Páginas

março 14, 2026

Melhores de 2025

 Foram 115 filmes elegíveis de 2025 com estreia durante o ano nos Estados Unidos ou no seu país de origem. Abaixo segue a lista dos indicados e o vencedor em negrito.


Melhor Documentário
Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud
Kaizen
Lumière: A Aventura Continua!
Perfectly a Strangeness
A Vizinha Perfeita


Melhores Efeitos Visuais
Avatar: Fogo e Cinzas
F1: O Filme
Frankenstein
TRON:Ares
Xeno


Melhor Edição de Som
Avatar: Fogo e Cinzas
Extermínio: A Evolução
F1: O Filme
Soberano
TRON: Ares


Melhor Som
F1: O Filme
GOAT
Kaizen
Sirāt
Sonhos de Trem


Melhor Edição
Casa de Dinamite
F1: O Filme
A Vida de Chuck
A Vizinha Perfeita
A Voz de Hind Rajab


Melhor Figurino
O Beijo da Mulher Aranha
Drácula: Uma História de Amor
Frankenstein
Kokuho: O Preço da Perfeição
A Meia-Irmã Feia


Melhor Maquiagem
Drácula: Uma História de Amor
Extermínio: A Evolução
Frankenstein
Kokuho: O Preço da Perfeição
A Longa Marcha: Caminhe ou Morra


Melhor Direção de Arte
Balada de um Jogador
O Beijo da Mulher Aranha
Drácula: Uma História de Amor
Frankenstein
Kokuho: O Preço da Perfeição


Melhor Fotografia
Os Malditos
Perfectly a Strangeness
Sirāt
Sonhos de Trem
TRON: Ares


Melhor Canção (Original ou Versão Para o Filme)
"Clouds Away", November Ultra & Arnaud Toulon (Arco)
"Lose My Mind", Don Toliver feat. Doja Cat (F1: O Filme)
"Golden", Huntrix (Guerreiras do K-Pop)
"Song Sung Blue", Hugh Jackman & Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
"Train Dreams", Nick Cave (Sonhos de Trem)


Melhor Trilha Sonora (Coletânea)
Depois da Caçada
F1: O Filme
Song Sung Blue: Um Sonho a Dois
A Única Saída
Viagem de Risco


Melhor Trilha Sonora Original
Arco
F1: O Filme
Frankenstein
Sonhos de Trem
TRON: Ares


Melhor Filme de Animação
Arco
Elio
Forevergreen
A Pequena Amélie
Snoopy Apresenta: Um Musical de Verão


Melhor Roteiro Adaptado
Drácula: Uma História de Amor
Frankenstein
Kokuho: O Preço da Perfeição
Sonhos de Trem
A Única Saída


Melhor Roteiro Original
Foi Apenas um Acidente
Soberano
Twinless: Um Gêmeo a Menos
Two People Exchanging Saliva
A Vida de Chuck


Melhor Atriz Coadjuvante
Ana Sophia Heger, Fuga Fatal
Ayo Edebiri, Depois da Caçada
Saja Kilani, A Voz de Hind Rajab
Son Ye-jin, A Única Saída
Tilda Swinton, Balada de um Jogador


Melhor Ator Coadjuvante
Jacob Elordi, Frankenstein
Jacob Tremblay, Soberano
Jacobi Jupe, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Sean Penn, Uma Batalha Após a Outra
Sebastian Bull Sarning, Filhos


Melhor Atriz
Julia Roberts, Depois da Caçada
Rose Byrne, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria
Sidse Babett Knudsen, Filhos
Vanessa Kirby, A Noite Sempre Chega
Zar Amir Ebrahimi, Two People Exchanging Saliva


Melhor Ator
Joel Edgerton, Sonhos de Trem
Lee Byung-hum, A Única Saída
Motaz Malhees, A Voz de Hind Rajab
Nick Offerman, Soberano
Taron Egerton, Fuga Fatal


Melhor Elenco
O Agente Secreto
Foi Apenas um Acidente
Sirāt
A Única Saída
A Voz de Hind Rajab


Melhor Filme Brasileiro
O Agente Secreto
A Melhor Mãe do Mundo
Oficina do Diabo
O Papa Que Venceu o Comunismo
Resistentes


Melhor Filme em Língua Não-Inglesa ou Não Brasileiro
Filhos
Lumière: A Aventura Continua!
Perfectly a Strangeness
A Única Saída
A Voz de Hind Rajab


Melhor Direção
Kathryn Bigelow, Casa de Dinamite
Jafar Panahi, Foi Apenas um Acidente
Clint Bentley, Sonhos de Trem
Park Chan-wook, A Única Saída
Kaouther Bem Hania, A Voz de Hind Rajab


Pior Filme
Faça Ela Voltar
Mickey 17
Pecadores
Prédio Vazio
Segredos


Melhor Filme
Arco
Eddington
Filhos
Lumière: A Aventura Continua!
Pretty Thing
Sonhos de Trem
Twinless: Um Gêmeo a Menos
A Única Saída
A Vizinha Perfeita
A Voz de Hind Rajab

março 11, 2026

Kokuho: O Preço da Perfeição (2025)

 


Título original: 国宝
Direção: Sang-il Lee
Sinopse: Nagasaki, 1964. Após a morte de seu pai, líder de uma gangue da yakuza, o jovem Kikuo, de 14 anos, é acolhido por um famoso ator de Kabuki. Ao lado de Shunsuke, o único filho do ator, ele decide se dedicar a essa tradicional forma de teatro. Ao longo das décadas, os dois jovens crescem e evoluem juntos, da escola de atuação aos palcos mais grandiosos. Em meio a escândalos e glórias, irmandade e traições, um deles se tornará o maior mestre japonês da arte do Kabuki.


Poucos filmes recentes demonstram com tanta clareza o quanto a arte pode ser uma vocação absoluta quanto Kokuho: O Preço da Perfeição, dirigido por Sang-il Lee. O longa japonês, inspirado no romance de Shuichi Yoshida, acompanha décadas da vida de um artista de teatro kabuki e transforma essa jornada em uma reflexão delicada sobre talento, obsessão e o preço de dedicar a própria existência à busca pela excelência artística. Longe de ser apenas um drama biográfico tradicional, o filme se revela uma experiência contemplativa sobre o que significa viver para a arte.

A narrativa começa em Nagasaki, em 1964, quando Kikuo, filho de um líder da yakuza, vê sua vida mudar radicalmente após a morte violenta do pai. O garoto é acolhido por um grande ator de kabuki e passa a conviver com Shunsuke, o filho biológico do mestre. Juntos, eles crescem imersos nesse universo teatral, onde disciplina, tradição e talento caminham lado a lado com rivalidade, inveja e ambição. Ao longo de décadas, o filme acompanha os dois personagens desde a juventude até a maturidade, mostrando como a arte pode unir pessoas ao mesmo tempo em que também as separa.

Essa estrutura narrativa ampla permite que o diretor desenvolva um retrato muito humano de seus protagonistas. O filme não tem pressa em chegar a conclusões, preferindo observar as transformações emocionais dos personagens com paciência. Há momentos em que a história parece quase silenciosa, como se estivesse apenas observando a passagem do tempo. É justamente nesse ritmo mais contemplativo que o longa encontra sua identidade. A vida artística não surge como algo glamouroso, mas como uma rotina intensa de ensaios, sacrifícios e frustrações.

Grande parte do impacto do filme vem das interpretações de Ryo Yoshizawa e Ryusei Yokohama. Yoshizawa constrói um protagonista que parece carregar uma inquietação constante. Seu Kikuo é alguém dividido entre gratidão e ambição, alguém que precisa provar o tempo todo que pertence ao mundo em que foi acolhido. Já Yokohama traz uma presença diferente para Shunsuke, marcada por uma mistura de orgulho e fragilidade que torna a rivalidade entre os dois personagens especialmente interessante. A dinâmica entre eles nunca se reduz a simples competição. Existe ali uma espécie de irmandade complicada, feita de admiração e ressentimento.

Outro destaque importante é a presença de Ken Watanabe, que interpreta o mestre responsável por introduzir Kikuo no universo do kabuki. Watanabe aparece menos do que se poderia imaginar, mas sua atuação deixa uma marca forte. Seu personagem funciona como um símbolo da tradição, alguém que entende profundamente o peso cultural da arte que pratica. Cada gesto, cada palavra dita por ele carrega a sensação de que aquele mundo artístico existe há séculos e continuará existindo muito depois de todos os personagens terem partido.

O grande diferencial do filme, porém, está na forma como apresenta o teatro kabuki. Para muitos espectadores ocidentais, essa tradição teatral pode parecer distante ou até exótica. O longa, no entanto, faz um trabalho admirável ao mostrar não apenas a estética dessa arte, mas também sua dimensão emocional. As apresentações no palco são filmadas com cuidado, destacando os figurinos elaborados, a maquiagem marcante e os movimentos extremamente precisos dos atores. O resultado é uma experiência visual fascinante, que faz o espectador entender por que tantos artistas dedicam suas vidas a esse tipo de expressão.

Essas sequências teatrais não funcionam apenas como espetáculo. Elas também refletem os conflitos internos dos personagens. Em diversos momentos, parece que as emoções vividas no palco ecoam diretamente na vida real dos protagonistas. O teatro deixa de ser apenas uma profissão e passa a ser uma extensão da própria identidade deles.

Com quase três horas de duração, o filme certamente exige paciência do espectador. Há trechos em que a narrativa se estende mais do que o necessário e algumas subtramas poderiam ser mais enxutas. Ainda assim, a sensação geral é de que o tempo longo serve para construir um retrato mais completo da trajetória do protagonista. O filme quer mostrar não apenas um artista, mas toda uma vida moldada pela arte.

Outro aspecto interessante é o contexto histórico que aparece discretamente ao fundo da história. O Japão que surge na tela é um país em transformação, passando por décadas de mudanças culturais e sociais. Enquanto o mundo se moderniza, o kabuki permanece como uma tradição centenária que resiste ao tempo. Esse contraste entre modernidade e tradição ajuda a dar profundidade à narrativa.

Talvez o maior mérito de Kokuho: O Preço da Perfeição esteja justamente na forma como aborda a obsessão artística sem romantizá-la completamente. O filme reconhece a beleza da dedicação absoluta, mas também mostra as consequências dessa escolha. Relações pessoais se desgastam, oportunidades são perdidas e, em muitos momentos, os personagens parecem presos a um caminho que eles mesmos escolheram.

Mesmo com algumas irregularidades narrativas, a obra dirigida por Sang-il Lee se destaca como um drama poderoso sobre vocação e identidade. O filme entende que a arte pode ser ao mesmo tempo uma forma de libertação e uma prisão silenciosa.

No fim das contas, Kokuho: O Preço da Perfeição não é apenas um filme sobre teatro. É um filme sobre pessoas que escolhem viver inteiramente para aquilo que amam, mesmo sabendo que essa escolha pode custar quase tudo. E quando as cortinas finalmente se fecham, fica a sensação de ter testemunhado não apenas uma carreira artística, mas uma vida inteira moldada pela busca incansável pela perfeição.

Arco (2025)

 


Título original: Arco
Direção: Ugo Bienvenu
Sinopse: Um menino de 10 anos, de um futuro distante e pacífico, acidentalmente viaja de volta ao ano 2075 e descobre um mundo em perigo. À medida que Arco desenvolve uma amizade com uma jovem chamada Iris, eles se unem e, junto com seu robô cuidador Mikki, partem em uma jornada para conduzir Arco de volta para casa.


Quando o cinema de animação realmente encontra uma voz própria, ele deixa de parecer apenas um desenho em movimento e passa a soar como um pequeno milagre visual. É exatamente isso que acontece em Arco, dirigido por Ugo Bienvenu. Em seu primeiro longa-metragem, o cineasta francês entrega uma obra de ficção científica delicada, emotiva e profundamente inventiva, uma experiência que mistura imaginação infantil com reflexões surpreendentemente maduras sobre futuro, memória e amizade. O resultado é um daqueles raros filmes que parecem ter sido feitos com a liberdade criativa de um artista que simplesmente decidiu desenhar seus sonhos na tela.

A história é aparentemente simples, mas carregada de possibilidades. O jovem Arco, um garoto de dez anos que vive em um futuro extremamente distante, usa um traje especial que permite viajar no tempo. Em sua primeira tentativa, algo dá errado e ele acaba caindo literalmente do céu no ano de 2075. Lá conhece Iris, uma menina que vive praticamente sozinha em um mundo dominado por tecnologia, mudanças climáticas e adultos distantes. Juntos, os dois tentam encontrar uma forma de fazer Arco voltar para casa. O enredo poderia ser apenas mais uma aventura infantil de ficção científica, mas o filme transforma essa premissa em algo muito mais amplo, explorando amizade, solidão e esperança em um planeta que parece constantemente à beira de perder o rumo.

O que imediatamente chama atenção é a animação absolutamente lindíssima. Há uma beleza sincera em cada cenário, em cada movimento dos personagens e em cada cor espalhada pela tela. A estética mistura traços simples com um uso expressivo de cores vibrantes, criando imagens que lembram tanto quadrinhos europeus quanto a tradição do anime. Não é por acaso que muitos críticos apontam influências que vão desde artistas de ficção científica como Moebius até o imaginário de Hayao Miyazaki. O próprio diretor tem origem nos quadrinhos e na ilustração, e essa formação se percebe em cada enquadramento, que parece ter sido cuidadosamente desenhado como se fosse uma página de graphic novel em movimento.

Mas o mais curioso em Arco é como ele parece misturar referências aparentemente incompatíveis e ainda assim funcionar perfeitamente. Existe ali algo do espírito aventureiro de De Volta Para o Futuro, especialmente nessa ideia de viagem temporal conduzida por pura curiosidade juvenil. Ao mesmo tempo, o filme mergulha numa estética musical e visual que lembra experiências mais experimentais da animação japonesa, evocando inevitavelmente Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem, a famosa animação associada ao duo Daft Punk. É uma combinação improvável, quase uma bagunça estilística, mas uma bagunça muito boa. Parece um anime perdido produzido por algum estúdio francês com orçamento modesto e imaginação infinita.

Essa mistura cultural cria algo extremamente singular. Há momentos em que o filme parece um conto futurista melancólico, quase contemplativo. Em outros, vira uma aventura leve e colorida cheia de energia juvenil. E em certos trechos, simplesmente se entrega à pura contemplação visual, como se a narrativa abrisse espaço para que o espectador apenas absorvesse aquele mundo imaginado. Essa liberdade narrativa é um dos maiores encantos da obra.

A relação entre Arco e Iris também funciona com enorme sensibilidade. Não há sentimentalismo exagerado nem diálogos artificiais. Os dois personagens se conectam de forma natural, como crianças que descobrem no outro um companheiro improvável em meio a um mundo meio estranho. O filme entende perfeitamente como retratar a infância sem transformá-la em caricatura. A amizade dos dois é o coração emocional da história, e é ela que conduz o espectador pela narrativa.

Outro aspecto encantador é o mundo futurista que o filme constrói. O ano de 2075 mostrado aqui não é apenas uma distopia tecnológica. Há drones, robôs e hologramas, mas também um sentimento constante de melancolia ambiental, uma sensação de que a humanidade perdeu alguma coisa essencial ao longo do caminho. Ainda assim, o filme nunca se torna pessimista. Pelo contrário, ele sugere que a esperança pode vir justamente das novas gerações que ainda enxergam o mundo com curiosidade e imaginação.

É impossível ignorar também a trilha sonora e o ritmo quase musical de certas sequências. Em alguns momentos, o filme parece realmente se aproximar da linguagem de um videoclipe futurista, algo que faz sentido considerando o histórico de Bienvenu trabalhando com música e cultura pop. Essas passagens reforçam a sensação de que estamos vendo uma obra que mistura cinema, quadrinhos, anime e música eletrônica num único organismo criativo.

Talvez o mais impressionante seja perceber que tudo isso nasce de um primeiro longa-metragem. Muitos diretores passam anos tentando encontrar uma identidade visual e narrativa. Aqui ela surge já completamente formada. Arco não tenta seguir tendências nem imitar o estilo das grandes animações industriais. Ele simplesmente existe à sua maneira, como um pequeno universo independente dentro do cinema de animação contemporâneo.

Ao final da jornada, fica a sensação rara de ter assistido a algo genuinamente especial. Um filme que olha para o futuro sem perder a ternura do olhar infantil. Uma obra que mistura referências com liberdade, sem medo de parecer estranha. E acima de tudo, um lembrete de que a animação ainda é capaz de produzir imagens que fazem o espectador sentir algo verdadeiro. Em tempos de produções cada vez mais calculadas e previsíveis, Arco surge como um arco-íris inesperado no céu do cinema. E às vezes é exatamente isso que a arte precisa ser. 

março 09, 2026

Zootopia 2 (2025)

 


Título original: Zootopia 2
Direção: Jared Bush, Byron Howard
Sinopse: Os detetives Judy Hopps e Nick Wilde se encontram na trilha sinuosa de um réptil misterioso que chega a Zootopia e vira a metrópole dos mamíferos de cabeça para baixo.


A sequência Zootopia 2 chega quase uma década depois do sucesso estrondoso do primeiro filme, tentando revisitar o universo da metrópole habitada por animais que conquistou o público em 2016. Dirigido por Jared Bush e Byron Howard, o longa retoma os personagens Judy Hopps e Nick Wilde, novamente dublados por Ginnifer Goodwin e Jason Bateman, agora trabalhando juntos como policiais enquanto investigam um caso envolvendo uma misteriosa serpente chamada Gary De’Snake, personagem interpretado por Ke Huy Quan. Na história, a dupla acaba sendo incriminada e precisa atravessar diferentes regiões da cidade para provar sua inocência e capturar o verdadeiro responsável pelo caos que se instala na metrópole.

O problema é que, apesar da escala maior e da evidente ambição da produção, a sensação constante é de um projeto que existe mais pela necessidade industrial de continuar uma franquia lucrativa do que por uma verdadeira inspiração criativa. O primeiro Zootopia funcionava justamente porque parecia uma surpresa. Misturava investigação policial com sátira social e humor de forma leve e inteligente. Já aqui, a impressão é de que quase tudo foi reciclado, ampliado ou esticado sem que houvesse realmente algo novo a dizer. O filme tenta repetir a fórmula da dupla improvável que aprende a confiar um no outro, mas esse arco dramático já foi resolvido antes e retorna agora com uma artificialidade que torna muitas cenas previsíveis.

Visualmente, é impossível negar que a animação continua impressionante. A tecnologia da Walt Disney Animation Studios evoluiu bastante desde o primeiro filme, e a cidade de Zootopia surge ainda mais detalhada, cheia de pequenas piadas visuais e texturas sofisticadas. Os ambientes continuam criativos, com bairros que refletem diferentes climas e habitats animais, e há momentos em que a câmera virtual percorre esses cenários com uma fluidez que lembra superproduções de ação. O problema é que toda essa sofisticação técnica parece existir quase como distração. Quanto mais o filme aposta em perseguições frenéticas, explosões e sequências espetaculares, mais evidente se torna o vazio da narrativa.

A relação entre Judy e Nick, que antes era o coração emocional da história, aqui parece presa a diálogos repetitivos. O roteiro insiste em reforçar conflitos que não soam naturais, como se a trama precisasse inventar obstáculos artificiais apenas para movimentar a história. Isso enfraquece o ritmo do filme e faz com que vários momentos que deveriam ser engraçados ou emocionantes soem apenas mecânicos. O humor também sofre. A espontaneidade do primeiro filme dá lugar a piadas que parecem calculadas demais, muitas delas dependentes de referências internas ou de personagens secundários que entram e saem da trama sem deixar impressão duradoura.

O elenco de vozes continua competente. Ginnifer Goodwin mantém o entusiasmo incansável de Judy Hopps, enquanto Jason Bateman ainda consegue extrair certo carisma do cinismo relaxado de Nick Wilde. Entre os novos nomes, Ke Huy Quan traz uma energia curiosa ao personagem da serpente Gary, mas o roteiro nunca decide exatamente se ele deve ser um vilão ameaçador, uma figura cômica ou apenas um dispositivo de trama. Participações de nomes conhecidos como Idris Elba e Shakira aparecem mais como acenos ao público do que como elementos realmente importantes para a história.

O curioso é que, enquanto muitos espectadores e críticos elogiaram a continuação e o filme se tornou um gigantesco sucesso comercial, arrecadando mais de 1,8 bilhão de dólares no mundo todo, esse triunfo de bilheteria parece reforçar justamente a sensação de que Hollywood está cada vez mais dependente de propriedades já estabelecidas. A indústria celebra números e recordes, mas a criatividade parece cada vez mais comprimida entre expectativas de franquia e estratégias de marketing.

No fim das contas, Zootopia 2 não é um desastre técnico. A animação é refinada, os personagens continuam simpáticos e há energia suficiente para manter o público infantil entretido. Mas o filme carrega um problema difícil de ignorar: ele nunca justifica realmente sua existência. Falta surpresa, falta risco e, principalmente, falta aquele encanto que fazia o primeiro filme parecer especial. O resultado é uma sequência que funciona como espetáculo visual, mas que deixa a sensação de que estamos apenas revisitanto um mundo que já disse tudo o que tinha para dizer. Em vez de expandir Zootopia, o filme apenas circula em volta dela, como um passeio longo demais por uma cidade que perdeu parte da sua magia.



março 06, 2026

A Meia-Irmã Feia (2025)

 


Título original: Den Stygge Stesøsteren 
Direção: Emilie Blichfeldt
Sinopse: Elvira, meia-irmã de Cinderela, vive com a família em um poderoso reino onde poucas coisas são tão importantes quanto a beleza. Ela recorre a medidas extremas para cativar o príncipe, em meio a uma competição implacável pela perfeição física.


O cinema recente tem demonstrado um interesse curioso em revisitar contos de fadas sob óticas sombrias. Histórias que antes pareciam inocentes passam a ser examinadas como metáforas de violência social, obsessões e frustrações humanas. Dentro desse movimento aparece A Meia-Irmã Feia (2025), estreia da diretora norueguesa Emilie Blichfeldt, uma releitura grotesca e satírica do conto da Cinderela. O filme parte de uma premissa simples e até bastante promissora. Em vez de acompanhar a tradicional heroína, a narrativa desloca o foco para a meia-irmã considerada “feia”, Elvira, interpretada por Lea Myren. A proposta é inverter a perspectiva do conto clássico e mostrar a história pelo ponto de vista de quem normalmente ocupa o papel de antagonista.

A trama se passa em um reino onde a beleza não é apenas um atributo desejável, mas praticamente uma moeda social. Elvira vive com a mãe e a irmã em uma situação financeira frágil e enxerga no casamento com o príncipe uma possível saída para sua vida. O problema é que ela precisa competir com a própria meia-irmã Agnes, vivida por Thea Sofie Loch Næss, cuja aparência perfeita parece torná-la a escolha natural para o baile real. A partir daí, o filme transforma o conhecido conto em uma espécie de disputa desesperada por padrões de beleza impossíveis.

A ideia de transformar o universo de Cinderela em uma sátira grotesca sobre padrões estéticos é, sem dúvida, a parte mais interessante do projeto. A diretora constrói um mundo onde a aparência física se torna uma espécie de tirania social. Para se adequar a esse ideal, Elvira passa por procedimentos cada vez mais extremos e dolorosos, numa abordagem que aproxima o filme do chamado “body horror”, gênero que utiliza o próprio corpo humano como elemento de terror.

Visualmente, o longa tem momentos que realmente chamam atenção. A fotografia assinada por Marcel Zyskind cria uma atmosfera meio sombria, meio fantasiosa, que lembra ilustrações antigas de contos de fadas. O cenário mistura luxo decadente com ambientes sujos e claustrofóbicos, reforçando a sensação de que aquele reino elegante esconde algo profundamente perturbador. Em certos momentos, o filme até consegue capturar uma beleza visual curiosa, quase como se fosse um conto de fadas contaminado por algo estranho e desagradável ao mesmo tempo.

A performance de Lea Myren também merece destaque. A atriz consegue transmitir uma mistura interessante de ingenuidade, inveja e desespero. Sua personagem não é simplesmente malvada, mas alguém esmagado por expectativas absurdas. Essa camada dramática ajuda a tornar Elvira mais humana, ainda que o filme às vezes exagere nas situações grotescas que ela enfrenta. Já Ane Dahl Torp, como a mãe ambiciosa e manipuladora, funciona bem como a força que empurra a filha para essa obsessão pela beleza e pelo status social.

O problema é que, depois de estabelecer essa premissa instigante, o filme parece não saber exatamente o que fazer com ela. Em vez de desenvolver melhor os conflitos entre as personagens ou aprofundar a crítica social, a narrativa passa a apostar cada vez mais no choque visual. As cenas grotescas se tornam frequentes e, em certos momentos, parecem existir apenas para provocar reação imediata do público. Há sequências que claramente querem causar desconforto físico, o que pode até gerar impacto inicial, mas acaba ficando repetitivo conforme a história avança.

Essa insistência no grotesco acaba enfraquecendo o próprio discurso do filme. A crítica aos padrões de beleza, que poderia ser explorada com mais ironia ou inteligência, vai sendo soterrada por imagens exageradas e situações cada vez mais absurdas. O resultado é um longa que começa com uma ideia forte, mas que aos poucos se transforma em uma experiência cansativa. Em vez de provocar reflexão, muitas cenas parecem apenas querer chocar o espectador.

Outro problema é o ritmo irregular. O filme alterna momentos interessantes com trechos que se arrastam sem muita progressão narrativa. Há sequências em que a história praticamente para para mostrar mais um procedimento bizarro ou mais um momento grotesco, o que acaba quebrando o fluxo da narrativa. Quando finalmente chega ao seu clímax, a sensação é de que o filme já disse tudo que tinha a dizer muito antes.

No fim das contas, A Meia-Irmã Feia é um filme curioso, cheio de ideias visuais e com uma proposta que poderia render algo realmente memorável. A tentativa de transformar um conto de fadas em uma sátira sombria sobre padrões de beleza tem potencial e até funciona em alguns momentos. No entanto, a obsessão pelo choque acaba dominando a experiência e enfraquecendo o impacto da história.

O resultado é um longa que chama atenção, que certamente vai gerar comentários e reações fortes, mas que também deixa a sensação de que havia um filme muito melhor escondido ali. Em vez de aprofundar suas ideias, a obra prefere exagerar nos excessos. E quando o choque se torna mais importante que a narrativa, até o conto de fadas mais perverso acaba perdendo sua magia.

março 05, 2026

O Ônibus Perdido (2025)

 


Título original: The Lost Bus
Direção: Paul Greengrass
Sinopse: Um pai determinado arrisca tudo para resgatar uma professora dedicada e seus alunos de um incêndio florestal devastador.


Inspirado em um episódio real ocorrido durante o devastador incêndio conhecido como Camp Fire, que atingiu a Califórnia em 2018, O Ônibus Perdido, dirigido por Paul Greengrass, parte de uma premissa que, à primeira vista, parece promissora para um drama de sobrevivência. Baseado no livro Paradise: One Town's Struggle to Survive an American Wildfire, da jornalista Lizzie Johnson, o filme acompanha um motorista de ônibus escolar que precisa conduzir um grupo de crianças e uma professora através de uma região tomada por um incêndio fora de controle. No papel principal está Matthew McConaughey, ao lado de America Ferrera, que interpreta a professora responsável pelos alunos durante a fuga desesperada.

A história segue Kevin McKay, um motorista encarregado de transportar crianças enquanto o fogo avança rapidamente sobre estradas e cidades próximas. Ao lado da professora Mary Ludwig, ele tenta encontrar uma rota segura em meio ao caos causado pelo incêndio, que se espalha de forma imprevisível e transforma ruas em corredores de fumaça e pânico. A premissa possui todos os ingredientes de um bom drama de tensão. Há perigo constante, crianças em risco e uma corrida contra o tempo. No papel, parece o tipo de narrativa capaz de produzir um filme intenso e emocional. Na prática, porém, o resultado é muito menos envolvente do que poderia ser.

O principal problema de O Ônibus Perdido é que ele se torna rapidamente entediante e repetitivo. A sensação ao longo da projeção é de que o filme gira em círculos, repetindo sempre as mesmas situações. O ônibus tenta avançar por uma estrada, encontra algum obstáculo, precisa voltar, pega outro caminho e tudo volta a acontecer novamente. Esse mecanismo narrativo se repete tantas vezes que o espectador começa a perceber claramente o padrão. Em vez de aumentar a tensão, como provavelmente era a intenção, o filme acaba criando um efeito oposto. A narrativa perde impacto e passa a dar a impressão de que nada realmente progride.

Esse problema se torna ainda mais evidente quando se observa a duração da obra. O filme ultrapassa duas horas de duração, algo que parece completamente exagerado para uma história tão simples. O que poderia funcionar como um drama de sobrevivência direto e conciso acaba se estendendo muito além do necessário. Muitas sequências parecem variações da mesma ideia visual. Fumaça, estrada bloqueada, desespero dentro do ônibus, mais fumaça, mais estrada bloqueada. A sensação é a de um filme que repete constantemente a mesma situação sem acrescentar novas camadas dramáticas.

Outro elemento que pesa negativamente é a atuação de Matthew McConaughey. O ator, que interpreta o motorista Kevin McKay, parece sempre preso ao mesmo tipo de performance, com trejeitos e expressões que já se tornaram previsíveis ao longo de sua carreira. Sua atuação aqui não acrescenta nenhuma nuance ao personagem. Pelo contrário, contribui para deixar a experiência ainda mais monótona. É o tipo de interpretação que parece sempre igual, independentemente do contexto do filme. Para quem já não simpatiza com o ator, O Ônibus Perdido dificilmente mudará essa impressão.

America Ferrera, por sua vez, faz o que pode com um papel relativamente limitado. Sua personagem possui potencial dramático, afinal ela é responsável por manter a calma das crianças enquanto tudo desmorona ao redor. Porém o roteiro raramente se aprofunda nesse aspecto. Muitas vezes ela se limita a reagir às situações, sem que a narrativa realmente desenvolva sua perspectiva de forma mais interessante.

Visualmente, o filme tenta reproduzir o estilo característico de Paul Greengrass. A câmera nervosa, os enquadramentos instáveis e a edição acelerada procuram transmitir sensação de urgência e caos. Esse estilo já apareceu em diversos trabalhos do diretor, especialmente em produções de ação e suspense. No entanto, aqui o recurso parece mais um hábito repetido do que uma escolha realmente eficaz. Em muitos momentos, a movimentação constante da câmera não intensifica a cena, apenas reforça a artificialidade da encenação.

Isso acaba reforçando uma impressão recorrente na filmografia de Greengrass. Com exceção de Voo United 93, talvez sua obra mais impactante e realmente emocional, muitos de seus filmes parecem superficiais, dependentes de um estilo visual agitado que tenta substituir profundidade dramática. O Ônibus Perdido segue exatamente esse padrão. É uma produção que tenta se apresentar como um grande drama humano em meio a um desastre, mas que acaba soando artificial e distante.

Mesmo o contexto histórico do incêndio de Paradise, que poderia gerar momentos realmente devastadores, raramente ganha o peso emocional que merece. O desastre permanece mais como pano de fundo para sequências de ação repetidas do que como um elemento humano capaz de provocar reflexão ou impacto.

No fim das contas, O Ônibus Perdido é um exemplo claro de como uma história potencialmente poderosa pode se perder em uma execução cansativa. A repetição constante de situações, a duração exagerada e a falta de profundidade dramática transformam o filme em uma experiência arrastada. O que deveria ser uma jornada angustiante de sobrevivência acaba parecendo apenas um longo percurso circular. Quando o ônibus finalmente chega ao destino, o sentimento predominante não é alívio ou emoção. É simplesmente a sensação de que a viagem demorou muito mais do que deveria.