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setembro 24, 2026

Coração Selvagem (2026)

 


Título original: Heart of the Beast
Direção: David Ayer
Sinopse: Um ex-soldado ferido e seu cão de guerra aposentado lutam para sobreviver na região do Alasca e encontrar o caminho de volta para casa após um acidente aéreo na mata.


Coração Selvagem é daqueles filmes que parecem ter uma premissa extremamente simples, mas que conseguem encontrar dentro dela espaço para falar de companheirismo, sobrevivência, trauma e, principalmente, da relação quase inexplicável que pode existir entre um ser humano e seu cão. Dirigido por David Ayer, o longa acompanha James Belmont, interpretado por Brad Pitt, um veterano das Forças Especiais que acaba isolado no imenso e hostil território do Alasca depois de um acidente aéreo. Ao seu lado está Odin, seu cão de combate e companheiro de muitos anos. A partir daí, o que poderia ser apenas mais uma aventura de sobrevivência transforma-se em uma história sobre dois personagens que precisam um do outro para continuar avançando.

O grande mérito de Ayer está justamente em não tratar Odin como um simples animal de apoio ao protagonista. O cão é, de fato, um dos personagens centrais da narrativa. Existe uma comunicação entre os dois que praticamente dispensa diálogos, construída por olhares, movimentos, gestos e pela maneira como um reage imediatamente ao comportamento do outro. James e Odin possuem uma história anterior ao acidente, marcada pela experiência militar e por situações extremas que criaram entre eles uma confiança absoluta. Por isso, quando tudo ao redor desaparece, o relacionamento entre os dois se torna naturalmente o coração do filme.

Brad Pitt funciona muito bem porque não tenta transformar James em um herói invencível. Pelo contrário, existe bastante vulnerabilidade em sua interpretação. O personagem está fisicamente desgastado e também carrega marcas emocionais de seu passado, e o isolamento no Alasca faz com que essas fragilidades fiquem ainda mais evidentes. Pitt consegue transmitir muito através do silêncio, especialmente nas cenas em que James simplesmente observa Odin ou tenta compreender o próximo passo da jornada. É uma atuação mais contida do que expansiva, mas justamente por isso combina com a proposta do filme.

Só que, convenhamos, o verdadeiro dono da produção é Odin. O cachorro tem uma presença impressionante e consegue roubar praticamente todas as cenas em que aparece. Há momentos em que basta olhar para ele para entender exatamente o que está acontecendo emocionalmente com James. A equipe encontrou em Uber, um cão de resgate das montanhas da Nova Zelândia, e em seus três filhos os animais que interpretam Odin, depois de uma extensa busca por cães capazes de realizar o trabalho exigido pelo filme. Essa experiência anterior de Uber como cão de busca e resgate ajuda a explicar a naturalidade de sua presença diante das câmeras.

Aliás, fica aqui a campanha oficial: Oscar de Melhor Ator para o cão Odin! E não seria nem exagero dizer que ele merece uma indicação especial simplesmente pela capacidade de transmitir personalidade sem precisar dizer absolutamente nada. Existe uma inteligência na maneira como Odin é filmado e utilizado dentro da narrativa que impede que suas participações pareçam apenas truques para provocar emoção. Ele realmente participa da história e muitas vezes é justamente quem conduz James para a próxima etapa da sobrevivência.

A paisagem do Alasca também funciona quase como um terceiro protagonista. O filme aproveita muito bem a grandiosidade do ambiente, mostrando montanhas, rios, neve, florestas e áreas completamente isoladas da civilização. A fotografia de Mauro Fiore acompanha a transformação da viagem de uma experiência inicialmente contemplativa para uma luta cada vez mais desesperada pela sobrevivência. No começo, a câmera pode observar aquele cenário com certa distância e beleza. Conforme a situação de James e Odin piora, ela se aproxima dos personagens, fica mais instável e passa a transmitir uma sensação maior de perigo.

Essa mudança contribui bastante para a experiência porque Coração Selvagem não depende de ação constante para manter o interesse. O filme entende que caminhar durante horas por um território desconhecido, atravessar uma área perigosa ou simplesmente tentar encontrar água e abrigo pode ser tão tenso quanto uma grande sequência de perseguição. É um tipo de aventura que recupera uma simplicidade que muitas produções contemporâneas parecem ter esquecido. O objetivo é bastante claro: sobreviver e voltar para casa.

Isso não significa que o filme seja perfeito. Em alguns momentos, a sucessão de dificuldades enfrentadas pelos protagonistas começa a parecer um pouco exagerada, como se a natureza estivesse determinada a não permitir que os dois tenham sequer alguns minutos de tranquilidade. Certas situações poderiam ter sido desenvolvidas com um pouco mais de equilíbrio, especialmente porque a relação entre James e Odin já seria suficiente para sustentar boa parte da emoção. Ainda assim, esses excessos não chegam a comprometer a experiência.

A direção de David Ayer também encontra um equilíbrio interessante entre o filme de sobrevivência e o drama humano. O diretor, acostumado a histórias de homens submetidos a situações extremas, encontra aqui uma maneira mais íntima de trabalhar esse universo. Em vez de concentrar tudo em confrontos humanos, violência ou grandes discursos, Ayer coloca seu protagonista diante da natureza e de seu próprio passado. O resultado é um filme que funciona melhor quando simplesmente deixa James e Odin juntos em cena.

Com pouco mais de uma hora e meia, Coração Selvagem também não perde tempo demais tentando complicar aquilo que funciona justamente por ser simples. É uma aventura emocional sobre confiança, lealdade e sobrevivência, mas também uma história de amizade entre dois companheiros que já passaram por situações que nenhum dos dois consegue explicar completamente. Brad Pitt entrega um protagonista convincente, mas Odin é quem permanece na memória depois dos créditos.

No fim, Coração Selvagem pode até seguir uma estrutura conhecida, mas consegue fazer algo importante: fazer o público se importar genuinamente com seus dois protagonistas. E quando um filme consegue transformar a caminhada de um homem e seu cachorro por uma região selvagem em uma experiência envolvente e emocionante, já existe ali uma vitória considerável. No caso de Odin, fica apenas uma questão em aberto: se a Academia realmente levar cachorros em consideração algum dia, podem preparar o discurso, porque o Oscar de Melhor Ator já tem dono.

setembro 23, 2026

Zona Zero (2026)

 


Título original: 군체
Direção: Yeon Sang-ho
Sinopse: De repente, um vírus que sofre mutações rápidas é liberado em uma conferência de biologia, forçando o isolamento imediato do local. A contaminação se espalha rapidamente, e os infectados não apenas atacam, eles evoluem de formas imprevisíveis e cada vez mais perigosas. Presos nesse confinamento, um grupo de sobreviventes precisa lutar pela própria vida enquanto, a cada minuto, as regras do jogo mudam.


Zona Zero, dirigido por Yeon Sang-ho, parte de uma ideia que, no papel, parece bastante promissora: e se os zumbis deixassem de ser apenas criaturas violentas que perseguem seres humanos e passassem a funcionar como uma espécie de organismo coletivo, capaz de aprender, trocar informações e modificar seu comportamento em tempo real? É justamente dessa premissa que nasce o novo filme do diretor de Invasão Zumbi, que retorna ao gênero que ajudou a consolidar sua carreira internacional. O problema é que, apesar de algumas boas ideias e de momentos visualmente interessantes, Zona Zero nunca consegue transformar completamente sua proposta original em uma experiência realmente envolvente.

A história começa durante uma conferência de biotecnologia realizada em um grande edifício de Seul. O biólogo Seo Young-cheol, interpretado por Koo Kyo-hwan, anuncia uma ameaça antes que uma infecção se espalhe pelo prédio e transforme rapidamente os presentes. Entre os sobreviventes está a cientista Kwon Se-jeong, vivida por Jun Ji-hyun, que passa a observar o comportamento dos infectados enquanto tenta encontrar uma maneira de escapar daquele verdadeiro labirinto vertical. Ao lado dela estão personagens interpretados por Ji Chang-wook, Kim Shin-rok, Shin Hyun-been e Go Soo, todos tentando sobreviver enquanto percebem que estão lidando com algo muito diferente dos zumbis tradicionais.

Essa é justamente a principal novidade de Zona Zero. Os infectados não seguem regras fixas. Eles aprendem, mudam de comportamento e compartilham informações como se fossem partes de uma única criatura. Em determinado momento podem se movimentar de maneira quase animalesca, enquanto depois demonstram uma capacidade muito maior de organização. A ideia de uma inteligência coletiva é interessante porque transforma a ameaça em algo menos previsível. Não existe simplesmente um grupo de monstros avançando de maneira descontrolada. Existe uma espécie de sistema que observa, experimenta e aprende com os próprios erros.

Yeon Sang-ho também encontra uma maneira visual de diferenciar seus zumbis. Os movimentos são estranhos, muitas vezes desconfortáveis, e os corpos parecem se transformar em uma massa única. O uso de dançarinos para construir parte desses movimentos ajuda a criar uma identidade física própria para os infectados. Em vez de depender apenas de maquiagem grotesca ou de violência explícita, o filme tenta fazer com que o próprio movimento dos corpos provoque estranhamento. É uma escolha interessante e, em alguns momentos, realmente funciona.

O problema é que a novidade conceitual acaba sendo mais interessante do que a história construída ao redor dela. A narrativa passa boa parte do tempo explicando as regras daquele novo tipo de zumbi, enquanto os personagens humanos nem sempre recebem o mesmo cuidado. Kwon Se-jeong é uma protagonista competente e funciona bem como os olhos do público diante daquela situação, mas vários personagens secundários parecem existir principalmente para cumprir determinadas funções dentro da trama. Quando o filme deveria fazer com que o espectador se importasse com a sobrevivência daquele grupo, muitas vezes está mais preocupado em mostrar a próxima transformação dos infectados.

A escolha de concentrar praticamente toda a ação em um grande edifício também produz resultados irregulares. Por um lado, o espaço fechado ajuda a criar uma sensação de confinamento. Corredores, salas, áreas comerciais e diferentes andares se transformam em obstáculos que precisam ser atravessados. Por outro, depois de algum tempo, a repetição dessas situações começa a diminuir o impacto. O filme apresenta uma nova regra, os personagens tentam descobrir como escapar, alguma coisa dá errado e surge uma nova variação dos infectados. Esse mecanismo funciona durante determinado período, mas não consegue sustentar sozinho uma produção com mais de duas horas de duração. A produção tem aproximadamente 122 minutos, e em alguns trechos a impressão é de que a ideia central já poderia ter chegado ao seu ponto máximo antes do encerramento.

A direção de Yeon Sang-ho continua demonstrando segurança quando precisa construir cenas de caos. O diretor sabe trabalhar com espaços apertados e transformar uma situação aparentemente simples em uma sequência de perseguição. Há também uma preocupação evidente em fazer com que os zumbis tenham personalidade visual própria. O filme não parece interessado em simplesmente repetir aquilo que já foi feito em Invasão Zumbi ou Invasão Zumbi 2: Península. A intenção é claramente experimentar outra possibilidade dentro do gênero. O resultado, entretanto, é menos impactante do que a proposta faz imaginar.

Jun Ji-hyun é provavelmente o elemento humano mais consistente da produção. Sua personagem não é construída como uma heroína de ação tradicional, mas como alguém que tenta compreender racionalmente aquilo que está acontecendo. Isso combina com a própria proposta do filme, já que o espectador acompanha a evolução dos infectados praticamente junto com ela. Koo Kyo-hwan também aproveita bem a estranheza de seu personagem, enquanto Ji Chang-wook e Kim Shin-rok ajudam a manter o grupo de sobreviventes minimamente interessante. Ainda assim, o roteiro dá mais atenção à mecânica do apocalipse do que às relações entre essas pessoas.

É justamente aí que Zona Zero fica dividido entre ser uma experiência de terror e uma experiência de ficção científica. Quando aposta no suspense e na ameaça física, o filme funciona melhor. Quando tenta desenvolver sua reflexão sobre inteligência coletiva, humanidade e comportamento de massa, existem boas ideias, mas elas são apresentadas de maneira bastante direta. Yeon Sang-ho parte da comparação entre humanos e infectados para questionar quem realmente está evoluindo e quem está regredindo. Enquanto os zumbis começam em um estado quase primitivo e rapidamente aprendem a trabalhar em conjunto, os seres humanos vão abandonando a cooperação e revelando seus instintos de sobrevivência. É uma ideia interessante, embora o filme nem sempre consiga aprofundá-la como poderia.

Tecnicamente, Zona Zero é competente, especialmente na criação dos infectados e na utilização do espaço. A fotografia ajuda a transformar o edifício em um ambiente cada vez mais ameaçador, enquanto a montagem mantém boa parte das sequências de ação em movimento. A trilha sonora e o desenho de som também colaboram para aumentar a sensação de perigo, principalmente quando os personagens percebem que os infectados estão começando a agir de maneira coordenada. Nada disso, porém, chega a ser particularmente memorável.

O filme ainda carrega a expectativa de ser mais uma grande reinvenção do cinema de zumbis de Yeon Sang-ho, mas talvez esse seja justamente um dos seus problemas. A proposta é suficientemente diferente para despertar curiosidade, mas não suficientemente desenvolvida para provocar o impacto que poderia. Há momentos realmente criativos, algumas imagens bastante perturbadoras e uma ideia central que merecia um roteiro mais ousado. Em contrapartida, existe uma certa repetição na estrutura e uma dificuldade em transformar conceitos interessantes em emoção genuína.

Zona Zero está longe de ser um desastre. É uma produção bem realizada, com bons atores, uma concepção visual diferente para seus infectados e uma tentativa válida de encontrar uma nova abordagem para um gênero extremamente explorado. Também é possível perceber que Yeon Sang-ho continua interessado em utilizar o cinema de zumbis para falar sobre comportamento humano, e não apenas para criar cenas de perseguição. O problema é que, desta vez, a execução fica abaixo da força da ideia.

No fim, Zona Zero deixa a sensação de uma experiência curiosa, mas irregular. Quando o filme está concentrado nos infectados e em sua capacidade de aprender coletivamente, existe uma energia genuína e uma sensação de novidade. Quando precisa sustentar a narrativa através dos personagens e de uma história mais emocional, perde força. É um filme que tem boas ideias, alguns momentos muito interessantes e uma identidade própria, mas que poderia ter ido muito mais longe. Para quem esperava uma nova grande referência dentro do cinema de zumbis de Yeon Sang-ho, o resultado acaba sendo apenas razoável.

setembro 22, 2026

O Fantasma da Ópera (1925)

 


Título original: The Phantom of the Opera
Direção: Rupert Julian
Sinopse: Um compositor grotescamente desfigurado conhecido como o "Fantasma" assombra a casa de ópera de Paris, onde, apaixonado, ajuda secretamente Christine Daae a ser uma diva da ópera. Após atraí-la para seu covil subterrâneo, o Fantasma declara seu amor por ela. Mas Christine ama Raoul de Chagny e planeja fugir com ele depois de sua próxima apresentação. Quando o Fantasma descobre, ele rapta Christine, provocando a ira de Raoul - e uma horda de parisienses raivosos.


Há filmes que permanecem importantes para a história do cinema mesmo quando, vistos muitas décadas depois, já não conseguem provocar o mesmo impacto que provavelmente causaram em sua época. O Fantasma da Ópera, dirigido por Rupert Julian em 1925, é um desses casos. A adaptação do romance de Gaston Leroux possui uma enorme importância para o desenvolvimento do horror cinematográfico e apresenta momentos visualmente marcantes, mas também sofre de um problema que pesa bastante na experiência atual: é exageradamente arrastado.

A história acompanha Christine Daaé, uma jovem cantora que começa a receber a influência misteriosa de uma voz que parece surgir das profundezas da Ópera de Paris. Por trás desse fenômeno está Erik, o Fantasma interpretado por Lon Chaney, um homem desfigurado que vive escondido nos subterrâneos do teatro e desenvolve uma obsessão pela cantora. Christine acredita inicialmente que aquela presença seja uma espécie de Espírito da Música, até descobrir a verdadeira identidade do homem que a acompanha secretamente. Ao mesmo tempo, existe o romance com Raoul, criando o tradicional triângulo amoroso que conduz boa parte do conflito.

O grande problema é que a narrativa demora demais para chegar aos momentos realmente interessantes. A duração original, superior a uma hora e meia, poderia não parecer excessiva pelos padrões atuais, mas o ritmo é muito irregular. Muitas cenas se prolongam além do necessário, enquanto determinadas situações são repetidas ou desenvolvidas de maneira bastante lenta. O resultado é uma obra que frequentemente parece estar esperando pelo próximo acontecimento em vez de conduzir o espectador naturalmente até ele. O excesso de intertítulos e a estrutura melodramática também contribuem para essa sensação.

Ainda assim, existem elementos que continuam impressionantes. A produção da Universal investiu pesado na construção da Ópera de Paris, incluindo enormes cenários para o teatro, os corredores e as áreas subterrâneas. A direção de arte cria uma dimensão quase labiríntica para aquele universo, especialmente quando Christine é levada para as regiões escondidas sob o edifício. A sensação de que existe uma cidade inteira escondida abaixo da superfície da Ópera é uma das melhores ideias visuais do filme.

A fotografia também tem momentos muito interessantes. Como acontece com boa parte do cinema silencioso daquele período, a iluminação e a composição dos enquadramentos precisam assumir funções que posteriormente seriam divididas com o som. As sombras, os ambientes escuros e a própria arquitetura ajudam a criar uma atmosfera gótica bastante característica. As sequências da Ópera são especialmente grandiosas, com grandes multidões, figurinos elaborados e uma preocupação evidente em transmitir a sensação de um espetáculo monumental.

O destaque absoluto, porém, é Lon Chaney. Seu trabalho como o Fantasma continua sendo o elemento mais fascinante da produção. O ator constrói o personagem principalmente através de gestos, expressões e movimentos corporais, já que o cinema ainda não tinha diálogo sonoro para ajudá-lo. Mesmo quando permanece em silêncio, Chaney consegue transmitir ameaça, sofrimento, obsessão e desespero. Seu rosto transformado pela maquiagem também se tornou uma das imagens mais famosas do cinema de horror. A cena em que Christine retira sua máscara e revela seu rosto permanece como um dos grandes momentos da obra, principalmente porque a aparência do personagem foge completamente do padrão de beleza convencional do cinema daquela época.

Mary Philbin funciona bem como Christine, embora a personagem seja muito mais passiva do que uma protagonista contemporânea provavelmente seria. Norman Kerry, por sua vez, cumpre a função de interesse romântico e contraponto ao Fantasma, mas Raoul nunca consegue despertar o mesmo interesse que Erik. Isso acontece principalmente porque Chaney domina praticamente todas as cenas em que aparece.

Também chama atenção o uso de sequências coloridas em meio ao material em preto e branco. A versão restaurada atualmente exibida em algumas sessões incorpora os diferentes processos de coloração utilizados nas versões históricas, incluindo o Technicolor da sequência do baile. Essas passagens ajudam a quebrar visualmente a monotonia do preto e branco e mostram como o cinema da época já experimentava diferentes possibilidades para ampliar o impacto de determinadas cenas.

O problema é que toda essa importância histórica não consegue esconder as limitações da experiência cinematográfica. O filme parece muito mais interessado em construir uma sucessão de acontecimentos do que em desenvolver verdadeiramente seus personagens. A atmosfera é boa, os cenários são impressionantes e Lon Chaney oferece uma atuação memorável, mas a história se torna cansativa em diversos momentos. O melodrama também envelheceu bastante, tornando algumas relações e comportamentos excessivamente artificiais.

É curioso perceber que justamente aquilo que deveria tornar O Fantasma da Ópera assustador acaba sendo menos eficiente hoje. O horror está muito mais associado à imagem do Fantasma, aos subterrâneos e à própria ideia de um homem escondido nas entranhas da Ópera do que às situações de suspense propriamente ditas. O filme é mais interessante como documento de uma época e como demonstração do talento visual de seus realizadores do que como experiência de terror capaz de prender completamente o espectador moderno.

Ainda assim, seria injusto ignorar o peso de sua realização. A Universal construiu uma produção gigantesca para os padrões do período, com cenários elaborados, centenas de figurantes em determinadas sequências e um cuidado considerável com figurinos e ambientação. A presença de Lon Chaney também garante ao filme uma personalidade que muitas produções silenciosas da mesma época não possuem.

O Fantasma da Ópera permanece, portanto, como uma obra fundamental para compreender a evolução do horror no cinema, mas sua importância histórica é maior do que sua capacidade de entretenimento atualmente. Há imagens inesquecíveis, uma ambientação admirável e uma atuação central que continua chamando atenção, mas tudo isso está preso a uma narrativa excessivamente lenta e melodramática. É um filme que merece ser conhecido, principalmente por aquilo que representa na história da sétima arte, mas que exige bastante paciência de quem chega a ele mais de um século depois.

setembro 21, 2026

Resident Evil (2026)

 


Título original: Resident Evil
Direção: Zach Cregger
Sinopse: Bryan, um tranquilo entregador, é enviado para uma entrega noturna no Hospital Geral de Raccoon City. No caminho por uma estrada montanhosa coberta de neve, ele acidentalmente atropela uma mulher desconhecida. Ela sobrevive, mas algo está muito errado. Ao tentar ajudar, Bryan se depara com um surto em larga escala envolvendo mutações horríveis com tentáculos e monstruosidades bioengenheiradas.


Resident Evil, de Zach Cregger, é daqueles filmes que podem provocar uma certa confusão antes mesmo de começar. Afinal, quem conhece os jogos da Capcom provavelmente vai esperar personagens conhecidos, situações reconhecíveis e uma adaptação mais diretamente ligada àquilo que já existe nos videogames. Só que não é isso que o diretor está interessado em fazer. O filme praticamente pega o nome, o universo e alguns elementos fundamentais da franquia e constrói outra coisa em cima deles. E, curiosamente, é justamente por não tentar reproduzir os jogos que acaba funcionando tão bem como cinema.

A história acompanha Bryan, interpretado por Austin Abrams, um simples entregador de medicamentos que chega a Raccoon City durante uma noite que rapidamente se transforma em um pesadelo. O protagonista não é um policial treinado, um agente especial ou algum personagem extraordinário. É apenas um sujeito comum que se vê no lugar errado, na hora errada, tentando entender o que está acontecendo enquanto a cidade mergulha no caos. A escolha é interessante porque coloca o espectador na mesma posição de Bryan. Ele não sabe exatamente o que está acontecendo e precisa descobrir as coisas enquanto avança.

É aí que o filme encontra sua principal qualidade. Resident Evil tem uma estrutura extremamente simples e direta, quase como uma grande corrida de sobrevivência. Bryan precisa sair de um ponto e chegar a outro, passando por diferentes ambientes e encontrando novas ameaças pelo caminho. A narrativa não perde tempo com longas explicações ou com uma quantidade exagerada de personagens e subtramas. Em pouco mais de uma hora e meia, Cregger consegue estabelecer o cenário, apresentar o problema e conduzir a história em ritmo bastante acelerado. O resultado é um filme enxuto, que sabe exatamente quanto tempo precisa permanecer em cada situação antes de seguir adiante.

E é justamente aqui que aparece uma das maiores ironias da produção: Resident Evil praticamente não tem nada a ver com o jogo, pelo menos no sentido tradicional de uma adaptação. Não é uma versão cinematográfica de Resident Evil 2, não reconta a história de Leon ou Claire e tampouco tenta reproduzir uma aventura específica da franquia. Bryan é um personagem original e a trama também é nova. A ligação está muito mais na atmosfera, na lógica de sobrevivência, na sensação de progressão e em pequenos elementos reconhecíveis para quem conhece os jogos. Cregger declarou que preferia reproduzir a sensação de jogar Resident Evil a simplesmente transportar uma história já contada nos videogames para o cinema, e essa decisão fica bastante evidente.

Isso não significa que o filme seja indiferente ao material de origem. Pelo contrário. Há uma preocupação clara em incorporar pequenas referências, objetos, situações e conceitos associados aos jogos. A Umbrella Corporation continua presente, assim como o T-Virus e a ideia de uma cidade tomada por criaturas. O próprio desenvolvimento do protagonista remete à progressão típica dos games, começando praticamente sem saber o que fazer e aprendendo a sobreviver conforme a situação piora. O filme ainda utiliza a mudança constante de ambientes como parte da experiência, algo que Cregger considera essencial para reproduzir no cinema a sensação de avançar por diferentes áreas de um jogo.

Mas, acima de tudo, Resident Evil é muito divertido. Essa talvez seja a melhor maneira de definir a experiência. O filme não parece preocupado em provar que é uma grande obra de terror, nem tenta transformar a franquia em algo excessivamente sofisticado. Ele simplesmente quer entregar uma boa aventura de horror, com tensão, criaturas, situações absurdas e uma boa dose de humor. E consegue fazer isso sem deixar que a comédia destrua completamente o clima.

Os poucos jump scares são outro ponto positivo. Em vez de construir praticamente todas as cenas em torno daquele susto previsível acompanhado por uma explosão sonora, Cregger prefere criar situações de expectativa e deixar que o espectador imagine o que pode aparecer. Quando o susto acontece, ele tende a funcionar justamente porque não é utilizado o tempo inteiro. O humor também está no nível certo. Existem momentos engraçados, principalmente pela própria situação desesperadora em que Bryan se encontra, mas o filme nunca parece estar tentando fazer uma paródia de Resident Evil. A graça surge naturalmente das circunstâncias e da personalidade do protagonista.

Austin Abrams ajuda bastante nesse equilíbrio. Bryan não é apresentado como um herói convencional, e o ator consegue transmitir muito bem o desespero de alguém completamente despreparado para aquele tipo de situação. Há uma vulnerabilidade no personagem que torna sua jornada mais divertida e também mais envolvente. Ele não parece invencível e não possui respostas para tudo. É justamente essa condição de pessoa comum que faz com que suas reações sejam tão fáceis de acompanhar.

Visualmente, o filme também encontra uma identidade própria. A fotografia explora bastante a noite, a neve e os espaços urbanos de Raccoon City, criando uma aparência fria e desconfortável. As locações filmadas principalmente em Praga ajudam a construir uma cidade que parece real, mas ao mesmo tempo ligeiramente estranha, como se alguma coisa estivesse errada mesmo antes de o horror começar. As criaturas são outro destaque, com efeitos que procuram preservar uma aparência física concreta em vez de transformar tudo em uma sucessão de imagens digitais indistintas.

A direção de Cregger é talvez o elemento que mais impede o filme de se tornar apenas mais uma produção genérica de zumbis. Depois de Noites Brutais e A Hora do Mal, o diretor demonstra novamente facilidade para controlar ritmo e tensão, mas aqui trabalha com uma proposta muito mais simples. Não há necessidade de grandes reviravoltas a cada dez minutos. O prazer está em acompanhar a escalada do caos e descobrir qual será o próximo ambiente e qual será a próxima ameaça.

No fim das contas, é justamente essa simplicidade que faz Resident Evil funcionar. Quem procurar uma adaptação fiel aos jogos provavelmente poderá sair decepcionado, porque este filme definitivamente não é isso. Mas quem aceitar a proposta de uma história nova ambientada nesse universo encontrará um excelente entretenimento. É rápido, divertido, bem produzido, tem violência suficiente para satisfazer a proposta, poucos sustos realmente eficientes e um humor que raramente ultrapassa o limite. Não reinventa o cinema de horror, mas também não precisa fazê-lo. Cregger entende que, às vezes, tudo o que um filme precisa oferecer é uma boa noite de diversão, e Resident Evil entrega exatamente isso.

O Fim da Rua (2026)

 


Título original: The End of Oak Street
Direção: David Robert Mitchell
Sinopse: Após um misterioso evento cósmico abalar o bairro Oak Street e o transportar dos subúrbios para um lugar desconhecido, a família Platt descobre que sua sobrevivência vai depender da união entre todos para enfrentar um ambiente agora irreconhecível.


Há filmes que conseguem chamar a atenção simplesmente porque partem de uma ideia que parece impossível de ignorar. O Fim da Rua, novo trabalho de David Robert Mitchell, certamente pertence a essa categoria. A proposta é extremamente original: uma pacata vizinhança suburbana dos Estados Unidos, ambientada no início dos anos 1980, é arrancada de seu lugar por um misterioso fenômeno cósmico e transportada para um ambiente completamente desconhecido, onde a família Platt descobre que, além de estar isolada do restante do mundo, terá de conviver com dinossauros. É uma premissa que mistura ficção científica, aventura, suspense, humor e drama familiar de uma maneira pouco convencional. O problema é que uma ideia tão boa acaba sendo prejudicada por uma execução que nem sempre consegue acompanhar o potencial do próprio conceito.

Mitchell, conhecido por filmes como Corrente do Mal e O Mistério de Silver Lake, constrói aqui uma história que começa quase como um drama familiar. Greg e Denise Platt, interpretados por Ewan McGregor e Anne Hathaway, vivem uma relação desgastada, enquanto os filhos Audrey e Brian percebem que existe alguma coisa errada entre os pais. A rotina aparentemente normal da família vai sendo lentamente contaminada por acontecimentos estranhos, até que o bairro inteiro deixa de ser aquilo que conhecemos. Essa escolha funciona bastante bem no começo, porque o contraste entre uma rua residencial perfeitamente comum e a presença de criaturas pré-históricas é justamente o que torna a proposta tão interessante.

A ambientação dos anos 1980 também ajuda muito. A direção de arte cria uma vizinhança que parece saída de uma memória cinematográfica daquela década, com casas, carros, roupas e objetos que reforçam a sensação de estarmos diante de uma espécie de subúrbio americano congelado no tempo. O filme claramente gosta desse imaginário e utiliza a aparência daquela época não apenas como decoração, mas como parte importante da experiência. Há uma tentativa evidente de recuperar o espírito das aventuras e ficções científicas que misturavam situações familiares com acontecimentos extraordinários, algo que combina com a própria ideia de colocar uma ameaça pré-histórica no meio de uma rua residencial.

Anne Hathaway e Ewan McGregor também fazem o possível para dar humanidade a uma história que rapidamente poderia cair no absurdo pelo simples prazer do espetáculo. Hathaway consegue transmitir bem a frustração de Denise e sua transformação diante das circunstâncias extremas, enquanto McGregor constrói um Greg inicialmente perdido dentro da própria vida. Mais interessante, porém, é acompanhar os filhos e perceber como o perigo externo acaba obrigando aquela família problemática a se aproximar. O relacionamento entre eles não é exatamente revolucionário, mas oferece ao filme uma base emocional necessária.

É justamente aí que O Fim da Rua encontra seus melhores momentos. Quando o filme deixa de tentar explicar demais o fenômeno e simplesmente coloca aquelas pessoas tentando sobreviver naquele cenário impossível, ele funciona muito bem. A ideia de transformar uma rua suburbana em uma espécie de território pré-histórico é visualmente divertida e permite situações que dificilmente poderiam existir em um filme convencional sobre dinossauros. Há uma sensação interessante de descoberta, principalmente quando os personagens começam a compreender que as regras do mundo que conheciam simplesmente deixaram de existir.

Infelizmente, a execução não mantém a mesma força da ideia. O roteiro apresenta situações muito boas, mas nem sempre sabe o que fazer com elas. Algumas relações familiares parecem mais importantes no início do que realmente se tornam depois, enquanto determinados acontecimentos parecem introduzidos apenas para movimentar a história de um ponto para outro. A narrativa também alterna momentos de suspense, humor e drama de maneira um pouco irregular. Em algumas passagens essa mistura é divertida, mas em outras fica a impressão de que o filme poderia ter desenvolvido melhor aquilo que tinha nas mãos.

E há ainda um problema que incomoda bastante: os efeitos visuais. É incrível como o CGI dos dinossauros consegue parecer tão artificial em um filme de 2026. Já se passaram 33 anos desde Jurassic Park, que em 1993 conseguiu estabelecer um nível impressionante de realismo ao combinar efeitos digitais e animatrônicos, e ainda assim O Fim da Rua apresenta criaturas que frequentemente parecem pertencer a uma produção muito mais barata. Em determinados momentos, os dinossauros não possuem peso, textura ou integração convincente com os ambientes ao redor. A movimentação também denuncia demais o caráter digital das criaturas.

Isso é particularmente frustrante porque o próprio filme depende completamente dessa interação entre o cotidiano e o extraordinário. A graça da proposta está justamente em imaginar dinossauros andando entre casas, jardins, carros e ruas comuns. Quando os animais parecem inseridos digitalmente sobre a imagem, parte significativa dessa ilusão desaparece. O Fim da Rua acaba entrando em uma lista cada vez maior de filmes atuais que possuem conceitos ambiciosos, grandes estúdios e personagens famosos, mas entregam efeitos visuais que parecem ter recebido menos atenção do que deveriam. Fica até a sensação de que faltou dinheiro ou tempo para fazer os dinossauros parecerem realmente convincentes, o que é difícil de aceitar em uma produção desse porte.

A fotografia de Michael Gioulakis, por outro lado, contribui para criar uma atmosfera bastante particular. Mitchell utiliza movimentos de câmera e enquadramentos que valorizam a arquitetura da vizinhança, transformando a própria rua em um personagem. A trilha de Michael Giacchino também ajuda a reforçar o espírito de aventura e mistério, embora em alguns momentos o filme pareça depender demais dessa atmosfera nostálgica para compensar fragilidades do roteiro.

O resultado é um filme curioso, divertido em vários momentos e sustentado por uma ideia realmente excelente, mas que poderia ter sido muito melhor. O conceito de transportar uma família suburbana dos anos 1980 para um ambiente dominado por dinossauros é criativo o suficiente para gerar uma aventura memorável. O problema é que David Robert Mitchell parece encontrar mais inspiração na própria premissa do que na maneira de desenvolvê-la até o fim. Existe bastante imaginação na construção daquele mundo, mas falta a mesma segurança na condução da narrativa.

Ainda assim, O Fim da Rua está longe de ser uma experiência descartável. A originalidade é seu maior mérito e impede que o filme seja apenas mais uma aventura genérica com criaturas pré-históricas. Existe personalidade na proposta, bons momentos de suspense, uma ambientação muito bem construída e um elenco que consegue sustentar o lado humano da história. Pena que a execução não esteja à altura de uma ideia tão inventiva.

No fim, O Fim da Rua é daqueles filmes que deixam uma sensação curiosa. É fácil imaginar como poderia ter sido excelente, porque existe ali material para algo realmente especial. Mas também é impossível ignorar as escolhas que enfraquecem o resultado, principalmente os efeitos visuais pouco convincentes e um roteiro que não consegue explorar completamente todas as possibilidades de sua premissa. É uma aventura original e irregular, que acerta quando simplesmente abraça o absurdo de sua situação, mas perde força justamente quando tenta transformar essa grande ideia em algo maior do que consegue sustentar.

setembro 20, 2026

Antártida (2026)

 


Título original: Antártida
Direção: Bruno Safadi
Sinopse: Na Estação Comandante Diniz, na Antártida, a cientista Inês é vítima de um crime brutal. Isolados pelo frio extremo e sem possibilidade de resgate imediato, todos os homens da base se tornam suspeitos, inclusive as maiores autoridades da missão. A subcomandante Elisabeth assume a difícil investigação enquanto as mulheres da estação precisam enfrentar o medo, o silêncio e a violência em um ambiente onde ninguém parece estar acima de qualquer suspeita. Em meio ao isolamento e às tempestades, elas descobrem que o verdadeiro perigo está entre elas.


Antártida, de Bruno Safadi, é um daqueles filmes que parecem ter chegado aos cinemas já carregando uma expectativa difícil de administrar. Cercado por uma produção de grande porte, um elenco bastante conhecido e uma proposta visual ambiciosa, o longa acabou recebendo uma reação bastante dura em sua passagem pelo Festival de Gramado e posteriormente entre parte da crítica. O curioso é que, embora esteja longe de ser uma obra-prima e tenha problemas bastante evidentes, a impressão que fica depois da sessão é de que houve um certo exagero na rejeição. Antártida não é o melhor filme nacional do ano, mas está muito longe do massacre que alguns críticos estão fazendo com ele.

A história acompanha uma equipe de cientistas e militares isolada em uma estação brasileira na Antártida durante o rigoroso inverno polar. Logo na primeira noite, a pesquisadora Inês, interpretada por Marina Ruy Barbosa, sofre uma violência sexual e não consegue identificar o responsável. A partir daí, a subcomandante Elisabeth, vivida por Andréa Beltrão, inicia uma investigação para descobrir quem cometeu o crime, já que o responsável está necessariamente entre as pessoas confinadas naquele ambiente. A estrutura lembra os tradicionais mistérios de identidade, mas substitui o assassinato convencional por uma situação de violência que passa a colocar todos os homens da estação sob suspeita.

É justamente nesse ponto que o filme encontra seu principal mérito e também sua maior fraqueza. O roteiro de Cláudia Jouvin tem uma preocupação muito clara em discutir machismo, relações de poder, violência e a dificuldade enfrentada por mulheres quando suas denúncias são colocadas em dúvida. Em alguns momentos, porém, essa preocupação se transforma em diálogos excessivamente explicativos. O filme frequentemente diz ao espectador aquilo que a própria situação já seria capaz de transmitir. A mensagem poderia ser mais forte se houvesse maior confiança nas imagens, nos silêncios e nas próprias interpretações.

Ainda assim, existe uma boa atmosfera de isolamento. A estação funciona como um espaço fechado em que qualquer tensão ganha proporções maiores. O frio, a distância do restante do mundo e a impossibilidade de simplesmente abandonar aquele lugar contribuem para criar uma sensação permanente de desconforto. O filme foi inteiramente realizado em estúdio no Rio de Janeiro, com o uso de tecnologia virtual para construir a paisagem antártica, e o resultado é bastante convincente. Em vez de parecer apenas uma demonstração tecnológica, a ambientação consegue, na maior parte do tempo, integrar os personagens ao cenário de maneira natural.

A fotografia aproveita bem o contraste entre os interiores da estação e o ambiente branco, amplo e hostil do lado de fora. A direção de Bruno Safadi procura transformar aquele espaço em uma espécie de prisão involuntária, em que as relações pessoais se tornam tão perigosas quanto as condições naturais. Também é interessante a maneira como o longa introduz situações paralelas envolvendo os integrantes da equipe, ampliando a sensação de que todos carregam algum tipo de conflito escondido.

Mas o grande destaque do elenco é, sem dúvida, Andréa Beltrão. Elisabeth é uma personagem que poderia facilmente cair em estereótipos de autoridade, mas a atriz encontra humanidade, firmeza e vulnerabilidade na medida certa. Mesmo quando o roteiro entrega falas pouco naturais, Beltrão consegue sustentá-las e fazer com que a personagem pareça maior do que aquilo que está escrito. Leandra Leal também contribui bastante, especialmente na relação entre as mulheres da estação.

Já Marina Ruy Barbosa é o ponto fraco do elenco, como era de se esperar. Inês é uma personagem central para o funcionamento da trama, mas a interpretação frequentemente parece limitada justamente nos momentos em que seria necessária maior intensidade emocional. Há cenas em que a personagem deveria transmitir medo, confusão ou fragilidade e a atuação acaba permanecendo excessivamente contida. Isso prejudica um pouco a força dramática de uma história que depende bastante da experiência daquela personagem.

O roteiro também poderia desenvolver melhor alguns dos personagens secundários. Como a narrativa tenta abordar muitos conflitos ao mesmo tempo, determinadas situações acabam surgindo com força e depois desaparecendo rapidamente. Há a sensação de que o projeto originalmente tinha material para respirar mais, algo compreensível diante da informação de que a história chegou a ser pensada para o formato de série antes de se transformar em longa-metragem.

Mesmo com essas limitações, há algo particularmente interessante em Antártida: pelo menos é um filme nacional que não está concentrado em pobreza ou ditadura. O cinema brasileiro frequentemente retorna a determinados temas sociais e históricos, muitos deles importantes e necessários, mas também existe espaço para histórias de suspense, investigação e sobrevivência ambientadas em universos diferentes. Aqui, a escolha de colocar uma trama desse tipo em uma estação científica brasileira no continente antártico já representa uma mudança bem-vinda.

E a própria Antártida poderia ser ainda mais explorada. O continente funciona muito mais como cenário do que como elemento essencial da narrativa, quando poderia contribuir ainda mais para a tensão. Mesmo assim, o isolamento geográfico é utilizado de maneira suficiente para justificar a estrutura da história e criar um ambiente incomum dentro do cinema brasileiro.

Antártida possui problemas de roteiro, algumas situações pouco desenvolvidas e uma protagonista que não consegue acompanhar a força de seus colegas de elenco. Também há momentos em que a mensagem social é apresentada de maneira excessivamente didática. Mas existe uma produção cuidadosa, uma ambientação visual bastante convincente, uma atmosfera interessante e, principalmente, uma Andréa Beltrão excelente. É um filme irregular, mas competente, que merece ser avaliado pelo conjunto e não reduzido aos seus tropeços. Não é uma obra-prima nem pretende ser, porém tampouco merece ser tratado como um desastre. Entre seus acertos e limitações, Antártida acaba sendo uma experiência nacional bastante válida, justamente por tentar fazer algo diferente dentro de um cinema que nem sempre se permite sair dos caminhos mais conhecidos.

setembro 19, 2026

Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor (2026)

 


Título original: Practical Magic 2
Direção: Susanne Bier
Sinopse: O tempo passou, mas Sally e Gillian ainda são assombradas pela maldição do clã Owens, que todos que amam acabam morrendo. Agora, as duas devem confrontar poderes que ameaçam acabar com sua família de uma vez por todas.


É realmente difícil entender de quem foi a ideia estapafúrdia de fazer uma continuação de um filme tão ruim e tão brega quanto Da Magia à Sedução, quase trinta anos depois de seu lançamento. O mais curioso é que, além de tardia, essa continuação chega quando o primeiro filme já envelheceu de maneira bastante problemática. Aquilo que talvez tivesse algum charme excêntrico em 1998 hoje parece ainda mais exagerado, artificial e preso a uma estética muito específica dos anos 1990. Ainda assim, por uma dessas ironias do cinema, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor consegue ser um pouco melhor do que seu antecessor, embora isso esteja longe de transformar a experiência em algo realmente empolgante.

Mais uma vez preciso dizer, como já havia feito na crítica do primeiro filme: detesto filmes de romance, magia e fantasia. E aqui, novamente, temos romance, magia e fantasia todos misturados no mesmo caldeirão. Era praticamente impossível que isso desse certo comigo. O filme é, portanto, destinado a ser um fracasso desde o princípio, porque trabalha justamente com elementos que normalmente me afastam de uma produção. A história das irmãs Owens continua mergulhada em maldições familiares, feitiços, relacionamentos amorosos e acontecimentos sobrenaturais, agora ampliando a história para uma nova geração da família. Sally e Gillian retornam ao centro da narrativa, enquanto as filhas de Sally também passam a ocupar espaço importante na trama.

A direção agora está nas mãos de Susanne Bier, substituindo Griffin Dunne, responsável pelo filme original. Bier já havia trabalhado anteriormente com Sandra Bullock em Bird Box e com Nicole Kidman em produções televisivas, o que ajuda a explicar a facilidade com que consegue conduzir as duas atrizes. O filme tem uma aparência mais sofisticada que o original, com fotografia de Simon Duggan, direção de arte bastante caprichada e uma fotografia que explora constantemente aquela atmosfera de casas antigas, jardins exuberantes, velas, objetos mágicos e cenários deliberadamente aconchegantes. Tudo é muito bonito, mas também extremamente calculado para reproduzir a identidade visual que os fãs esperam.

E talvez esse seja um dos grandes problemas da produção. Há uma sensação permanente de que tudo foi construído para recuperar uma memória afetiva que não necessariamente deveria ter sido recuperada. O filme tem uma preocupação evidente em resgatar personagens, situações e elementos do longa de 1998, mas isso nem sempre significa que exista uma história suficientemente forte para justificar seu retorno. A duração também pesa. Com cerca de duas horas e dez minutos, a narrativa poderia ser bem mais enxuta, especialmente porque algumas situações demoram demais para chegar a conclusões que já parecem previsíveis desde o início.

O roteiro, escrito por Akiva Goldsman, Georgia Pritchett e Kelly Marcel, tenta equilibrar a história das irmãs com a nova geração e a retomada da maldição familiar. A ideia de que as consequências dos acontecimentos anteriores ainda não foram completamente resolvidas cria um caminho razoável para justificar a existência da continuação, mas também expõe um problema bastante comum em continuações tardias: é preciso desfazer parte do encerramento anterior para que uma nova história possa existir. Aquilo que parecia resolvido precisa voltar a ser um problema, e a sensação de artificialidade aparece justamente aí.

Curiosamente, porém, há uma diferença importante em relação ao primeiro filme, e ela atende pelo nome de Nicole Kidman. Gillian Owens ganha muito mais espaço e personalidade desta vez, e isso faz uma diferença enorme. A personagem tem algumas das melhores tiradas do roteiro, justamente porque o filme parece compreender que Kidman pode ser muito mais divertida quando não tenta transformá-la simplesmente em uma figura excêntrica. Existe um humor mais espontâneo em sua atuação, e a atriz parece muito mais à vontade dentro daquele universo.

Os anos fizeram muito bem a Nicole Kidman como atriz. Hoje ela é completamente outra mulher em cena, muito mais desenvolta, segura e capaz de brincar com uma personagem sem parecer presa às limitações do material. No primeiro filme, Gillian parecia muitas vezes uma caricatura de uma jovem rebelde dos anos 1990. Aqui, Kidman consegue transformar a personagem em alguém mais interessante simplesmente porque demonstra domínio absoluto sobre o tom da produção. Ela sabe quando exagerar, quando fazer uma pausa e quando entregar uma fala aparentemente absurda com a expressão certa. É justamente nos momentos em que o roteiro permite que Gillian seja engraçada que o filme mais funciona.

Sandra Bullock também retorna como Sally, e sua presença continua sendo fundamental para que a relação entre as duas irmãs tenha alguma força. A química entre Bullock e Kidman permanece evidente, mesmo depois de quase três décadas, e as duas conseguem reproduzir aquela dinâmica de personalidades opostas que sustentava boa parte do primeiro filme. O retorno de Dianne Wiest e Stockard Channing como Jet e Franny também acrescenta uma agradável sensação de continuidade, embora as personagens não tenham necessariamente material suficiente para justificar todo o destaque que recebem.

Entre os novos integrantes estão Joey King e Maisie Williams, interpretando as filhas de Sally, além de Lee Pace, Xolo Maridueña e Solly McLeod. O problema é que boa parte desses personagens acaba funcionando mais como instrumento para movimentar a trama do que como figuras realmente memoráveis. A história continua muito mais interessante quando está concentrada nas mulheres da família Owens, especialmente quando Sally e Gillian estão juntas.

Visualmente, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor é bastante competente. A fotografia, os cenários e os figurinos criam um universo de fantasia confortável e deliberadamente bonito. Não há exatamente uma tentativa de reinventar o estilo do primeiro filme. Pelo contrário, existe uma preocupação enorme em preservar sua identidade, mas com uma produção evidentemente maior. Os efeitos visuais também são mais elaborados, embora continuem servindo principalmente para sustentar o aspecto fantasioso da história, e não para criar momentos particularmente impressionantes.

O grande problema é que, para alguém que já não gostava da mistura proposta pelo primeiro filme, a continuação não oferece uma transformação suficiente para mudar essa relação. Continua sendo uma história de amor cercada por feitiços, maldições, poderes sobrenaturais e sentimentalismo. E, para piorar, existe uma camada de nostalgia que constantemente pede ao espectador que reconheça a importância daqueles personagens e daquele universo. Só que nostalgia, por si só, não transforma uma história antiga em uma boa história nova.

Ainda assim, é preciso reconhecer que esta continuação encontrou uma maneira inesperada de funcionar um pouco melhor do que o original. O principal motivo é Nicole Kidman. Sua Gillian está mais divertida, mais solta e muito mais interessante, e a atriz parece ter encontrado exatamente o tom que faltava décadas atrás. Há também uma relação entre as personagens que soa mais madura, algo natural depois de tantos anos, e isso dá ao filme uma pequena dose de personalidade própria.

No fim, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor continua sendo uma produção que dificilmente conseguiria conquistar alguém que, como eu, não tem qualquer simpatia por romances açucarados, magia ou fantasia. A ideia de ressuscitar esse universo quase trinta anos depois continua parecendo desnecessária, e o resultado está longe de justificar tamanha espera. Mas, contra todas as expectativas, a continuação consegue ser ligeiramente mais agradável que o filme original, principalmente porque Nicole Kidman finalmente parece estar se divertindo de verdade com Gillian Owens. Talvez essa seja a verdadeira magia do filme: conseguir melhorar alguma coisa que, desde o princípio, parecia uma péssima ideia.

Da Magia à Sedução (1998)

 


Título original: Practical Magic
Direção: Griffin Dunne
Sinopse: As mulheres da família Owens possuem poderes mágicos, mas carregam uma maldição secular que mata qualquer homem que por elas se apaixone. As irmãs Sally e Gillian tentam seguir vidas distintas até que Gillian se envolve com um homem agressivo, obrigando-as a tomar uma medida extrema para se defenderem. Ao tentarem reverter a situação com magia, desencadeiam uma série de problemas graves com a polícia e com as suas próprias forças místicas.


É incrível perceber como a maioria dos filmes dos anos 90 envelheceu mal. Da Magia à Sedução, dirigido por Griffin Dunne em 1998, é um daqueles casos em que a distância de quase três décadas não apenas evidencia algumas escolhas datadas, mas também faz parecer ainda mais estranha a combinação de elementos que o filme tenta colocar na mesma história. Com Sandra Bullock e Nicole Kidman interpretando as irmãs Sally e Gillian Owens, a produção mistura bruxaria, romance, comédia, drama familiar, suspense policial e uma dose de terror sobrenatural. O problema é que essa mistura nunca encontra um equilíbrio convincente.

Para começar, é preciso admitir uma coisa: detesto filme de magia, fantasia ou romance. E este aqui é tudo isso junto. Portanto, já existe uma enorme dificuldade de identificação com a proposta desde o princípio. Ainda assim, seria possível reconhecer qualidades em uma obra mesmo quando seu gênero não agrada. O problema é que Da Magia à Sedução não consegue superar a própria artificialidade. É um filme bem bobo e estúpido, que parece acreditar o tempo todo que está sendo encantador, divertido e excêntrico, quando muitas de suas situações simplesmente provocam uma enorme vontade de revirar os olhos.

A história acompanha Sally e Gillian, duas irmãs descendentes de uma longa linhagem de mulheres consideradas bruxas. A família carrega uma maldição que faz com que qualquer homem que se apaixone por uma mulher Owens esteja condenado a morrer. Sally tenta justamente escapar dessa herança e levar uma vida aparentemente normal, enquanto Gillian assume uma postura muito mais livre e impulsiva. Quando o relacionamento de Gillian com Jimmy Angelov, interpretado por Goran Višnjić, termina de maneira trágica, as duas acabam recorrendo aos conhecimentos mágicos da família e desencadeiam uma série de acontecimentos cada vez mais absurdos.

A premissa até poderia render uma fantasia divertida, mas o roteiro parece incapaz de decidir que filme pretende ser. Em determinados momentos, existe uma tentativa de comédia leve e quase adolescente. Em outros, a história entra em situações de violência, abuso, morte, possessão e sobrenatural. Depois, tudo volta para o romance como se nada tivesse acontecido. Essa mudança constante de tom é um dos maiores problemas da produção. O filme não estabelece uma atmosfera própria, apenas pula de uma situação para outra esperando que o espectador aceite tudo como parte de uma grande brincadeira.

Sandra Bullock e Nicole Kidman são provavelmente o principal motivo pelo qual a produção consegue permanecer minimamente interessante. As duas têm presença suficiente para dar alguma personalidade às irmãs, especialmente porque Sally e Gillian possuem temperamentos bastante diferentes. Bullock tenta fazer de Sally uma personagem mais contida, enquanto Kidman se diverte um pouco mais com a extravagância de Gillian. Dianne Wiest e Stockard Channing também ajudam como as excêntricas tias Jet e Frances, personagens que parecem ter saído de outro filme e entrado neste por engano.

Visualmente, Da Magia à Sedução possui uma característica curiosa. A casa da família Owens é, de longe, um dos elementos mais interessantes de toda a produção. O cenário foi construído especialmente para o filme e recebeu enorme atenção na criação de seus interiores, com objetos, plantas, móveis e detalhes que procuram transformar a residência em uma espécie de extensão da personalidade daquela família. É um ambiente bonito, carregado e exagerado, exatamente como o filme parece querer ser. A fotografia de Andrew Dunn também aproveita bem essa atmosfera, utilizando uma aparência típica do cinema fantástico dos anos 90, com iluminação suave e uma paleta que tenta transformar praticamente tudo em algo mágico.

Mas existe uma diferença enorme entre ter uma aparência característica e conseguir transformar essa aparência em cinema envolvente. Da Magia à Sedução frequentemente parece mais preocupado em criar uma estética de catálogo do que em construir uma história realmente interessante. A trilha sonora de Alan Silvestri, acompanhada por várias canções pop, reforça essa sensação de produção feita para criar uma determinada atmosfera comercial. Em vez de deixar as cenas respirarem, a música muitas vezes parece dizer ao espectador exatamente o que deveria sentir.

O romance entre Sally e o policial Gary Hallet, vivido por Aidan Quinn, também não ajuda muito. O relacionamento tenta funcionar como contraponto à maldição familiar, mas acaba sendo apenas mais uma camada de uma história já excessivamente carregada. Existe ainda a tentativa de discutir independência feminina, violência contra a mulher, preconceito e a relação entre as mulheres da família. São temas potencialmente interessantes, mas tratados de maneira superficial diante da quantidade de elementos que o roteiro tenta administrar.

E talvez esse seja o maior problema de Da Magia à Sedução: nada parece ter peso suficiente. A morte, a violência, a magia, a maldição, a possessão e o romance aparecem, desaparecem e reaparecem conforme a conveniência do roteiro. Até mesmo os momentos que deveriam ser dramaticamente importantes são frequentemente acompanhados por uma leveza que impede qualquer envolvimento maior. O filme quer ser sombrio e engraçado ao mesmo tempo, romântico e assustador, familiar e sobrenatural. No fim, fica uma mistura bastante estranha.

Griffin Dunne, que já havia demonstrado talento como ator e também tinha experiência anterior na direção, conduz tudo com alguma competência visual, mas não consegue resolver os problemas fundamentais do material. Há movimentação de câmera, bons cenários e efeitos que pertencem claramente ao período em que o filme foi produzido, mas falta uma identidade mais forte por trás de toda essa decoração. É um filme que parece muito preocupado em ser charmoso, mas cujo charme envelheceu de maneira particularmente difícil.

Assistir a Da Magia à Sedução hoje também produz uma sensação curiosa de distância temporal. O que em 1998 provavelmente parecia uma combinação moderna de fantasia, romance e comédia atualmente soa exageradamente artificial. Os figurinos, os cabelos, a trilha sonora, os diálogos e principalmente a maneira como os personagens encaram determinadas situações deixam muito evidente o quanto o cinema comercial dos anos 90 tinha uma linguagem própria. E, neste caso, não é uma linguagem que tenha envelhecido bem.

No fim das contas, Da Magia à Sedução é exatamente o tipo de filme que confirma por que determinados gêneros simplesmente não funcionam comigo. Magia, fantasia e romance já não estão entre as minhas preferências, e juntar os três em uma única produção certamente não ajudou. Apesar de contar com duas ótimas atrizes, cenários muito bem construídos e alguns momentos visualmente interessantes, existe pouco aqui capaz de compensar um roteiro confuso, uma mistura de tons que raramente funciona e uma história que leva a sério demais uma quantidade enorme de situações completamente absurdas. É um filme bem bobo e estúpido, que hoje parece muito mais um retrato de seu próprio período do que uma obra capaz de continuar encantando. E talvez essa seja justamente a melhor maneira de resumir a experiência: Da Magia à Sedução não conseguiu fazer a magia sobreviver ao tempo.

setembro 18, 2026

Do Outro Lado do Pavilhão (2025)

 


Título original: Do Outro Lado do Pavilhão
Direção: Emília Silveira
Sinopse: O documentário dá voz a mulheres marginalizadas pelo sistema penal. Érica e Núbia se conhecem na prisão e criam um laço que ultrapassa as grades. Em liberdade condicional, relatam abusos, celas superlotadas e a perda da identidade feminina. Sem advogados, enfrentam essa rotina com coragem e humor. Suas histórias revelam a realidade do encarceramento feminino no Brasil.


Há filmes que precisam de grandes recursos para provocar reflexão e há outros que conseguem fazer isso simplesmente colocando pessoas diante da câmera e permitindo que contem suas próprias histórias. Do Outro Lado do Pavilhão, dirigido por Emília Silveira, pertence claramente ao segundo grupo. O documentário acompanha Érica e Núbia, duas mulheres que se conheceram durante o período em que estiveram presas e que mantiveram o vínculo depois de deixarem o sistema penitenciário. A partir das experiências das duas, o filme procura mostrar que a prisão não termina necessariamente quando os portões se abrem. Muitas das marcas deixadas pelo encarceramento continuam presentes na vida de quem tenta reconstruir a própria trajetória fora das grades.

Com cerca de 71 minutos, o longa é bastante enxuto e não tenta transformar sua proposta em algo maior do que ela realmente é. Emília Silveira concentra praticamente toda a narrativa nas duas protagonistas, que falam sobre as condições enfrentadas durante o período de prisão, os abusos, a superlotação, as privações e a perda progressiva da própria identidade. O interesse do documentário está justamente nessa proximidade. Em vez de transformar Érica e Núbia em meras estatísticas de um problema social, a câmera procura conhecê-las como pessoas, com suas lembranças, frustrações, dificuldades e também momentos de humor.

Essa escolha dá ao filme uma humanidade importante. As duas não aparecem apenas como vítimas de uma estrutura, mas como mulheres tentando seguir em frente em circunstâncias bastante difíceis. Existe uma diferença significativa entre simplesmente falar sobre o sistema prisional e permitir que pessoas que passaram por ele contem aquilo que viveram. Do Outro Lado do Pavilhão funciona melhor quando deixa que essa experiência seja transmitida diretamente pelas protagonistas, sem a necessidade de explicar o tempo todo aquilo que o espectador já consegue compreender a partir de seus relatos.

A direção de Emília Silveira é discreta e privilegia os depoimentos. A fotografia de Dennis Meier Junior acompanha esse caminho com imagens que procuram aproximar o espectador das personagens, enquanto a montagem de Vinícius Nascimento, João Felipe Freitas e Xavi Cortés mantém o filme relativamente direto. Há também momentos em que Érica e Núbia participam de pequenas encenações, recurso que ajuda a trazer para a tela algumas lembranças e situações relacionadas às suas experiências. Não se trata de uma reconstrução grandiosa, mas de uma maneira simples de complementar aquilo que é contado verbalmente.

A estrutura, porém, também revela algumas limitações. Como o filme depende muito da fala das protagonistas, determinadas passagens acabam ficando repetitivas e algumas ideias poderiam ter sido desenvolvidas com maior profundidade. A produção apresenta questões importantes sobre encarceramento feminino, ressocialização, desigualdade e abandono social, mas nem sempre consegue explorar todas elas de maneira igualmente consistente. Em alguns momentos, parece haver mais interesse em apresentar uma tese do que em desenvolver organicamente aquilo que as próprias personagens oferecem.

Esse é provavelmente o principal problema de Do Outro Lado do Pavilhão. Existe material humano suficiente para construir um documentário ainda mais envolvente, mas a duração reduzida e uma estrutura bastante convencional acabam limitando suas possibilidades. O filme apresenta situações e reflexões relevantes, mas muitas vezes apenas passa por elas antes de seguir adiante. 

Ainda assim, há uma qualidade importante na maneira como o documentário evita transformar sofrimento em espetáculo. A experiência das protagonistas é difícil, mas o filme não depende de imagens chocantes ou de uma exploração exagerada da dor para provocar impacto. Existe espaço inclusive para momentos de descontração, especialmente na relação entre Érica e Núbia. Essa amizade construída dentro de um ambiente tão hostil acaba se tornando um dos elementos mais interessantes da produção, justamente porque dá ao filme uma dimensão que vai além da denúncia.

O título também funciona como uma espécie de síntese da proposta. O pavilhão não representa apenas o espaço físico da prisão, mas uma barreira que continua existindo de outras formas depois da saída. O passado acompanha as personagens, seja pelas dificuldades econômicas, pela falta de oportunidades ou pela ausência de uma rede de apoio capaz de facilitar a reconstrução da vida. A liberdade, portanto, aparece como algo mais complexo do que simplesmente estar fora de uma cela.

É um tema que merece atenção e que ganha relevância justamente por ser apresentado através de experiências individuais. O documentário não pretende oferecer uma solução para o problema do encarceramento feminino, nem teria condições de fazê-lo em pouco mais de uma hora. Seu mérito está em abrir espaço para que duas mulheres contem o que viveram e mostrem como determinadas consequências permanecem mesmo depois do cumprimento da pena.

Do Outro Lado do Pavilhão não é um dos melhores documentários brasileiros, mas é adequado e enxuto. Sua importância está muito mais no assunto que escolhe abordar e na oportunidade que oferece às suas protagonistas do que em uma linguagem cinematográfica especialmente inventiva. Há boas escolhas de direção, montagem e fotografia, mas nenhuma delas chega a transformar o filme em uma experiência documental excepcional.

No fim, o longa funciona porque Érica e Núbia conseguem sustentar a narrativa com suas personalidades e experiências. São elas que dão ao filme seu verdadeiro sentido e impedem que a produção se transforme apenas em uma sucessão de informações sobre o sistema penitenciário. Mesmo com algumas limitações e uma abordagem que poderia aprofundar melhor determinadas questões, Do Outro Lado do Pavilhão cumpre sua proposta com seriedade, objetividade e sensibilidade. É um documentário simples, direto e necessário, que encontra sua maior força justamente naquilo que tem de mais básico: ouvir quem passou pelo outro lado das grades.

setembro 17, 2026

Indiana Jones e a Relíquia do Destino (2023)

 


Título original: Indiana Jones and the Dial of Destiny
Direção: James Mangold
Sinopse: Encontrando-se em uma nova era, aproximando-se da aposentadoria, Indy luta para se encaixar em um mundo que parece tê-lo superado. Mas quando os tentáculos de um mal muito familiar retornam na forma de um antigo rival, Indy deve colocar seu chapéu e pegar seu chicote mais uma vez para garantir que um antigo e poderoso artefato não caia nas mãos erradas.


Existe algo quase melancólico em assistir a Indiana Jones e a Relíquia do Destino, mas não necessariamente pela despedida de Harrison Ford do personagem que interpretou durante mais de quatro décadas. A melancolia vem principalmente da sensação de que este filme não precisava existir da maneira como foi concebido. James Mangold assume a direção no lugar de Steven Spielberg e tenta construir uma aventura que funcione ao mesmo tempo como continuação, homenagem e encerramento, mas o resultado é uma produção grandiosa demais para uma história que, no fundo, parece ter muito pouco a dizer. É um filme bobo, exagerado e frequentemente cansativo, que tenta recuperar a magia das aventuras anteriores através da nostalgia, mas quase sempre deixa evidente que está tentando demais.

A abertura, ambientada no final da Segunda Guerra Mundial, deveria funcionar como uma espécie de reencontro com o Indiana Jones clássico. O personagem aparece mais jovem graças a uma extensa operação de rejuvenescimento digital realizada pela Industrial Light & Magic, com aproximadamente 25 minutos do filme mostrando Harrison Ford digitalmente rejuvenescido. Só que o efeito é justamente um dos maiores problemas da produção. O CGI é horrendo. Em vez de fazer Ford parecer simplesmente mais jovem, o resultado muitas vezes faz ele parecer um boneco, uma representação artificial de Harrison Ford correndo, lutando e fazendo as mesmas expressões que conhecemos de décadas atrás. Há uma estranheza permanente naquele rosto excessivamente liso, especialmente nos olhos, que denuncia o efeito a todo instante. A tecnologia utilizada é impressionante do ponto de vista do trabalho necessário para produzi-la, mas o que aparece na tela é muito menos convincente. A intenção era fazer o espectador acreditar que estava vendo o Indiana Jones dos anos 1980, mas frequentemente parece que estamos olhando para uma versão digital do personagem.

Quando a história finalmente chega a 1969 e Ford aparece com sua idade real, o filme melhora consideravelmente. Não porque a aventura se torne subitamente extraordinária, mas porque o ator consegue devolver ao personagem uma humanidade que os efeitos digitais haviam retirado. Existe um certo cansaço em seu Indiana Jones, uma tristeza relacionada à passagem do tempo e ao afastamento de Marion, e Ford consegue transmitir isso com uma naturalidade que nenhum recurso visual seria capaz de reproduzir. É provavelmente aí que está o elemento mais interessante de Relíquia do Destino: não na tentativa de fazer Indiana Jones voltar a ser jovem, mas na possibilidade de mostrar o que aconteceu com ele depois que a juventude acabou.

A trama gira em torno da anticítera, um mecanismo atribuído a Arquimedes capaz de provocar alterações na própria estrutura do tempo. Indiana acaba envolvido na busca pelo objeto ao lado de Helena Shaw, interpretada por Phoebe Waller-Bridge, enquanto o vilão Jürgen Voller, vivido por Mads Mikkelsen, pretende utilizar o artefato para interferir na história. A premissa é típica da franquia, que sempre encontrou objetos históricos ou religiosos para transformar em motores de aventuras impossíveis. O problema é que desta vez tudo parece mais calculado e menos espontâneo. A Anticítera até oferece possibilidades interessantes, mas o roteiro frequentemente trata suas ideias com uma simplicidade excessiva, transformando conceitos potencialmente fascinantes em desculpas para outra perseguição, outra explosão e outra sequência de ação.

E são justamente essas sequências que revelam outro problema. Mangold sabe filmar ação, mas Relíquia do Destino raramente possui a clareza visual dos melhores momentos da franquia. A perseguição pelas ruas de Tânger, por exemplo, é gigantesca, barulhenta e cheia de acontecimentos, mas também é longa demais e visualmente confusa. Há tantos veículos, personagens, cortes e efeitos digitais acontecendo simultaneamente que o espectador começa a perceber mais o tamanho da produção do que o perigo da situação. A aventura deveria provocar entusiasmo, mas muitas vezes provoca apenas cansaço. O filme também possui uma sequência subaquática e outras cenas de perseguição que apostam mais na quantidade de acontecimentos do que na criatividade.

Phoebe Waller-Bridge é uma presença simpática como Helena, trazendo uma energia mais irreverente para acompanhar o personagem de Ford. Ela funciona especialmente bem quando o filme permite que a relação entre os dois seja construída com humor e conflito. Ainda assim, Helena parece muitas vezes uma personagem criada para manter Indiana em movimento, e não alguém que realmente consiga escapar da sombra gigantesca do protagonista. Mads Mikkelsen, por sua vez, faz o possível com um vilão que poderia ser muito mais interessante. Voller possui uma conexão direta com o passado de Indiana e uma obsessão bastante adequada ao tema do filme, mas o roteiro não explora essa relação com a profundidade necessária.

Também existe uma insistência quase desconfortável em transformar a despedida de Ford em um evento histórico. A trilha de John Williams ajuda bastante a recuperar a identidade da série, e ouvir novamente seus temas associados a Indiana Jones traz uma emoção genuína. Williams compôs a trilha de todos os filmes da franquia desde Os Caçadores da Arca Perdida, e seu trabalho aqui funciona como uma espécie de fio condutor entre diferentes épocas do personagem. O problema é que a música frequentemente parece carregada de uma nostalgia que o próprio filme não consegue sustentar. É como se a trilha lembrasse ao espectador o tempo inteiro que aquilo deveria ser emocionante.

A fotografia também procura reproduzir o aspecto clássico da franquia, alternando grandes paisagens, ambientes históricos e cenas noturnas com uma estética de aventura tradicional. Porém, a quantidade de efeitos digitais faz com que muitas dessas imagens percam a textura e o peso físico que tornavam os filmes antigos tão divertidos. Relíquia do Destino parece grande demais, limpo demais e artificial demais. Há momentos em que tudo parece ter sido construído dentro de um computador, justamente o contrário da sensação de perigo concreto que fazia as primeiras aventuras funcionarem tão bem.

Isso não significa que o filme seja completamente desprovido de qualidades. Harrison Ford continua sendo Indiana Jones, e basta ele colocar o chapéu e olhar para a câmera com aquela expressão característica para a memória afetiva assumir o controle. Há também algumas boas interações entre os personagens e momentos em que a história consegue recuperar o espírito aventureiro da série. O problema é que esses momentos aparecem cercados por uma quantidade exagerada de ação, efeitos visuais e nostalgia programada.

No fim, Indiana Jones e a Relíquia do Destino parece menos uma nova aventura e mais uma tentativa de impedir que o personagem envelheça. E essa é justamente a ironia mais interessante do filme. A melhor coisa que ele poderia fazer seria aceitar a passagem do tempo, tanto para Indiana quanto para Harrison Ford. Quando finalmente faz isso, existe emoção e até certa beleza. Quando tenta voltar artificialmente ao passado, o resultado é estranho, frio e frequentemente ridículo. O rejuvenescimento digital que deveria ser um triunfo tecnológico acaba sendo uma distração, enquanto o próprio Ford, com sua idade real, oferece uma atuação muito mais expressiva e verdadeira.

James Mangold entrega uma aventura competente em vários aspectos, mas também excessivamente longa, barulhenta e dependente de efeitos visuais. Falta aquela simplicidade que fazia Indiana Jones parecer um homem comum colocado em situações extraordinárias. Aqui, quase tudo é extraordinário o tempo inteiro, e justamente por isso pouco parece realmente especial. O filme quer ser épico, emocionante, divertido e definitivo ao mesmo tempo, mas acaba sendo principalmente uma produção gigantesca tentando convencer o público de que ainda existe uma necessidade de continuar uma história que já havia encontrado seu encerramento.

Indiana Jones merecia uma despedida mais simples e mais humana. Harrison Ford, por sua vez, merecia que sua presença fosse valorizada sem a necessidade de transformá-lo digitalmente em um boneco de décadas atrás. No final, a verdadeira aventura não está em voltar no tempo, mas em aceitar que ele passou. E Relíquia do Destino só parece compreender isso quando finalmente abandona o espetáculo e deixa Indiana Jones ser, simplesmente, um homem envelhecido tentando descobrir se ainda existe algum lugar para ele no mundo.