O filme Nuremberg entra na sala com a ambição de contar um dos capítulos mais densos da história moderna através da lente humana e íntima de um duelo psicológico. James Vanderbilt, que já havia se destacado como roteirista em filmes como Zodíaco, assume aqui não apenas o roteiro, mas também a direção, optando por uma narrativa que privilegia o embate de vontades mais do que uma reconstituição histórica linear. Ao adaptar o livro The Nazi and the Psychiatrist, de Jack El-Hai, ele mergulha no coração moral dos julgamentos que marcaram o fim da Segunda Guerra Mundial, tentando explicar como homens aparentemente comuns chegaram a cometer atrocidades indescritíveis.
O ponto de partida é simples em sua estrutura: após a rendição da Alemanha nazista, o psiquiatra do Exército dos Estados Unidos, Douglas Kelley, interpretado por Rami Malek, é encarregado de avaliar Hermann Göring, papel entregue a Russell Crowe, e outros prisioneiros de alto escalão para determinar se estão mentalmente aptos para enfrentar os julgamentos. A relação entre Kelley e Göring é a espinha dorsal da história e funciona como uma mesa de negociações entre ciência, moral e poder. Crowe domina a cena com uma presença que alterna charme e maldade, dando vida a um Göring que não é apenas vilão caricatural, mas um homem capaz de hipnotizar e manipular. Malek, por sua vez, traz à tona a insegurança escondida sob a fachada racional do seu personagem, embora seu desempenho nem sempre encante da mesma forma que o de seu parceiro de cena, criando uma dinâmica desigual que tira um pouco da força emocional que o roteiro tenta imprimir.
Tecnicamente o filme é sólido. A fotografia de Dariusz Wolski ajuda a transportar o espectador para aquele fim de guerra em que o peso de cada decisão parecia esmagador, mesmo quando filmado com tons relativamente contidos e um ritmo que aposta mais no drama interno do que em momentos de choque visual. A edição de Tom Eagles e a música de Brian Tyler contribuem para manter a narrativa fluindo, embora em alguns momentos o ritmo pareça ponderado demais, quase como se estivesse sempre equilibrando entre um documentário e um drama de tribunal tradicional. Essa escolha de ritmo é compreensível considerando a temática pesada, mas ela também acaba por arrastar algumas partes sem permitir que o espectador absorva plenamente cada cena antes de avançar para a próxima.
A estreia mundial do filme aconteceu no Festival Internacional de Cinema de Toronto, onde foi recebido com uma longa ovação de pé, e isso pode ter criado expectativas muito altas que a obra não consegue sustentar completamente ao longo de suas quase duas horas e meia de duração. O roteiro, por mais que tente explorar o jogo de inteligência e poder entre Kelley e Göring, às vezes cai em conversas que soam mais como explicações históricas de fácil digestão do que como conflitos verdadeiramente envolventes. A tentativa de tornar certos diálogos acessíveis ao público geral faz com que algumas discussões mais complexas percam profundidade, deixando a impressão de que mais tempo foi gasto em frases impactantes do que em desenvolvimento narrativo consistente.
Em termos de elenco de apoio, há nomes que ajudam a ancorar a história, como Michael Shannon interpretando o juiz Robert H. Jackson e Richard E. Grant como Sir David Maxwell Fyfe, figuras que adicionam camadas ao retrato dos julgamentos. Esses atores conseguem trazer nuances que equilibram a carga dramática, mesmo quando a própria narrativa parece hesitar em dar a cada um espaço suficiente para respirar. Porém, a grande maioria desses coadjuvantes acaba funcionando mais como peças de um grande tabuleiro histórico do que como personagens com vida própria, o que empobrece um pouco a experiência emocional do filme como um todo.
Um elemento que certamente divide opiniões é a maneira como Nuremberg lida com o horror representado pelos crimes nazistas. Há momentos em que imagens reais da brutalidade da guerra e dos campos de concentração são exibidas, contrastando fortemente com o restante da dramatização e lembrando ao público o peso histórico por trás de cada conversa teórica. Essa inserção de imagens reais é potente, mas também levanta a questão de que o filme, ao querer tornar muitos aspectos palatáveis e “assistíveis”, às vezes dilui o impacto que uma obra sobre esse tema deveria ter. A escolha de humanizar figuras históricas tão emblematicamente vilanescas é delicada, e aqui ela funciona em parte, mas deixa um sabor de oportunidade perdida em termos de profundidade moral e reflexão crítica.
A direção de Vanderbilt é competente, e há mérito em sua intenção de trazer à tona um capítulo essencial da história da justiça internacional. No entanto, essa ambição também parece ser sua maior limitação. O filme quer ser um drama humano, um thriller psicológico e uma lição de história ao mesmo tempo, e no processo acaba não se aprofundando o bastante em nenhum desses aspectos. Em outras palavras, ele se esforça para cumprir muitos papéis e às vezes não encontra o equilíbrio ideal entre eles. A sensação que fica é de que se trata de uma obra que parece maior do que efetivamente é, porque em vez de ir a fundo nas contradições e complexidades humanas que ampliariam seu impacto, ela prefere consultar seu próprio roteiro e se manter dentro de parâmetros seguros.
No fim das contas, Nuremberg é um filme que merece ser visto por sua proposta ousada e pelas atuações marcantes, principalmente de Crowe, mas que também frustrará quem espera uma narrativa mais ousada ou emocionalmente envolvente. Sua abordagem cuidadosa e, por vezes, excessivamente ponderada, cria uma distância que impede o espectador de se conectar de forma mais visceral com o que está sendo apresentado, reduzindo a intensidade dramática de um enredo que, em teoria, carregaria potencial para impactar muito mais. Ainda assim, é um trabalho respeitável que cumpre em parte sua missão de lembrar ao público a importância de não esquecer os horrores do passado e de refletir sobre as falhas e limites da justiça humana.
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