes cai em conversas que soam mais como explicações históricas de fácil digestão do que como conflitos verdadeiramente envolventes. A tentativa de tornar certos diálogos acessíveis ao público geral faz com que algumas discussões mais complexas percam profundidade, deixando a impressão de que mais tempo foi gasto em frases impactantes do que em desenvolvimento narrativo consistente.

Em termos de elenco de apoio, há nomes que ajudam a ancorar a história, como Michael Shannon interpretando o juiz Robert H. Jackson e Richard E. Grant como Sir David Maxwell Fyfe, figuras que adicionam camadas ao retrato dos julgamentos. Esses atores conseguem trazer nuances que equilibram a carga dramática, mesmo quando a própria narrativa parece hesitar em dar a cada um espaço suficiente para respirar. Porém, a grande maioria desses coadjuvantes acaba funcionando mais como peças de um grande tabuleiro histórico do que como personagens com vida própria, o que empobrece um pouco a experiência emocional do filme como um todo.

Um elemento que certamente divide opiniões é a maneira como Nuremberg lida com o horror representado pelos crimes nazistas. Há momentos em que imagens reais da brutalidade da guerra e dos campos de concentração são exibidas, contrastando fortemente com o restante da dramatização e lembrando ao público o peso histórico por trás de cada conversa teórica. Essa inserção de imagens reais é potente, mas também levanta a questão de que o filme, ao querer tornar muitos aspectos palatáveis e “assistíveis”, às vezes dilui o impacto que uma obra sobre esse tema deveria ter. A escolha de humanizar figuras históricas tão emblematicamente vilanescas é delicada, e aqui ela funciona em parte, mas deixa um sabor de oportunidade perdida em termos de profundidade moral e reflexão crítica.

A direção de Vanderbilt é competente, e há mérito em sua intenção de trazer à tona um capítulo essencial da história da justiça internacional. No entanto, essa ambição também parece ser sua maior limitação. O filme quer ser um drama humano, um thriller psicológico e uma lição de história ao mesmo tempo, e no processo acaba não se aprofundando o bastante em nenhum desses aspectos. Em outras palavras, ele se esforça para cumprir muitos papéis e às vezes não encontra o equilíbrio ideal entre eles. A sensação que fica é de que se trata de uma obra que parece maior do que efetivamente é, porque em vez de ir a fundo nas contradições e complexidades humanas que ampliariam seu impacto, ela prefere consultar seu próprio roteiro e se manter dentro de parâmetros seguros.

No fim das contas, Nuremberg é um filme que merece ser visto por sua proposta ousada e pelas atuações marcantes, principalmente de Crowe, mas que também frustrará quem espera uma narrativa mais ousada ou emocionalmente envolvente. Sua abordagem cuidadosa e, por vezes, excessivamente ponderada, cria uma distância que impede o espectador de se conectar de forma mais visceral com o que está sendo apresentado, reduzindo a intensidade dramática de um enredo que, em teoria, carregaria potencial para impactar muito mais. Ainda assim, é um trabalho respeitável que cumpre em parte sua missão de lembrar ao público a importância de não esquecer os horrores do passado e de refletir sobre as falhas e limites da justiça humana. 

janeiro 28, 2026

A Pequena Amélie (2025)

 


Título original: Amélie et la Métaphysique des Tubes
Direção: Maïlys Vallade, Liane-cho Han
Sinopse: O mundo é um mistério desconcertante e tranquilo para Amélie, uma garotinha belga nascida no Japão. À medida que desenvolve um profundo apego à governanta da família, Amélie descobre as maravilhas da natureza, bem como as verdades ocultas sob a superfície da vida idílica na Terra do Sol Nascente.


Desde os primeiros minutos de A Pequena Amélie somos convidados a mergulhar num universo de sensações e descobertas que espelham o olhar curioso e quase místico de uma criança em formação. Escrito e dirigido por Maïlys Vallade e Liane-Cho Han, o filme adapta o romance autobiográfico de Amélie Nothomb, conhecido por sua estranheza poética e pela maneira como transforma experiências sensoriais em linguagem literária e agora visual.

A narrativa parte de um ponto de vista pouco explorado no cinema: a experiência da primeira infância antes dos três anos, quando tudo ainda é novidade e o significado brota da percepção mais do que da lógica. A maneira como isso é traduzido em imagens e animações é um triunfo artístico em si. Cada quadro do filme parece pintado com delicadeza, usando uma paleta que mistura tons pasteis e cores vibrantes para expressar emoções mais do que acontecimentos concretos. Essa escolha estética dá ao filme uma textura quase onírica, como se estivéssemos vendo o mundo pelos olhos de alguém que ainda não aprendeu a separar fantasia de realidade.

O trabalho de direção de arte é um dos pilares mais fortes da obra. Os personagens e ambientes são desenhados com uma suavidade que remete à aquarela e à pintura manual, mas sem perder a fluidez que se espera da animação contemporânea. Essa sensibilidade visual não está lá só para ser bonita. Ela tem um papel narrativo: as cores e formas acompanham as emoções de Amélie, moldando e transformando a percepção do espectador de acordo com as descobertas que a personagem faz. Os criadores chegam a atribuir cores específicas a personagens e estados de espírito, o que ajuda a construir uma leitura emocional intuitiva da história.

O design de som e a trilha fortalecem esse senso de imersão. Em vários momentos, o som ambiente e a música se misturam de forma tão natural que mais parecem parte da própria consciência de Amélie do que simples elementos complementares. Em cenas onde a menina explora texturas, sabores e sons do mundo ao seu redor, os efeitos sonoros são usados com uma precisão que dá peso emocional a detalhes que, em outras obras, passariam despercebidos. Isso é particularmente eficaz nas sequências onde a percepção sensorial toma o lugar da narrativa tradicional, deixando o espectador experimentar o que a personagem sente, em vez de ser contado sobre isso.

O roteiro, adaptado por Liane-Cho Han, Maïlys Vallade e colaboradores a partir do livro de Nothomb, encontra um equilíbrio interessante entre o literal e o simbólico. Não é um filme de ação ou de grandes reviravoltas, mas uma jornada interior. A história acompanha Amélie desde um estado quase vegetativo até o despertar para o mundo através de pequenos acontecimentos — um terremoto, um pedaço de chocolate, um gesto de carinho — que vão moldando sua maneira de ver e sentir. A história ganha força justamente por não se prender a uma estrutura clássica de conflito e resolução. Em vez disso, ela aposta na maneira como lembranças e sensações se acumulam para formar uma identidade.

Esse enfoque narrativo naturalmente favorece a introspecção, e o filme se beneficia imensamente disso. Ele exige uma entrega do espectador para acompanhar a fluidez dos pensamentos de Amélie, e a recompensa vem na forma de profunda empatia. Ao deixar de lado muitos elementos de trama convencional, a animação abre espaço para que cada um leve consigo suas próprias lembranças de infância, projetando-as na tela. Esse tipo de experiência cinematográfica é raro, porque não se limita a contar uma história bonita. Ela conecta emocionalmente sem manipular, simplesmente refletindo as nuances do crescimento e da formação da consciência.

O elenco de vozes também merece destaque, com atuações que variam entre o sussurro contemplativo e a expressão vívida de sensações que ainda não têm palavras. Loïse Charpentier na voz de Amélie, por exemplo, consegue transmitir uma vasta gama de sentimentos com uma naturalidade que impressiona, considerando que muitas emoções exploradas pelo filme estão abaixo da linguagem verbal típica. As interações com a figura de Nishio-san, uma espécie de guia emocional na vida da pequena protagonista, são especialmente memoráveis, funcionando como âncoras afetivas em meio à abstração sensorial do resto da obra.

Tecnicamente o filme também se destaca por sua economia de recursos. Com cerca de 1 hora e 17 minutos, a duração é perfeita para que a proposta poética não se estenda demais, mantendo o espectador engajado sem cansar. A animação é fluida, mas nunca explosiva — as cenas respiram, e essa respiração é parte do ritmo da história. O uso de silêncios e de pausas contemplativas é tão significativo quanto a movimentação dos personagens, um lembrete de que nem tudo no cinema precisa ser comunicado por meio de ação e diálogo.

É também interessante observar como o filme dialoga com a cultura japonesa sem cair em exotismo gratuito. A presença de costumes, espaços e sensações ligados ao Japão serve como pano de fundo para a experiência de deslocamento e formação de identidade de Amélie, não como mero cenário. Isso confere uma autenticidade cultural que enriquece a narrativa e amplia o alcance emocional da obra, fazendo com que o filme fale tanto sobre infância quanto sobre o encontro entre mundos diferentes.

No conjunto, A Pequena Amélie é um filme que conquista pelo seu olhar sensível e pela coragem de apostar numa narrativa que privilegia sensações e memórias. Ele não é um espetáculo de grandes acontecimentos, mas sim um convite a se reconectar com a própria infância, aquela fase onde tudo é mistério, surpresa e descoberta. A experiência pode ser leve ou profunda, de acordo com o que cada espectador carrega, e é justamente essa flexibilidade afetiva que faz da obra um exemplo encantador de cinema de animação que não tem medo de ser frágil e humano.

janeiro 27, 2026

Guerreiras do K-Pop (2025)

 


Título original: KPop Demon Hunters
Direção: Maggie Kang, Chris Appelhans
Sinopse: Quando não estão lotando estádios, as estrelas do K-pop Rumi, Mira e Zoey usam seus poderes secretos para proteger os fãs contra ameaças sobrenaturais.


Guerreiras do K-Pop chegou como mais um título “evento” da Netflix em junho de 2025, prometendo uma mistura de música pop e fantasia animada que fundisse o frenesi das girl bands de K-pop com batalhas sobrenaturais cheias de energia. A premissa é simples ao extremo: Rumi, Mira e Zoey formam o girl group HUNTR/X, um grupo de estrelas pop que, quando não está arrasando estádios, combate criaturas demoníacas com o poder de suas vozes e coreografias. Imaginando isso no papel, a ideia tem certa leveza e potencial para um entretenimento vibrante, mas na prática é uma construção narrativa rasa que não sustenta o filme por muito tempo.

A história em geral é fortemente superficial. O roteiro coloca os elementos pop e fantasiosos na tela como se fossem suficientes em si, mas falta substância, conexão emocional e lógica interna. Por exemplo, o conflito central com um grupo rival formado por demônios mascarados de boy band jamais tem uma construção convincente ou motivação que vá além do clichê de “eles querem roubar nossos fãs”. O público acaba vendo cena após cena que se assemelha mais a um clipe musical prolongado do que a um arco dramático coerente. É difícil se importar com o destino das personagens porque mal chegamos a conhecer realmente quem elas são de verdade fora do palco e das lutas.

Essa fragilidade narrativa também se manifesta no ritmo. Em vários momentos a impressão é de que estamos pulando de um número musical espetacular para outro, sem uma ponte dramática sólida que conecte emocionalmente o público com os acontecimentos. A tentativa de inserir temas de identidade e aceitação soa forçada diante da falta de profundidade com que essas questões são tratadas. Vira e mexe o filme recorre a soluções fáceis de roteiro e diálogos expositivos para explicar relações ou motivações, o que acaba tirando qualquer frescor ou surpresa que a história pudesse ter.

Artisticamente, porém, Guerreiras do K-Pop tem aspectos que se destacam. A animação é vistosa e energética, com uma paleta de cores vibrante que casa bem com o universo do pop e com as coreografias ensaiadas para cada número musical. A direção visual consegue captar aquela sensação de espetáculo que se espera de um show de K-pop, com luzes, brilho e movimentos sincronizados que lembram grandes performances reais. Em muitos momentos, o impacto visual da animação é o que segura a atenção do espectador diante das lacunas do roteiro.

E é justamente nas músicas que o filme encontra sua razão de ser. As canções compostas para Guerreiras do K-Pop são de longe o ponto mais forte da produção. Elas realmente grudam na cabeça e conseguem transmitir uma energia contagiante, mesmo para quem não é fã do gênero. Isso explica por que parte do público e até mesmo o mercado musical abraçou essas faixas com entusiasmo, levando algumas a alcançar posições altas em paradas de sucesso global, como o hit “Golden”, que ultrapassou recordes nas listas da Billboard e em outras partes do mundo. A trilha sonora consegue ser memorável de uma forma que o restante do filme não é.

As performances vocais também ajudam a elevar essas faixas acima da média, e é fácil imaginar espectadores saindo do filme com algumas das canções na cabeça, ouvindo repetidas vezes depois. Mas esse brilho musical pouco faz para camuflar o fato de que a animação, por trás do espetáculo, carece de alma narrativa. A sensação que fica é de que os realizadores apostaram tudo no apelo sonoro e visual, negligenciando a necessidade de um roteiro mais sólido e personagens verdadeiramente envolventes.

Mesmo tecnicamente, embora seja impossível negar algum rigor na construção dos números musicais e no design dos personagens e cenários, o conjunto não se sustenta. Cada vez que a história tenta se aprofundar em temas como vulnerabilidade, amizade ou autoaceitação, esbarra em soluções narrativas preguiçosas e momentos que parecem colocados para preencher lacunas em vez de abrir portas para compreensão emocional. Isso torna a experiência final bastante superficial e dissociada da promessa que o título carrega.

De certa forma, é curioso observar que um filme tão assistido e comentado mundialmente possa falhar em algo tão essencial quanto uma boa história. O apelo pop e as músicas inegavelmente fortes funcionam como um tipo de cola que mantém o espectador engajado superficialmente, mas não há um núcleo narrativo que justifique realmente a existência da obra fora do espetáculo auditivo e visual. Se você busca um filme com profundidade ou personagens marcantes, dificilmente isso será encontrado aqui. A sensação que fica ao final é semelhante a terminar um álbum de músicas excelentes com letras fracas e pouco conectadas entre si.

A produção, ao se apoiar tanto em tendências culturais, especialmente na popularidade do K-pop e nos números de visualizações de streaming, faz sentido comercialmente, mas artisticamente se revela bastante falha. A impressão geral é de que os diretores Maggie Kang e Chris Appelhans colocaram mais energia na estética que na narrativa. Enquanto algumas cenas podem divertir momentaneamente, o todo acaba sendo esquecível, exceto pelas músicas que realmente grudam na cabeça do espectador.

No fim das contas, Guerreiras do K-Pop é um filme que vale mais pela sua trilha sonora do que por sua história. Mesmo com momentos visualmente atraentes e músicas que dificilmente saem da cabeça depois da sessão, não é possível ignorar que o roteiro em si é péssimo e a narrativa fraquíssima. O que poderia ter sido uma celebração inventiva da cultura pop termina sendo um produto visualmente saturado com pouco para contar de verdade, e a única razão pela qual ele permanece na memória de quem assiste são as faixas realmente cativantes que compõem sua trilha sonora.

janeiro 26, 2026

Nouvelle Vague (2025)

 


Título original: Nouvelle Vague
Direção: Richard Linklater
Sinopse: Acontece de tudo nos bastidores das filmagens de Acossado, de Jean-Luc Godard, um marco do movimento cinematográfico francês Nouvelle Vague.


Nouvelle Vague, como o próprio título indica, tenta revisitar um dos momentos mais celebrados da história do cinema: a criação de À Bout de Souffle (Acossado) por Jean-Luc Godard, um dos pilares da chamada Nouvelle Vague francesa. A premissa em si poderia ser um convite fascinante para explorar a gênese de um movimento que realmente abalou a forma como filmes eram feitos e pensados. A estrutura do filme, a fotografia em preto e branco, a escolha de filmar em formato 4:3 e até os detalhes como marcas de bobina e grão de película evocam esse período com uma precisão quase arqueológica. A maneira como Linklater e o diretor de fotografia David Chambille constroem a estética é tecnicamente competente, com um respeito evidente aos elementos visuais da época e um esforço claro em transportar o espectador para Paris em 1959.

O principal problema, e onde a minha antipatia por Richard Linklater se torna relevante, é que essa homenagem reverente acaba se tornando um simulacro vazio. Linklater sempre se apresentou como um diretor que aprecia o cinema em todas as suas formas, mas aqui essa admiração parece encobrir uma incapacidade de se engajar verdadeiramente com o espírito provocador que estava em jogo na obra de Godard e seus contemporâneos. Linklater, que muitas vezes se aninha em narrativas pausadas e introspectivas, tenta aqui um experimento histórico, mas o resultado soa como um passeio turístico por um marco cultural em vez de uma experiência cinematográfica que realmente desafie o espectador ou reproduza a ousadia que a Nouvelle Vague representou na época. A reverência se transforma em reverência por si mesma, uma reverência que empana a energia original e a substitui por um tipo de nostalgia ensaiada que não tem o mesmo impacto revolucionário.

O roteiro, que se esforça para acompanhar os bastidores da produção de Acossado, é minucioso ao ponto de parecer uma série de anotações de arquivo organizadas de forma dramática, mas sem alma. A dinâmica entre os personagens, incluindo Godard, a atriz americana Jean Seberg e o ator Jean-Paul Belmondo, misturada com as dificuldades de gravação, poderia ser fascinante se os conflitos fossem trabalhados com profundidade real. Em vez disso, muitos desses momentos parecem encenados para reafirmar o quanto aquela história é importante, mas sem que Linklater nos dê um motivo emocional para nos importarmos com esses indivíduos além de sua importância histórica. As cenas de improviso e café em que a equipe se encontra poderiam ter servido para revelar nuances humanas, mas aqui elas surgem mais como um convite para fãs de cinema reconhecerem referências do que como um mergulho nos dilemas e contradições daquele grupo de artistas.

A atuação de Guillaume Marbeck como Godard e de Zoey Deutch como Seberg tem momentos que flertam com uma autenticidade leve e espontânea, mas mesmo isso é sufocado por um roteiro que parece mais interessado em registrar do que em criar. Há uma quantidade enorme de nomes célebres do cinema francês presentes no texto e nas cenas, e isso pode ser divertido para quem gosta de trivia, mas também contribui para uma sensação de encolher o cinema a uma coleção de ícones em vez de explorar o que esses ícones sentiam e por que suas ideias realmente chocaram e modificaram as convenções do cinema.

Tecnicamente, o filme é impecável em muitos aspectos. A recriação de figurinos, locações e o uso do preto e branco evocam uma época com cuidado e precisão. A maneira como a câmera se move e enquadra certas cenas é, sem dúvida, um aceno respeitoso à estética que consagrou Godard. E ainda assim, essa exatidão técnica parece mais uma máscara do que um veículo de expressão. Linklater parece se sentir mais confortável recriando um estilo do que se arriscando a interpretá-lo ou expandi-lo de forma significativa. É como se, em vez de se comprometer com a ousadia original da Nouvelle Vague, ele tivesse escolhido viver dela de forma segura, admirando-a de longe e contentando-se em ser um artesão competente em vez de um provocador.

Esse tipo de cinema pode agradar quem gosta de celebrações respeitosas do passado. Não há como negar que a produção tem leveza, charme e até momentos em que dá gosto ver atores encarnando figuras tão icônicas em cenários tão ricos. A ambientação, o figurino e o elenco trazem detalhes preciosos e cuidadosos que, nas mãos de outro diretor, poderiam se tornar uma obra mais viva e vibrante. Mas aqui, essa vitrine técnica não encontra um coração narrativo que pulsa com intensidade própria. A sensação final é de assistir a um documentário dramatizado, com cortes bonitos e um senso de importância que nunca se justifica plenamente durante o tempo de projeção.

Outro aspecto que sempre me incomoda em Linklater é essa sua tendência a sentimentalizar e a domesticar qualquer material que poderia ter sido inquietante ou perturbador. Aqui ele suaviza o caos que estava no centro da criação de Acossado e transforma em algo palatável, limpo e elegante, tirando qualquer risco real de cena que realmente faça o espectador sentir a urgência e a ruptura que estavam no ar em Paris no final dos anos 50. A própria escolha de se apegar a um tom narrativo acessível, em vez de abraçar a complexidade e as contradições da época e das pessoas envolvidas, transforma o filme em uma peça decorativa em vez de um acontecimento cinematográfico com impacto emocional duradouro.

Ao fim da sessão, o que fica não é o ar revolucionário de uma nova forma de fazer cinema, mas um conforto bem ajeitado que talvez apenas reforce a grandeza do original sem aportar nada de realmente inquietante ou memorável por si só. Para mim, que detesto a visão muitas vezes complacente de Linklater, Nouvelle Vague é a confirmação de que ele prefere refazer-se do que se desafiar de verdade. A homenagem, em vez de ser uma ponte viva entre gerações, acaba sendo uma vitrine polida de um passado que merece ser questionado e vivido, não apenas retratado com admiração elegante.

Se o cinema deve servir de espelho e de provocador, então este filme se contenta demais em refletir o brilho alheio em vez de buscar um brilho próprio. E isso, para mim, é um sintoma claro da fraqueza mais profunda da obra: a falta de ousadia, de nervo, de risco. Em última análise, Nouvelle Vague entra para a lista daqueles filmes que olham para a história do cinema com respeito, mas sem a coragem de incitá-la novamente, deixando uma sensação de oportunidade perdida mais do que de reverência genuína.

janeiro 18, 2026

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025)

 


Título original: Hamnet
Direção: Chloé Zhao
Sinopse: Um dos mais importantes escritores do cânone ocidental, William Shakespeare vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes quando o casal perde o filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI. Hamnet era o nome do menino. Explorando os temas da perda e da morte, o filme acompanha a rotina e o dia a dia de uma família, as alegrias e as tristezas de viver numa pequena vila na Inglaterra do passado e a história de amor poderosa que inspirou a criação da peça Hamlet.


Desde o início, Zhao aposta na estética sensorial. A câmera de Łukasz Żal privilegia tons terrosos e uma fotografia que pretende ser orgânica, muitas vezes se aproximando da natureza como se ela fosse personagem e espelho das emoções internas dos protagonistas. A trilha de Max Richter tenta dar suporte a esse universo emocional, com passagens que flutuam entre os momentos de silêncio e as elevações dramáticas, mas em vez de construir nuances, muitas vezes se acumula e empurra a narrativa para um lugar excessivamente expectante, como se nos lembrasse o tempo todo que ali há tristeza para ser sentida.

A história começa com um equilíbrio calmo: a infância dos filhos, a vida familiar em uma pequena comunidade rural, a relação de Agnes com a natureza e sua conexão quase mítica com o mundo ao redor. Jessie Buckley e Paul Mescal entregam performances intensas, e em muitos momentos é impossível negar o carisma e a entrega dos dois. Buckley tem cenas poderosas em que tenta expressar, com o corpo e o rosto, o peso da perda que se avizinha, e Mescal tenta carregar Shakespeare como alguém dividido entre o mundo literário e as exigências da vida familiar. Ainda assim, a relação entre eles às vezes se apoia demais em momentos de sofrimento explícito e menos em verdades comportamentais mais sutis, o que deixa a impressão de que a atuação oscila entre visceral e artificiosa.

Quando o ponto de virada chega — a doença e a morte de Hamnet — o filme abraça o melodrama com unhas e dentes. A sequência é longa e insistente, quase teatral de tão crua, como se fosse desenhada mais para arrancar lágrimas do que para explorar as verdadeiras implicações da perda. É aqui que Hamnet demonstra seu maior problema: a tendência de empurrar o espectador para sentir em vez de permitir que ele descubra por conta própria. A tristeza ganha muitos gritos e poucos suspiros, muitos climas e poucos detalhes que realmente amarram o público ao arco emocional da personagem.

A adaptação de Zhao tenta ser fiel ao livro em muitos aspectos, mas a maneira como essa fidelidade se traduz na tela é desigual. Por um lado, há cenas de grande beleza, como encontros em meio à floresta e momentos em família que parecem capturar um tempo quase eterno de calma. Por outro lado, a montagem e o ritmo se perdem quando o foco transita para a dor aberta, criando uma sensação de longa duração que pesa mais pelo exagero dramático do que pela profundidade. 

A ideia de ligar diretamente a dor pessoal de Shakespeare à criação de Hamlet é ambiciosa e traz questões interessantes. O filme tenta oferecer uma interpretação que humaniza o gênio por trás de uma das maiores peças de todos os tempos, mas esse esforço se perde em escolhas narrativas que exageram no sofrimento explícito e em cenas que parecem mais penduradas em técnicas emocionais familiares do que em uma construção dramática orgânica. A sensação de manipulação emocional é real em alguns momentos, porque o filme recorre a artifícios cinematográficos previsíveis em vez de confiar em suas próprias imagens e performances mais contidas para gerar conexão genuína.

Tecnicamente, a produção acerta em alguns pontos de ambientação e em cenas que exploram o espaço físico e social do período retratado. Os figurinos, a direção de arte e certos cortes de montagem dão verossimilhança ao mundo do século XVII. A direção de Zhao tende a favorecer cenas amplas e contemplativas, e isso funciona quando se trata de refletir sobre o universo natural e a vida antes da tragédia. Contudo, quando a narrativa exige um mergulho mais íntimo, a câmera muitas vezes recua para planos que exageram ou dramatizam em vez de revelar verdade emocional.

No fim das contas, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é um filme que tenta ser grandioso no que deveria ser simples. A proposta de transformar uma história de amor e perda em explicação para uma obra-prima da literatura é interessante, mas a execução cinematográfica tropeça em escolhas que deixam o espectador à distância. É um filme cheio de intenções nobres, com performances de alto nível e visuais bonitos, mas que falha em transformar esses elementos em uma experiência narrativa harmoniosa. Fica a impressão de uma obra que se esforça demais para ser sentida intensamente e acaba não sendo tão memorável quanto sua inspiração original.

Se o objetivo era tocar o coração profundamente através da dor e da arte, Hamnet certamente tenta com todas as suas forças, mas nem sempre o resultado compensa. A história pode ser digna de reflexão, mas o caminho escolhido para contar essa história pode deixar muitos espectadores mais exaustos do que verdadeiramente movidos.

janeiro 16, 2026

A Única Saída (2025)

 


Título original: 어쩔수가없다
Direção: Park Chan-wook
Sinopse: Um homem é demitido da empresa de papel onde trabalhou por 25 anos. Algum tempo depois, ainda desempregado, encontra uma solução: eliminar literalmente sua concorrência.


Quando Park Chan-wook anunciou seu novo projeto, muitos imaginavam que ele fosse revisitar, de forma radical, os temas mais sombrios que marcaram sua carreira. Em vez disso, A Única Saída se apresenta como uma obra que mistura humor ácido e reflexão social sem se entregar ao cinismo vazio ou à violência gratuita. A partir de uma premissa quase absurda — um homem disposto a “eliminar a concorrência” no mercado de trabalho após perder seu emprego de 25 anos — Park constrói uma narrativa que, ao mesmo tempo em que diverte, questiona com uma sutileza cruel a lógica de um sistema que descarta o indivíduo quando ele deixa de ser produtivo.

O protagonista Man-su, vivido com uma intensidade contida por Lee Byung-hun, é o coração pulsante desse drama tragicômico. A escolha do ator é um dos pontos altos do filme, pois Lee carrega em sua presença uma combinação de dignidade e frustração que torna palpáveis as dores silenciosas de quem, de repente, se vê sem rumo e sem valor social. Ao seu lado, Son Ye-jin compõe uma figura de apoio que não apaga sua própria frustração, e a química entre os dois funciona como um espelho da tensão entre o amor familiar e o desespero social. O elenco coadjuvante — incluindo nomes como Park Hee-soon, Lee Sung-min, Yeom Hye-ran e Cha Seung-won — enriquece a trama com personagens que, cada um à sua maneira, encarnam as diversas faces da competição e da sobrevivência num mundo que parece exigir sempre mais do que oferece em troca.

Tecnicamente, a cinematografia de Kim Woo-hyung merece destaque. Ele usa enquadramentos precisos para transformar ambientes comuns — a casa de Man-su, os salões de entrevistas de emprego, as ruas da Coreia do Sul — em espaços que carregam peso emocional. Há planos que parecem observar o protagonista como se fosse uma peça num tabuleiro maior, uma escolha que reforça a sensação de insignificância diante de forças econômicas impessoais. A montagem de Kim Sang-bum e Kim Ho-bin contribui para manter o ritmo fluido, alternando entre momentos de silêncio quase constrangedor e cenas de tensão absurda que lembram o tempo cômico de uma tragédia grega.

A trilha sonora é outro elemento que merece ser mencionado. Em vez de se apoiar apenas em melodias tradicionais de suspense ou drama, A Única Saída brinca com contrastes musicais inesperados. Desde obras clássicas como Mozart até canções populares coreanas e soul americano, a música amplifica o tom ambíguo do filme: ora leve e irônica, ora dolorosamente sincera na sua capacidade de fazer o espectador sentir empatia por um homem que está à beira de perder tudo. Essa escolha sonora não é apenas ornamentação, ela molda a maneira como percebemos a jornada de Man-su enquanto ele se afunda cada vez mais em uma espiral de decisões moralmente questionáveis.

Narrativamente, Park Chan-wook evita respostas fáceis. A evolução do enredo — que poderia facilmente descambar para o melodrama ou para a comédia escrachada — se mantém equilibrada, levando o público a refletir sobre temas universais como identidade, dignidade e o preço da sobrevivência num sistema que valoriza resultado acima de humanidade. A adaptação do romance O Corte, de Donald E. Westlake, é fiel ao espírito do livro, mas Park injeta sua própria sensibilidade, explorando nuances que só o cinema consegue alcançar: a construção de empatia em poucos segundos de cena, a oposição entre um sorriso falso e um olhar verdadeiramente desesperado, a sensação de que estamos observando o auge de um colapso pessoal e coletivo ao mesmo tempo.

O filme também foi bem recebido em festivais internacionais, ganhando destaque em Veneza e sendo selecionado como representante da Coreia do Sul para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Internacional (porém esnobado completamente pela Academia, infelizmente). Isso mostra como a obra transcende barreiras culturais, falando de algo que é, de certa forma, sentindo em muitos lugares do mundo: a precariedade das relações de trabalho e a desumanização sutil que acompanha a busca por estabilidade numa economia globalizada.

Num mundo onde o cinema muitas vezes se divide entre o escapismo puro e a crítica social óbvia, A Única Saída se destaca por encontrar um meio-termo vigoroso. É um filme que provoca risos desconfortáveis, faz o espectador pensar sobre seus próprios valores e, acima de tudo, não entrega fórmulas prontas de significado. Ele não julga em voz alta, mas nos convida a olhar para dentro de nós mesmos, a confrontar a ansiedade que sentimos quando a segurança que julgamos ter desaparece sem aviso. Park Chan-wook entrega aqui uma obra que age como um espelho distorcido e intransigente da nossa própria época, sem perder a elegância narrativa e a força emocional que marcaram sua carreira.

janeiro 15, 2026

Sonhos de Trem (2025)

 


Título original: Train Dreams
Direção: Clint Bentley
Sinopse: Um lenhador leva uma vida tranquila enquanto lida com o amor e a perda em uma época de profundas transformações nos Estados Unidos do começo do século XX.


Desde a primeira imagem, Sonhos de Trem anuncia que não está interessado em espetáculos furiosos ou em reviravoltas barulhentas, e sim em capturar a essência da experiência humana num tempo em que o mundo mudava rapidamente. A direção de Clint Bentley encontra um ritmo sereno e quase meditativo, o tipo de cinema que te convida a respirar junto com as cenas, a sentir o peso e a leveza do tempo passando. O filme é baseado na aclamada novela de Denis Johnson, e mesmo para quem não conhece o livro ele funciona como uma epopeia silenciosa da vida de um homem comum num cenário que parece um personagem à parte: as vastas florestas e trilhos do Pacífico Norte-americano no início do século XX.

Joel Edgerton, no papel de Robert Grainier, entrega uma interpretação cheia de nuances raras de se ver agora. Ele encarna um homem que passa mais tempo observando do que falando, e justamente nisso reside a força de sua atuação. Cada olhar, cada pausa, carrega histórias inteiras de amor, perda, esperança e adaptação a um mundo que não espera por ninguém. Nesse sentido ele cria uma conexão imediata com o espectador, aquela sensação de reconhecer algo dentro de si — um medo, uma memória antiga, a forma como o coração aperta quando algo realmente precioso parece escapar.

Felicity Jones brilha como Gladys, a parceira de Robert, trazendo uma presença luminosa que equilibra a dureza da vida nos trilhos com a leveza de um amor que dá sentido à rotina e às esperanças do protagonista. A química entre os dois nunca recorre a grandes declarações, mas vive nos pequenos gestos, nas cenas de intimidade cotidiana que parecem simples, mas que ecoam por muito tempo depois que os créditos sobem.

Visualmente, o filme é um poema em movimento. A fotografia de Adolpho Veloso (um brasileiro!) transforma cada plano em algo que poderíamos pendurar numa galeria. A maneira como a luz da manhã rasga as copas das árvores, como a fumaça das locomotivas se mistura ao neblina dos vales, tudo cria uma sensação de atemporalidade. Parece que a câmera está tão envolvida com o mundo que filmamos quanto os personagens que habitam esse mundo. Cada enquadramento tem uma textura quase tátil, te fazendo sentir a umidade das folhas e o peso da terra sob os pés, uma experiência que se estende para além da simples observação.

A trilha sonora, composta por Bryce Dessner, é outro elemento que faz do filme uma experiência sensorial completa. Não é apenas música de fundo, mas um parceiro narrativo que reforça sentimentos, guia o espectador pelo interior de cada cena e adiciona profundidade emocional sem jamais dominar. É impressionante como cada nota ecoa com propósito, ajudando a tecer o clima introspectivo que define o filme e elevando momentos simples a dimensões quase místicas.

A forma como Bentley e o co-roteirista Greg Kwedar adaptaram o material de Johnson é uma aula de equilíbrio entre literatura e cinema. Eles preservam a alma da história original, mas a evocam com linguagem cinematográfica própria. Em vez de depender de eventos grandiosos ou diálogos marcantes, o filme se movimenta por impressões, atmosferas e sensações, transformando a narrativa de uma vida inteira em algo que pulsa como um sonho vívido. É uma escolha corajosa e que raramente se vê nas produções atuais, onde muitas vezes se busca impacto imediato ao invés de impacto duradouro.

O design de produção e os detalhes de época nos transportam para um mundo que parece estar vivo ali mesmo, sem artifícios exagerados. A escolha de filmar em locações reais no Pacífico Norte, com paisagens que dialogam diretamente com a história, dá ao filme uma autenticidade emocional que poucas obras conseguem atingir. A sensação de um lugar que já existiu de verdade, de um tempo em que homens e mulheres lutavam para construir algo maior que eles mesmos, é palpável em cada cena.

Sonhos de Trem também é um filme sobre memória. A maneira como a narrativa se constrói lembra um olhar retrospectivo, uma conversa íntima com alguém que está nas margens da história, mas que carrega uma riqueza de experiências profundas. Somos levados a refletir sobre nossas próprias vidas através da história de Robert — sobre o que significa amar, trabalhar, perder e seguir adiante mesmo quando tudo parece incerto. Há uma melancolia suave em todo o projeto, mas é uma melancolia que enaltece a grandeza escondida no ordinário.

O roteiro evita as armadilhas do melodrama e do sentimentalismo fácil, escolhendo, ao invés disso, focar na verdade das pequenas coisas. Uma conversa observada à distância, um objeto encontrado no chão, o som do vento entre as árvores — tudo isso é usado para construir um mundo que parece maior do que a soma de suas partes. É um trabalho que exige paciência do espectador, mas que devolve essa paciência com uma recompensa emocional intensa e inesquecível.

Em sua conclusão, Sonhos de Trem não é apenas um grande filme pela sua técnica ou pela beleza de suas imagens, mas pela forma como ele nos faz sentir vivos e conectados às histórias que contamos uns aos outros. Ele celebra a dignidade das vidas simples, dos trabalhadores anônimos que ajudaram a moldar o mundo moderno, e nos lembra que até a vida mais discreta pode ser extraordinária quando vista com atenção e amor. É uma obra que reafirma o poder do cinema como arte de lembrar, sentir e humanizar. Se você busca um filme que fique com você mesmo depois dos créditos, que ecoe nos pensamentos e no coração, Sonhos de Trem é uma das experiências cinematográficas mais ricas e emocionantes que o ano nos ofereceu. É pelo menos, até agora, a grande obra prima que 2025 nos ofereceu em narrativa cinematográfica.

janeiro 14, 2026

Valor Sentimental (2025)

 


Título original: Sentimental Value
Direção: Joachim Trier
Sinopse: O reencontro das irmãs Nora e Agnes com seu pai distante, o carismático diretor Gustav, é marcado por uma proposta: Nora é convidada a estrelar o que seria o filme de retorno do outrora renomado cineasta. Quando Nora declina o papel, ela descobre que Gustav o entregou a uma jovem estrela de Hollywood, ambiciosa e cheia de entusiasmo. As duas irmãs são, então, obrigadas a lidar com a complicada relação paterna, agora intensificada pela presença inesperada dessa atriz americana inserida bem no centro de suas complexas dinâmicas familiares.


O último filme de Joachim Trier, Valor Sentimental (Sentimental Value, 2025), chegou ao circuito internacional com uma reputação de profundidade emocional e uma aura de obra madura sobre laços familiares e reconciliação. A sinopse oficial o apresenta como um drama centrado nas irmãs Nora e Agnes, que enfrentam a volta de seu pai, um cineasta outrora respeitado chamado Gustav, após a morte da mãe, e a tentativa dele de fazer um filme autobiográfico que, de alguma forma, cure as feridas do passado. O problema, para mim, é que a promessa de profundidade oferecida pela crítica e pelo material de divulgação simplesmente não se reflete no que vemos na tela. Parece que está tudo ali, exposto de forma quase didática, sem nuances verdadeiras ou camadas a serem descobertas pelo espectador. Você não precisa pensar nas entrelinhas porque não há entrelinhas de fato, apenas emoções à mostra e conflitos que se resolvem como em manual de direção de drama.

A primeira coisa que chama atenção é a previsibilidade do roteiro. Desde os primeiros minutos, quando somos apresentados à família dilacerada, já é possível antecipar cada reviravolta e conclusão emocional que o filme tenta alcançar. A tentativa de explorar a memória e o impacto que o passado tem sobre o presente é clara, mas o modo como Trier e seu corroterista constroem esses temas é literal demais, sem sutileza ou poesia. Ao contrário do que se espera de um drama que pretende ser “profundo”, as motivações e reações dos personagens são entregues de forma tão explícita que a surpresa narrativa se perde logo cedo, deixando o público mais entediado do que reflexivo.

Outro elemento que decepciona é a tal da “Casa” que a crítica e o material promocional vendem como um quase personagem por si só. A casa onde grande parte da trama se desenrola parecia em teoria um espaço carregado de memórias e simbolismo, um relicário de todos os ressentimentos e amores que moldaram a família Borg. Na prática, entretanto, ela nunca convence. O que deveria ser um lugar denso e vividamente integrado ao drama acaba parecendo cenário de teatro mal planejado, um local de passagem onde as pessoas apenas se movem e conversam. Não há textura, nem sensação de lar, nem a estranheza palpável de um lugar que guarda lembranças dolorosas. A economia de recursos faz com que a casa nunca seja mais do que um pano de fundo estático, e isso empobrece a proposta de Trier de fazer do espaço um elemento ativo na narrativa.

As atuações, que poderiam ser um dos pilares mais fortes do filme, apresentam contrastes marcantes. Stellan Skarsgård, no papel de Gustav, está correto em sua performance, mas “bom” parece ser o limite da sua contribuição aqui. Ele transmite a figura de um homem autorreferencial, alguém que sempre vê o mundo através de suas próprias lentes, mas isso não é novidade no repertório do ator e não chega a se destacar como algo memorável. A sua performance é quase indistinguível de muitas outras em sua filmografia, sem aquele lampejo de algo maior ou mais perturbador que ele alcançou em filmes mais antigos como Dogville de Lars von Trier, onde havia uma intensidade e um peso dramático que aqui simplesmente não se materializam. A ausência de uma presença mais marcante enfraquece o núcleo dramático da narrativa.

Por outro lado, Renate Reinsve, como Nora, é realmente o ponto mais interessante do filme. Ela carrega o peso emocional da personagem com um domínio de expressões faciais e olhares que dizem muito mais do que as próprias palavras em um roteiro que insiste em ser explícito demais. Reinsve tem a habilidade de comunicar conflitos internos sutis apenas com a mudança de um olhar, e isso frequentemente mantém a atenção quando tudo ao redor parece cansativo. Elle Fanning, no papel de uma estrela americana inserida na dinâmica familiar, também entrega uma performance delicada e impressionante, sobretudo pelo desafio de interpretar alguém quase sem expressão marcada, algo que exige muito mais controle e precisão do que simplesmente dramatizar emoções intensas. Esses desempenhos são, sem dúvida, as partes mais interessantes de Valor Sentimental.

O grande problema do filme, além da previsibilidade do roteiro, é o ritmo. A sensação constante é de que se está assistindo a algo excessivamente alongado. A narrativa arrasta-se de uma cena para a outra com uma lentidão que parece deliberada, mas que, em vez de criar imersão, provoca uma luta constante contra o tédio. Fiquei continuamente olhando o relógio, esperando que algo realmente envolvente acontecesse, mas isso raramente ocorreu. O filme parece querer ser contemplativo, mas o resultado é redundante, como se cada momento já tivesse sido antevisto nas cenas anteriores, sem oferecer novidade ou surpresa. Depois de menos de meia hora, dá para sentir que o final é previsível, e essa sensação só se intensifica com o passar dos minutos, colocando o público em uma espécie de transe desinteressado que dificilmente se dissipa.

Dito isso, Valor Sentimental tenta, de várias maneiras, explorar temas profundos como memória, arte e relações familiares. Há momentos em que a ideia de confrontar traumas do passado através da criação artística poderia ser instigante. Existem cenas pontuais em que a interação entre os atores traz alguma vida à tela, e pequenos gestos ou nuances emocionais conseguem breves lampejos de interesse. Mas o conjunto nunca atinge o impacto que pretende, porque tudo está disposto de forma linear e desprovida de mistério ou força narrativa. A “profundidade” falada pelas críticas e pelo material promocional existe apenas na superfície, e não há real substância que ressoe além do imediatismo da cena.

No fim, Valor Sentimental termina como um filme que se leva a sério demais sem oferecer ao público uma razão convincente para entrar nessa seriedade. A proposta pode soar honesta e cheia de boas intenções, e alguns atores realmente se destacam em meio a diálogos e situações que, em teses, deveriam emocionar. Entretanto a execução não acompanha a ambição, resultando em uma experiência longa, tediosa e previsível. É um filme que parece mais preocupado em comunicar sua mensagem claramente demais do que em provocar reflexão ou conexão real com quem assiste. Se há valor sentimental aqui, ele está mais nas performances individuais do que na obra como um todo.

janeiro 01, 2026

Pecadores (2025)

 


Título original: Sinners
Direção: Ryan Coogler
Sinopse: Dispostos a deixar suas vidas conturbadas para trás, irmãos gêmeos retornam à sua cidade natal para recomeçar suas vidas do zero, quando descobrem que um mal ainda maior está à espera deles para recebê-los de volta.


Confesso que escrever sobre Pecadores é quase um exercício de resistência. O novo filme de Ryan Coogler chega cercado de expectativas, seja pelo nome do diretor, seja pelo retorno da parceria com Michael B. Jordan, mas tudo isso se dissolve rapidamente em algo que parece não saber o que quer ser. Desde os primeiros minutos, fica clara a sensação de estar diante de um reboot piorado de Um Drink no Inferno, só que sem o charme, sem o senso de diversão e sem a consciência do próprio exagero que tornavam o filme de 1996 minimamente interessante dentro da sua proposta. Aqui, o que sobra é apenas uma colagem desajeitada de ideias já vistas, mal costuradas e, pior, sem personalidade.

O filme começa tentando se vender como um drama criminal com tintas sociais, algo que até faria sentido dentro da filmografia de Coogler, mas essa intenção logo se perde em uma narrativa enfadonha, arrastada e sem qualquer poder de envolvimento. Nada avança de forma natural. As cenas se acumulam sem ritmo, sem tensão e sem propósito claro, como se o roteiro estivesse sempre prometendo uma virada que nunca chega de maneira satisfatória. Quando essa virada finalmente acontece, o longa simplesmente se transforma em uma coisa bizarra do nada, daquelas mudanças de tom que dão vergonha alheia e fazem o espectador se perguntar se está assistindo ao mesmo filme. Tenho verdadeiro horror a esse tipo de decisão, quando a obra abandona qualquer lógica interna e aposta no choque gratuito, achando que estranheza por si só é sinônimo de ousadia.

Se a narrativa já é problemática, a experiência sonora consegue ser ainda pior. A trilha sonora de Pecadores é uma agressão constante, berrando no ouvido do espectador como se quisesse forçar uma intensidade que o filme jamais alcança por mérito próprio. As músicas escolhidas são todas daquele tipo que me causa rejeição imediata, inseridas sem sutileza, sem respiro e sem qualquer preocupação em dialogar com as cenas. Em vez de criar atmosfera, a trilha apenas cansa, irrita e contribui para tornar a sessão ainda mais exaustiva. Há momentos em que parece que o filme tenta compensar o vazio de ideias aumentando o volume da música, como se isso pudesse esconder a falta de conteúdo.

Michael B. Jordan, normalmente um ator competente dentro de certos limites, aqui entrega talvez uma das piores atuações de sua carreira. E o problema se agrava pelo fato de ele interpretar irmãos gêmeos. A proposta até poderia render algo interessante, mas o resultado é desastroso. Os dois personagens são idênticos em tudo: no jeito de falar, de andar, de reagir e de expressar emoções, que já são praticamente inexistentes. A atuação é tão ruim e tão sem nuances que a solução encontrada pelo filme foi vestir um de vermelho e outro de azul, como se o espectador precisasse de um código de cores para não se perder. Isso não apenas subestima quem assiste, como escancara a incapacidade do ator e da direção de criar personagens minimamente distintos. Em vez de um jogo de espelhos ou conflitos internos, temos apenas Michael B. Jordan em dobro, repetindo os mesmos vícios e a mesma falta de expressão.

O restante do elenco infelizmente não ajuda em nada. Todos parecem deslocados, apáticos, como se estivessem apenas cumprindo tabela. Não há química, não há presença, não há vida em cena. Cada diálogo soa artificial, cada interação parece ensaiada demais e, ao mesmo tempo, vazia. É um desfile de rostos sem emoção, sem carisma e sem qualquer impacto dramático. Em nenhum momento surge um personagem que desperte interesse ou curiosidade. O filme inteiro se torna um grande nada, uma sucessão de cenas que existem apenas para preencher tempo, sem deixar marcas ou provocar reflexões.

Ryan Coogler, que em outros trabalhos demonstrou alguma habilidade em lidar com temas mais densos e personagens em conflito, aqui parece completamente perdido. A direção não consegue dar unidade ao material, nem controlar o tom da narrativa. O que poderia ser um filme provocador se transforma em um amontoado de referências mal digeridas, com decisões estéticas questionáveis e uma condução preguiçosa. Falta pulso, falta clareza e, principalmente, falta propósito. Tudo soa como uma tentativa frustrada de ser estiloso, moderno e impactante, mas sem entender o básico: contar uma boa história.

Ao final, Pecadores se consolida como uma experiência cansativa, irritante e completamente dispensável. Não há um único elemento que se salve, nem mesmo como entretenimento despretensioso. É enfadonho do início ao fim, com uma sensação constante de tempo perdido. Sem medo de exagerar, posso dizer que é, até agora, o pior filme de 2025 que vi, daqueles que já garantem presença certa quando chegar a hora de listar os maiores desastres do ano. Um filme que tenta ser muita coisa ao mesmo tempo e não consegue ser absolutamente nada. Nota zero.

dezembro 27, 2025

Mickey 17 (2025)

 


Título original: Mickey 17
Direção: Bong Joon-Ho
Sinopse: Mickey faz parte de um programa espacial de colonização e sempre é enviado para missões perigosas, quase suicidas. Se morrer, ele é clonado e boa parte de suas memórias são recuperadas. Mas, após seis mortes, ele começa a entender o porquê de seu cargo nunca ter sido ocupado antes.


Quando finalmente terminei de assistir a Mickey 17, de Bong Joon-ho (depois de quase um ano enrolando - e nunca dei a mínima para assistir a Parasita também até hoje), tive a sensação de ter perdido mais de duas horas da minha vida. O filme que prometia ser uma ficção científica provocadora e original acabou se revelando um amontoado de ideias mal costuradas que não funcionam juntas, uma narrativa que tropeça em cada cena tentando ser engraçada, crítica social e grandiosa ao mesmo tempo, sem realmente entregar nada de memorável. A premissa, baseada no romance Mickey7, de Edward Ashton, gira em torno de um homem descartável chamado Mickey Barnes, interpretado por Robert Pattinson, que morre repetidas vezes em missões perigosas para uma corporação de colonização espacial e é clonado com suas memórias restauradas a cada vez. Apesar de haver potencial nessa ideia de um personagem que é literalmente reinventado a cada morte para enfrentar tarefas suicidas em um planeta gelado, a adaptação de Bong transforma isso em um desfile de cenas que parecem pendurar em qualquer conceito antes mesmo de explorá-lo adequadamente. 

A fotografia de Darius Khondji e o design industrial dos cenários tentam transmitir um mundo futurista ameaçador, mas acabam se tornando pano de fundo frio e indiferente para um roteiro que não sabe para onde caminhar. A edição, que poderia ao menos dar ritmo ao conjunto, muitas vezes deixa o filme estagnado em longas sequências onde diálogos expositivos se arrastam sem propósito claro e sem engajamento emocional. As tentativas de humor são forçadas, com piadas que soam deslocadas e uma voz narrativa em off que repete o óbvio em vez de acrescentar profundidade ao protagonista. Os efeitos visuais e o CGI, longe de impressionar, servem apenas para preencher espaço enquanto o enredo oscila entre subtramas que nunca se entrelaçam de forma satisfatória. 

A presença de Robert Pattinson, que encarna tanto a versão 17 quanto a 18 de Mickey, não salva a narrativa cansativa. O ator tenta dar nuances diferentes às duas versões do mesmo personagem, mas sua performance acaba sendo engolida por um roteiro que parece mais interessado em variações de morte e clonagem do que em desenvolver qualquer arco dramático coerente. Em vez de explorar a complexidade de duas personalidades divergentes coexistindo, o filme se perde em clichês de ficção científica e em justificativas narrativas que não levam a lugar algum. 

O que torna Mickey 17 ainda mais difícil de engolir é o desperdício de um elenco que poderia render momentos mais interessantes, se tivesse algo realmente substancial para trabalhar. Mark Ruffalo, cuja presença no elenco já era motivo de preocupação pessoal para mim, entrega um personagem grotesco e caricatural, exagerado ao ponto de se tornar irritante e distrair da história principal. Sua interpretação vai na contramão do que se espera de um vilão ou antagonista complexo, transformando-se em uma figura que só reforça o tom caótico do filme. Naomi Ackie, outro nome que me desagradou profundamente neste contexto, tem uma participação que deveria ser forte, mas que acaba se diluindo em meio ao caos geral da narrativa, sem conseguir imprimir qualquer impacto real na trama ou nas motivações de Mickey. 

A própria estrutura de Mickey 17 é um problema. Ao tentar misturar comédia, drama existencialista, crítica social e aventura espacial, o filme perde sua identidade e se torna uma colcha de retalhos mal costurada. Cada vez que parece estar caminhando para um desenvolvimento interessante, ele muda de direção abruptamente, deixando pistas e subtramas pelo caminho que nunca são concluídas de maneira satisfatória. O resultado é um filme que parece mais preocupado em mostrar que tem “coisas acontecendo” do que em construir uma história coerente e envolvente. 

E isso fica claro na maneira como o roteiro explora temas que poderiam ser fascinantes, como a exploração do valor da vida humana, a crítica à exploração capitalista e as implicações éticas da clonagem. Em vez de aprofundar qualquer uma dessas ideias, Bong Joon-ho dispersa sua atenção em conceitos paralelos que não se conectam organicamente. A sensação ao final da projeção é de frustração, porque por trás de cada cena mal executada parece haver uma ideia melhor e mais interessante que jamais foi desenvolvida. 

O ritmo irregular, a construção narrativa confusa e a falta de foco tornam Mickey 17 um filme frustrante de assistir. Há momentos em que você suspeita que algo relevante está prestes a acontecer, mas logo a trama retorna para giros narrativos óbvios ou para a repetição de situações que já perderam o impacto original. Detalhes como os chamados “creepers”, criaturas alienígenas que deveriam introduzir perigo e mistério, em vez disso se tornam apenas mais um elemento desconexo em meio a um mar de imagens sem significado. 

No fim das contas, Mickey 17 é um projeto que provavelmente ficará esquecido apesar do nome do diretor e das expectativas que cercavam seu lançamento. A dificuldade de manter um tom consistente, a apresentação de personagens que nunca se tornam verdadeiramente interessantes e a maneira como o enredo tropeça em suas próprias ambições fazem com que este seja um dos filmes mais decepcionantes que vi em muito tempo. Não há nada aqui que se encaixe de forma satisfatória, nem um arco emocional que prenda, nem uma reflexão que valha a pena levar para casa. A impressão que fica é de um filme repleto de boas intenções mal realizadas, um espetáculo visual vazio que, mesmo com um elenco conhecido e um diretor talentoso em seu histórico, não encontra nenhuma razão convincente para existir. 

Se você estiver em busca de uma ficção científica que mexa com suas ideias ou personagens cativantes, Mickey 17 simplesmente não entrega. Em vez de provocar ou emocionar, ele apenas arrasta sua audiência por terrenos narrativos desgastados, preenchidos por performances irritantes e um roteiro que parece ter sido construído sem direção clara. É difícil encontrar um único aspecto que salve este filme da monotonia e da confusão, e ele ficará, na minha memória, como um daqueles raros casos em que o nome de um diretor renomado não é suficiente para justificar o tempo que se passa na sala escura do cinema.