Foram 115 filmes elegíveis de 2025 com estreia durante o ano nos Estados Unidos ou no seu país de origem. Abaixo segue a lista dos indicados e o vencedor em negrito.
março 14, 2026
Melhores de 2025
março 12, 2026
Perfectly a Strangeness (2024)
Há filmes que contam histórias. Há filmes que constroem sensações. E há aqueles raríssimos que parecem existir como uma espécie de experiência quase inexplicável, como se não fossem feitos exatamente para serem entendidos, mas para serem sentidos. Perfectly a Strangeness (2024), de Alison McAlpine, pertence com tranquilidade a essa última categoria.
Rodado no deserto do Atacama, entre observatórios astronômicos reais como La Silla e Paranal, o curta parte de uma premissa tão simples quanto estranha: três burros vagam por uma paisagem árida até se depararem com estruturas humanas dedicadas a observar o cosmos. Não há diálogos, não há explicações, não há qualquer tentativa de guiar o espectador de maneira convencional. O que existe é um convite silencioso para olhar o mundo como se fosse a primeira vez.
E talvez seja justamente aí que o filme encontra sua força mais hipnótica. McAlpine, que vem da poesia antes do cinema, constrói aqui algo que se aproxima muito mais de um poema visual do que de um documentário tradicional. Cada imagem parece pensada não apenas como registro, mas como contemplação. O deserto não é só cenário, é um espaço quase metafísico, suspenso no tempo.
A fotografia de Nicolas Canniccioni é, sem exagero, deslumbrante. Há um cuidado quase obsessivo com luz, textura e profundidade. O uso de lentes anamórficas, pensado para tentar reproduzir uma espécie de “olhar animal”, cria imagens que distorcem levemente a realidade, como se estivéssemos vendo o mundo por outra consciência. E isso dialoga perfeitamente com a proposta do filme: não somos nós observando os burros, mas, de certa forma, somos convidados a imaginar como eles observam o mundo.
Existe algo profundamente curioso nessa inversão. Máquinas gigantescas, construídas para estudar o universo, são apresentadas como objetos misteriosos diante de criaturas que não compreendem sua função. E, nesse jogo, o filme parece sugerir algo desconcertante: talvez nós também não compreendamos tanto assim o que estamos vendo quando olhamos para o céu.
A trilha sonora de Ben Grossman reforça essa sensação de estranhamento constante. Fugindo completamente de qualquer padrão reconhecível, os sons parecem surgir mais como ecos do ambiente do que como música propriamente dita. Instrumentos pouco usuais criam uma paisagem sonora que é ao mesmo tempo orgânica e alienígena, como se o próprio universo estivesse emitindo ruídos.
O mais impressionante é como o filme consegue ser, ao mesmo tempo, extremamente simples e profundamente complexo. Na superfície, quase nada acontece. Três animais caminham, exploram, observam. Mas por baixo dessa simplicidade existe um jogo de ideias muito maior, envolvendo percepção, existência e o próprio ato de contar histórias. Não à toa, o curta foi descrito como uma “exploração sensorial do que uma história pode ser”.
Há também um certo humor sutil, quase imperceptível. A presença dos burros em meio àquelas estruturas tecnológicas cria um contraste que beira o absurdo. É como se o filme, em silêncio, risse da nossa necessidade de entender tudo, enquanto coloca diante de nós um universo que continua, essencialmente, inexplicável.
O reconhecimento em festivais como o Festival de Cannes 2024 e a indicação ao Oscar não parecem exageros ou acasos. Perfectly a Strangeness não é um filme que busca agradar ou entreter no sentido tradicional. Ele exige entrega, paciência e, acima de tudo, disposição para se perder.
E talvez seja exatamente isso que o torna tão especial. Em um tempo em que o cinema frequentemente se preocupa em explicar tudo, McAlpine faz o movimento contrário. Ela retira, simplifica, silencia. E nesse silêncio, cria algo que pulsa.
No fim, o curta deixa uma sensação difícil de descrever, como um sonho do qual lembramos apenas fragmentos, mas que ainda assim nos marca profundamente. Não é um filme que se assiste. É um filme que se atravessa. E quando termina, fica a impressão de que, por alguns minutos, estivemos olhando o mundo com olhos que não eram exatamente os nossos.
Jane Austen's Period Drama (2024)
Jane Austen’s Period Drama (2024), dirigido por Julia Aks e Steve Pinder, é um daqueles curtas que parecem nascer de uma ideia quase boba, mas que encontram uma forma surpreendentemente sofisticada de se sustentar. Com apenas cerca de 13 minutos, o filme parte de uma premissa simples e até escrachada, mas a transforma em algo espirituoso, visualmente caprichado e, acima de tudo, bastante inteligente na maneira como lida com seus temas.
A história se passa na Inglaterra de 1813 e acompanha Estrogenia Talbot, interpretada pela própria Aks, no momento exato em que recebe um tão aguardado pedido de casamento. O que deveria ser uma cena típica de um drama de época à la Jane Austen rapidamente descarrila quando ela começa a menstruar, e seu pretendente, completamente perdido, interpreta a situação como uma emergência médica. A partir daí, o curta constrói sua comédia sobre o choque entre ignorância masculina, convenções sociais rígidas e um assunto historicamente tratado como tabu.
O que mais impressiona logo de início é o cuidado estético. A direção aposta em uma recriação bastante fiel do universo dos dramas de época, com figurinos elegantes, iluminação suave e enquadramentos que remetem diretamente às adaptações clássicas de Austen. Esse cuidado não é gratuito. Pelo contrário, ele é essencial para que a piada funcione. Quanto mais sério e refinado o cenário, mais forte se torna o contraste com o tema central, criando um humor que nasce da própria colisão entre forma e conteúdo.
Mas o filme não se apoia apenas no visual. O texto é afiado, cheio de trocadilhos e nomes propositalmente sugestivos, quase infantis, mas usados com consciência para reforçar o tom satírico. Existe aqui uma espécie de humor em camadas. Em um primeiro nível, a situação em si já é engraçada. Em outro, o roteiro brinca com a linguagem e com os códigos do gênero. E, por baixo de tudo isso, há uma crítica bastante clara à forma como a menstruação foi historicamente cercada de silêncio e desinformação.
As atuações acompanham bem essa proposta. Julia Aks constrói uma protagonista que oscila entre o constrangimento social e uma coragem silenciosa que vai crescendo ao longo da narrativa. Já o pretendente, vivido por Lachlan Ta’imua Hannemann, é quase uma caricatura do homem educado, mas completamente despreparado para lidar com algo básico do corpo feminino. Essa dinâmica entre os dois funciona muito bem e sustenta o ritmo do curta, que nunca perde o timing cômico.
Um dos méritos do filme é conseguir manter sua ideia central do início ao fim sem parecer repetitivo. Existe, sim, a sensação de que tudo gira em torno de uma única piada, mas ela é explorada com variações suficientes para não se esgotar. E talvez isso seja justamente o que diferencia o curta de um simples esquete. Ele tem começo, meio e fim bem definidos, e encontra um encerramento que não apenas conclui a piada, mas também reforça seu comentário social.
Outro ponto interessante é como o filme dialoga com o presente sem abandonar sua ambientação histórica. Ao tratar de um tema ainda cercado de desconforto, ele usa o passado como espelho do agora, sugerindo que, apesar de todo o avanço, certas ignorâncias persistem. E faz isso sem soar panfletário. O humor aqui não serve apenas para fazer rir, mas para tornar o assunto mais acessível e menos carregado.
O reconhecimento em festivais e a indicação ao Oscar não parecem exagerados. Trata-se de um curta que entende muito bem o que quer ser e executa sua proposta com precisão, equilíbrio e personalidade. Em um cenário onde muitos filmes curtos apostam no experimental ou no dramático, ver uma comédia tão segura de si ganhar espaço já é, por si só, algo refrescante.
No fim das contas, Jane Austen’s Period Drama funciona porque não tenta ser maior do que precisa. Ele abraça sua premissa absurda, investe nela com convicção e encontra, no meio do riso, uma forma de dizer algo relevante. É leve, é rápido, mas deixa uma marca. E isso, para um curta, já é mais do que suficiente para justificar sua existência.
The Girl Who Cried Pearls (2025)
Desde seus primeiros minutos, The Girl Who Cried Pearls (La Jeune Fille Qui Pleurait des Perles, 2025), dirigido por Chris Lavis e Maciek Szczerbowski, já se apresenta como algo raro: um conto que parece ter sido encontrado, e não criado. Há nele uma sensação quase tátil de antiguidade, como se cada frame carregasse poeira, memória e uma melancolia silenciosa que atravessa gerações.
A história é simples na superfície, mas profundamente carregada de significado. Um jovem pobre se apaixona por uma garota cujo sofrimento se manifesta de forma quase mágica, transformando suas lágrimas em pérolas. A partir disso, o que poderia ser apenas uma fábula romântica se transforma em algo mais sombrio, um estudo delicado sobre ambição, amor e as pequenas escolhas que corrompem lentamente o coração humano.
O que mais impressiona, no entanto, não é apenas a história, mas a maneira como ela é contada. A animação em stop-motion aqui não serve apenas como técnica, mas como linguagem emocional. Cada personagem parece existir de verdade, com imperfeições visíveis, texturas ásperas e movimentos levemente irregulares que tornam tudo mais humano. Há algo de profundamente artesanal na forma como o filme constrói seu universo, como se cada objeto tivesse sido cuidadosamente escolhido para carregar um significado oculto.
Esse cuidado se estende aos cenários, especialmente ao ambiente do antiquário e das ruas inspiradas em uma Montréal do início do século XX, que evocam uma atmosfera quase gótica. Não é um mundo bonito no sentido tradicional, mas é fascinante justamente por sua estranheza. Tudo parece levemente deslocado, como em um sonho que começa encantador, mas aos poucos revela algo inquietante.
A narração de Colm Feore acrescenta uma camada essencial à experiência. Sua voz não guia apenas a história, mas a envolve em um tom de lenda, como se estivéssemos ouvindo algo proibido ou esquecido. Já a trilha sonora de Patrick Watson é um dos grandes trunfos do curta, criando uma atmosfera etérea que oscila entre o encantamento e a tragédia. A música nunca se impõe, mas está sempre presente, como um sussurro constante que acompanha os personagens em suas decisões.
O filme também acerta ao não explicar demais. Há um respeito pelo silêncio, pelo não dito, que faz com que o espectador complete as lacunas. Essa escolha torna a experiência mais envolvente e, ao mesmo tempo, mais perturbadora. A relação entre os personagens é construída com gestos mínimos, olhares e pequenas ações, o que torna o impacto emocional ainda mais forte quando a narrativa começa a se inclinar para a ganância e suas consequências.
E talvez seja justamente aí que The Girl Who Cried Pearls encontra sua maior força. Ele não julga seus personagens de forma simplista. O garoto não é apenas vítima, nem vilão. Ele é humano, falho, suscetível. O filme entende que a linha entre amor e interesse pode ser tênue, e que, muitas vezes, o desejo de proteger ou melhorar a vida de alguém pode abrir portas para escolhas moralmente ambíguas.
Não é por acaso que o curta teve uma trajetória tão forte em festivais e premiações, culminando em reconhecimento máximo dentro da animação mundial. Há nele uma combinação rara de técnica impecável e sensibilidade narrativa, algo que poucos filmes conseguem equilibrar com tanta naturalidade.
No fim, o que fica não é apenas a beleza das imagens ou a engenhosidade da animação, mas uma sensação incômoda e persistente. Como toda boa fábula, o filme não entrega respostas fáceis. Ele deixa uma pergunta ecoando, silenciosa e inevitável: até que ponto o amor resiste quando é colocado à prova pelo desejo de possuir mais?
E é justamente nesse espaço, entre o encanto e a inquietação, que o curta encontra sua grandeza. Ele não quer apenas ser visto. Quer ser sentido, lembrado e, talvez, um pouco temido.
Butcher's Stain (2025)
Butcher’s Stain, dirigido por Meyer Levinson-Blount, é um daqueles curtas que parecem simples à primeira vista, mas carregam uma tensão silenciosa que vai se infiltrando aos poucos. Ambientado quase inteiramente dentro de um supermercado em Tel Aviv, o filme acompanha Samir, vivido por Omar Sameer, um açougueiro árabe-israelense que se vê no centro de uma acusação injusta. Ele é apontado como responsável por retirar cartazes de reféns, algo extremamente sensível no contexto pós-ataques de outubro de 2023, e passa a enfrentar um ambiente de desconfiança que cresce de maneira sufocante ao seu redor .
O que mais chama atenção no filme é justamente a escolha de não transformar essa situação em um grande drama explosivo. Levinson-Blount prefere o caminho oposto. Ele constrói tudo a partir de pequenos gestos, olhares atravessados, silêncios constrangedores. O supermercado deixa de ser apenas um cenário e passa a funcionar como um microcosmo social, refletindo tensões muito maiores que estão fora dali, mas que acabam se infiltrando no cotidiano mais banal . Essa decisão dá ao curta uma força curiosa, porque o conflito nunca precisa ser gritado para ser sentido.
A atuação de Omar Sameer é o grande eixo emocional do filme. Ele interpreta Samir com uma contenção impressionante, evitando qualquer exagero e apostando em uma presença quase resignada. É um personagem que não reage de forma grandiosa, mas absorve tudo, e justamente por isso a injustiça se torna ainda mais incômoda. Existe algo profundamente humano na forma como ele tenta manter sua dignidade enquanto vê sua imagem sendo lentamente corroída pelos outros.
A direção também demonstra uma maturidade surpreendente para um projeto nascido dentro de uma universidade. O filme foi produzido na escola de cinema da Universidade de Tel Aviv, e ainda assim apresenta um domínio claro de ritmo e espaço . A câmera observa mais do que interfere, criando uma sensação de vigilância constante, como se o próprio ambiente estivesse julgando o protagonista. Não há pressa em resolver a história, e isso contribui para um clima de desconforto que permanece até o fim.
Outro ponto interessante é como o roteiro evita respostas fáceis. Não há um grande discurso explicativo nem uma tentativa de simplificar o conflito. Pelo contrário, o filme parece interessado em mostrar como situações assim se constroem a partir de suposições, medos e preconceitos que muitas vezes nem são verbalizados. É uma abordagem que valoriza mais a experiência do que a conclusão, deixando o espectador refletindo sobre o que viu.
Esse tipo de sensibilidade não passou despercebido. O curta ganhou destaque ao conquistar uma medalha de prata no Student Academy Awards e ainda receber uma indicação ao Oscar na categoria de melhor curta-metragem em live-action . Não é difícil entender o porquê. Existe aqui um olhar muito claro sobre o mundo, mas sem cair em discursos panfletários ou simplificações.
No fim das contas, Butcher’s Stain funciona justamente por aquilo que escolhe não fazer. Ele não tenta resolver o conflito político, não busca oferecer conforto e nem transforma seu protagonista em símbolo absoluto de nada. É um filme sobre um homem comum tentando preservar o pouco que tem em um ambiente que começa a tratá-lo como culpado antes mesmo de qualquer prova. E talvez seja exatamente essa simplicidade que o torna tão incômodo e tão necessário.
Retirement Plan (2024)
Retirement Plan, dirigido por John Kelly, é daqueles curtas que parecem simples demais à primeira vista, mas que carregam uma inquietação silenciosa que vai crescendo aos poucos, quase sem que a gente perceba. Em apenas sete minutos, o filme constrói uma reflexão sobre o tempo, as promessas que fazemos a nós mesmos e, principalmente, sobre essa ilusão confortável de que “depois eu faço”.
A história acompanha Ray, um homem de meia-idade que passa boa parte do tempo imaginando tudo o que fará quando finalmente se aposentar. A voz de Domhnall Gleeson conduz o filme inteiro, funcionando como uma espécie de fluxo de pensamento contínuo. E talvez esteja aí uma das maiores forças do curta. Não há grandes diálogos, não há reviravoltas narrativas, apenas essa lista de desejos sendo construída pouco a pouco, como se fosse uma conversa interna que todos nós já tivemos em algum momento da vida.
O roteiro, escrito pelo próprio Kelly ao lado de Tara Lawall, aposta em algo extremamente reconhecível. Não são sonhos grandiosos ou impossíveis. Pelo contrário, são coisas pequenas, cotidianas, até banais. Conversar com um amigo, ter hobbies, aproveitar melhor o tempo. Essa escolha torna o filme quase desconfortável, porque não há distância entre o espectador e o personagem. A lista de Ray poderia facilmente ser a de qualquer um de nós.
Visualmente, o curta segue uma linha minimalista muito consciente. A animação é simples, com poucos movimentos e um estilo quase estático, o que poderia soar limitado em outras mãos, mas aqui funciona como parte essencial da proposta. Kelly não quer impressionar pelo virtuosismo técnico, e sim pelo que está sendo dito. Essa contenção estética faz com que cada pequeno detalhe ganhe peso, e o tempo, tema central da obra, pareça escorrer diante dos olhos do espectador.
Há também um cuidado interessante na forma como o filme lida com o envelhecimento. Sem dramatizações exageradas, acompanhamos a passagem do tempo de maneira quase imperceptível, até que, quando nos damos conta, já é tarde demais. Esse recurso narrativo é simples, mas extremamente eficaz, reforçando a ideia de que a vida não costuma anunciar suas mudanças com alarde.
A narração de Gleeson merece destaque especial. Sua voz carrega um equilíbrio muito bonito entre humor e melancolia. Em alguns momentos, há leveza, quase um tom de autoironia. Em outros, surge uma tristeza contida, como se o personagem já soubesse, no fundo, que está adiando demais aquilo que realmente importa. Essa dualidade sustenta o curta emocionalmente do início ao fim.
Outro ponto interessante é como o filme dialoga com uma ansiedade muito contemporânea. Vivemos cercados por possibilidades, listas, metas e planos futuros, mas, paradoxalmente, isso muitas vezes nos paralisa. Retirement Plan capta exatamente essa sensação de estar sempre se preparando para viver, sem de fato viver.
Mesmo com essa carga reflexiva, o curta não se torna pesado. Há um humor sutil que atravessa toda a narrativa, principalmente na forma como os planos de Ray entram em contraste com a realidade. Esse equilíbrio impede que o filme caia em um tom excessivamente pessimista, mantendo uma certa delicadeza que o torna ainda mais impactante.
No fim, Retirement Plan funciona quase como um espelho incômodo, mas necessário. Não é um filme sobre aposentadoria, no sentido literal, mas sobre adiamento, sobre expectativas e sobre o perigo de transformar a vida em um rascunho eterno. E o mais curioso é que ele não precisa de grandes cenas, nem de complexidade narrativa para atingir esse efeito. Basta uma ideia simples, bem executada, e uma honestidade rara.
É o tipo de curta que termina rápido, mas fica ecoando por muito tempo depois. E talvez essa seja sua maior qualidade. Ele não oferece respostas, não tenta ensinar nada de forma direta, mas planta uma dúvida persistente. Afinal, quantas coisas você também está deixando para depois, como se o tempo fosse garantido?
Os Cantores (2025)
Há algo de profundamente simples em Os Cantores, de Sam A. Davis, mas é justamente dessa simplicidade que nasce sua força. Em um cenário que poderia facilmente se perder no clichê — um bar decadente, homens comuns, uma competição improvisada de canto — o curta encontra uma forma delicada e quase silenciosa de falar sobre pertencimento, solidão e, acima de tudo, sobre a necessidade humana de ser ouvido. Com pouco mais de 18 minutos, o filme constrói uma experiência que parece pequena à primeira vista, mas que cresce dentro do espectador de maneira inesperada.
Inspirado em um conto de Ivan Turgenev, o filme transporta a essência literária para um ambiente contemporâneo sem perder sua alma. A ideia de uma disputa vocal em um pub funciona apenas como ponto de partida. O que está em jogo não é exatamente quem canta melhor, mas quem consegue, por alguns instantes, transformar sua própria vulnerabilidade em algo compartilhável.
Davis filma esse universo com uma intimidade que impressiona. A escolha de trabalhar com película 35mm e enquadramentos mais fechados cria uma sensação de confinamento que não oprime, mas aproxima. Estamos ali dentro daquele bar, quase sentindo o calor da iluminação amarelada, ouvindo o ranger da madeira, percebendo os olhares desconfiados que aos poucos se transformam em cumplicidade. Nada parece artificial. Pelo contrário, há um cuidado evidente em deixar que o ambiente fale por si, como se o filme tivesse sido encontrado, e não construído.
O elenco, formado em grande parte por pessoas descobertas fora do circuito tradicional, talvez seja o maior acerto do filme. Michael Young, Chris Smither e Judah Kelly não interpretam personagens no sentido clássico. Eles parecem existir ali. Suas vozes não são perfeitas, e isso é essencial. Cada canto carrega uma história, uma hesitação, uma tentativa de se afirmar. Existe algo de cru, até meio desajeitado, mas profundamente honesto.
O ritmo do curta também merece atenção. Não há pressa em chegar a lugar algum. As músicas surgem quase como respirações dentro da narrativa, e os silêncios têm tanto peso quanto os momentos de canto. Davis entende que o impacto não está na grandiosidade, mas na observação. Em vez de conduzir o espectador, ele o convida a ficar ali, assistindo, quase como mais um cliente daquele bar esquecido.
E talvez seja justamente isso que torna Os Cantores tão especial. Em um cinema cada vez mais preocupado em impressionar, o filme escolhe o caminho oposto. Ele se interessa pelo que é pequeno, pelo que normalmente passa despercebido. Ao final, pouco importa quem venceu a disputa. O que permanece é a sensação de ter presenciado algo raro: um momento em que pessoas comuns, por alguns minutos, deixaram de ser invisíveis.
Há uma beleza discreta nisso tudo. Uma beleza que não grita, não se impõe, mas que permanece. E quando o curta termina, fica aquela impressão difícil de explicar, como se algo muito simples tivesse dito mais do que muitos filmes longos jamais conseguem. Talvez porque, no fundo, Os Cantores entenda algo essencial: antes de qualquer técnica, antes de qualquer espetáculo, o que realmente nos conecta ainda é a coragem de se mostrar.











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