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setembro 16, 2026

Backrooms: Um Não-Lugar (2026)

 


Título original: Backrooms
Direção: Kane Parsons
Sinopse: Em 1990, o vendedor de móveis Clark descobre em sua loja um portal para os "Backrooms", um labirinto infinito de escritórios surreais. Fascinado, ele convence sua funcionária Kat e o namorado dela a mapearem as anomalias do local. Após o desaparecimento de Clark, sua terapeuta, a Dra. Mary Kline, mergulha na dimensão impossível para resgatá-lo, sendo forçada a confrontar seus próprios traumas enquanto busca uma saída.


O conceito por trás de Backrooms: Um Não-Lugar é daqueles que parecem ter nascido para provocar a imaginação. A partir de uma fotografia de um ambiente vazio publicada na internet, surgiu todo um universo de corredores intermináveis, salas abandonadas e espaços que parecem existir fora da realidade. Kane Parsons transformou essa ideia em vídeos que conquistaram enorme popularidade e agora chega ao cinema com uma produção da (sempre péssima) A24, protagonizada por Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve e Mark Duplass. O problema é que aquilo que funciona muito bem como uma experiência curta e estranha nem sempre consegue sustentar um longa-metragem.

A história acompanha Clark, um vendedor de móveis que encontra uma passagem para um lugar aparentemente impossível. Depois de desaparecer, ele é procurado por Mary, sua terapeuta, que acaba entrando nesse universo para tentar encontrá-lo. A partir daí, o filme mergulha em corredores, salas vazias e ambientes que parecem se multiplicar indefinidamente, enquanto os personagens tentam compreender onde estão e como podem sair dali. A premissa é interessante, mas rapidamente fica evidente que o filme depende muito mais da atmosfera do que propriamente da história.

E atmosfera não falta. Kane Parsons demonstra um talento visual bastante evidente. Os cenários reproduzem com eficiência aquela estética estranha dos "backrooms", com paredes amareladas, carpete envelhecido, iluminação fluorescente e ambientes praticamente idênticos entre si. Existe algo genuinamente desconfortável nessas imagens, principalmente porque elas transformam lugares banais em espaços ameaçadores. A fotografia e o desenho de som também colaboram para criar essa sensação de isolamento, com ruídos constantes, silêncios prolongados e uma iluminação que parece nunca permitir que o espectador se sinta confortável.

O problema é que a estética acaba sendo muito mais interessante do que aquilo que o filme tem para contar. Não suporto essas coisas de surrealismo, fantasia, coisas sem explicação. Sei que essa ausência de respostas pode ser justamente o que atrai muita gente para esse tipo de produção, mas comigo acontece o contrário. Quando um filme estabelece um mistério, espero que exista alguma recompensa emocional ou narrativa nessa jornada. Aqui, quanto mais a história tenta explicar aquele universo, mais distante fico dos personagens e da própria narrativa.

Chiwetel Ejiofor faz o possível para dar humanidade a Clark, enquanto Renate Reinsve encontra alguns bons momentos como Mary. Os dois atores, porém, estão presos a personagens que nunca conseguem ultrapassar completamente suas funções dentro da trama. Seus dramas pessoais deveriam criar uma ligação emocional com o público, mas acabam parecendo acessórios para conduzir a história de um ambiente estranho ao seguinte. Falta uma conexão que faça com que eu realmente me importe com o destino deles.

É justamente aí que Backrooms: Um Não-Lugar se torna cansativo. Tedioso. A repetição dos corredores, salas e criaturas inicialmente produz curiosidade, mas depois começa a produzir apenas a sensação de que estamos andando em círculos. O que deveria ser uma representação da desorientação dos personagens passa a ser também a desorientação narrativa do próprio filme. Existem momentos interessantes, principalmente quando Parsons deixa o espaço falar por si, mas eles são prejudicados pela necessidade constante de ampliar a mitologia.

E talvez o maior problema esteja justamente nessa tentativa de transformar uma ideia simples em algo muito maior. Os backrooms eram fascinantes porque não precisavam de explicação. Uma fotografia de um espaço vazio já era suficiente para despertar a sensação de que havia algo errado. No longa, a introdução de criaturas, regras e explicações torna esse universo mais elaborado, mas não necessariamente mais interessante. Para mim, quanto mais o filme explica, menos misterioso ele fica.

É esteticamente bonito mas emocionalmente distante e completamente irrelevante. Consigo reconhecer o cuidado da produção, a qualidade dos cenários e o talento visual de Parsons, mas nada disso foi suficiente para criar envolvimento. O diretor claramente sabe construir imagens e atmosferas, e existe potencial em sua maneira de filmar, especialmente considerando que este é seu primeiro longa-metragem. O que falta é uma história capaz de sustentar esse talento durante toda a duração do filme.

No fim, Backrooms: Um Não-Lugar me parece mais uma demonstração do potencial cinematográfico de Kane Parsons do que um filme plenamente realizado. Há imagens memoráveis, uma identidade visual forte e uma premissa que continua sendo curiosa, mas também existe uma narrativa arrastada e emocionalmente pouco envolvente. O que poderia ser uma experiência inquietante acaba se tornando uma longa caminhada por corredores que parecem não levar a lugar algum. E, considerando justamente o título brasileiro, talvez essa seja a conclusão mais apropriada: depois de toda essa viagem, a sensação é a de ter chegado exatamente a lugar nenhum.

Rompendo Rochas (2025)

 


Título original: Cutting Through Rocks
Direção: Sara Khaki, Mohammad Reza Eyni
Sinopse: Sara Shahverdi, a primeira mulher iraniana eleita para a vereança de sua aldeia, luta contra tradições patriarcais ao ensinar meninas a andar de moto, defender o direito à propriedade e combater o casamento infantil, apesar da forte oposição. O documentário acompanha a jornada de Shahverdi, que, mesmo enfrentando dúvidas e resistência, se torna um símbolo de resistência e esperança para uma nova geração.


Há filmes que conseguem transformar uma história aparentemente simples em uma experiência cinematográfica poderosa, enquanto outros carregam consigo um tema tão relevante que, por si só, despertam interesse, mas não encontram na linguagem do cinema a mesma força que existe na realidade retratada. Rompendo Rochas, dirigido por Sara Khaki e Mohammad Reza Eyni, pertence mais à segunda categoria. O documentário parte de uma personagem extremamente interessante e de uma realidade social que merecia ser conhecida por um público muito mais amplo, mas acaba construindo uma experiência irregular, frequentemente monótona e menos envolvente do que poderia ser.

O filme acompanha Sara Shahverdi, mulher de 43 anos que vive em uma região rural do noroeste do Irã e que se tornou a primeira mulher eleita para o conselho municipal de sua comunidade. Divorciada, independente e acostumada a desafiar as expectativas impostas às mulheres ao seu redor, Sara se transforma em uma espécie de agente de mudança dentro de uma sociedade profundamente marcada por tradições patriarcais. Sua atuação passa por questões como o casamento infantil, o acesso das meninas à educação, a autonomia feminina e o direito das mulheres de participarem das decisões relacionadas às próprias vidas. O próprio título funciona como uma metáfora bastante evidente para essa trajetória: romper as estruturas sociais que parecem tão rígidas quanto as pedras que cercam a protagonista.

E é justamente aí que está o maior mérito do documentário. Sara é uma personagem naturalmente cinematográfica. Sua personalidade forte, sua maneira direta de falar, sua independência e a disposição para enfrentar homens e instituições fazem com que ela desperte curiosidade imediatamente. Há algo fascinante em acompanhar uma mulher que simplesmente se recusa a aceitar como inevitáveis determinadas regras sociais. Em diversos momentos, sua presença diante da câmera é muito mais interessante do que qualquer tentativa dos realizadores de explicar o que estamos vendo.

A produção também consegue registrar situações bastante significativas do cotidiano da comunidade. Sara tenta convencer famílias a permitir que meninas tenham outras possibilidades para o futuro, enfrenta conflitos dentro da própria família e utiliza sua posição política para tentar modificar pequenas estruturas de poder. O documentário foi construído a partir de aproximadamente sete anos de registros, condensados em pouco mais de uma hora e meia, e essa longa convivência dos realizadores com a personagem proporciona momentos de intimidade que seriam difíceis de conseguir em uma produção convencional.

O problema é que Rompendo Rochas nem sempre sabe o que fazer com esse material. Existe uma diferença considerável entre ter acesso privilegiado a uma história e conseguir transformar esse acesso em cinema. O filme frequentemente parece acreditar que simplesmente observar Sara durante longos períodos será suficiente para manter a atenção do espectador. Nem sempre é. Algumas situações se prolongam além do necessário, determinadas discussões parecem repetitivas e há momentos em que a narrativa dá a impressão de estar andando em círculos.

Essa característica torna a experiência bastante monótona em determinados trechos. A câmera observa, espera e acompanha, mas nem sempre existe uma construção narrativa capaz de transformar essa observação em tensão ou emoção. O estilo documental de acompanhamento direto pode funcionar muito bem quando existe uma montagem precisa, capaz de encontrar significado e ritmo dentro dos acontecimentos cotidianos. Aqui, porém, essa estratégia nem sempre produz o efeito desejado. O espectador percebe a importância daquilo que está sendo mostrado, mas isso não significa necessariamente que esteja envolvido com a maneira como a história é contada.

É curioso, inclusive, que o filme tenha sido recebido de maneira tão entusiasmada em alguns festivais. Rompendo Rochas estreou no Festival de Sundance de 2025 e recebeu o Grande Prêmio do Júri na competição de documentários de cinema mundial. A própria organização do festival destacou a trajetória de Sara e sua tentativa de oferecer às mulheres de sua comunidade maior liberdade de escolha. Há, portanto, um reconhecimento internacional bastante expressivo em torno da obra, ainda que a experiência pessoal diante do filme possa ser bem menos entusiasmante.

Parte dessa diferença talvez esteja justamente na força do tema. A situação retratada é tão relevante que pode acabar elevando a percepção sobre o próprio filme. A luta de Sara possui importância social evidente, e conhecer as dificuldades enfrentadas por mulheres em uma comunidade rural iraniana proporciona um retrato cultural que dificilmente seria encontrado em uma produção comercial. Entretanto, considero que um tema importante não garante automaticamente um grande documentário. É preciso que a forma de contar essa história seja tão eficiente quanto a história em si.

Nesse sentido, Rompendo Rochas me parece uma obra mal produzida quando comparada ao que encontramos com frequência no documentário brasileiro. O cinema documental brasileiro possui uma tradição particularmente forte de transformar questões sociais, políticas e humanas em narrativas mais dinâmicas, emocionais e cinematograficamente elaboradas. Mesmo quando trabalham com realidades igualmente difíceis, muitos documentários nacionais conseguem estabelecer melhor o ritmo, desenvolver seus personagens de maneira mais envolvente e encontrar imagens capazes de sintetizar aquilo que o filme pretende dizer. Em “Rompendo Rochas”, essa preocupação parece existir, mas nem sempre chega ao resultado esperado.

Isso não significa que a fotografia seja ruim. Pelo contrário, há momentos visualmente interessantes, especialmente quando a câmera acompanha Sara pelos espaços da comunidade ou registra sua relação com as meninas que tenta inspirar. A paisagem rural também contribui para criar uma sensação de isolamento e ajuda a compreender o ambiente em que os conflitos acontecem. O problema está menos nas imagens individualmente e mais na maneira como elas são articuladas. Faltam, em alguns momentos, uma seleção mais rigorosa e um ritmo que conduza o espectador de maneira mais natural.

A montagem também é responsável por essa sensação de irregularidade. Os realizadores, Sara Khaki e Mohammad Reza Eyni, acumulam funções importantes no projeto, com Eyni também responsável pela fotografia e ambos envolvidos na edição. Há uma intenção clara de construir um retrato próximo e espontâneo, mas algumas transições são abruptas e determinadas partes da trajetória de Sara ficam pouco desenvolvidas e certos aspectos pessoais da protagonista acabam sendo apresentados tarde demais ou tratados como elementos secundários.

O mais interessante é perceber que o próprio filme parece possuir material suficiente para ser muito melhor. A história da eleição de Sara, seus conflitos familiares, sua relação com as jovens da comunidade e as consequências de sua atuação poderiam sustentar uma narrativa mais coesa e emocionante. Em vez disso, o documentário muitas vezes prefere permanecer na superfície dos acontecimentos. Quando finalmente consegue alcançar uma dimensão mais íntima, a sensação é de que isso acontece tarde demais.

Ainda assim, seria injusto ignorar os momentos em que Rompendo Rochas encontra sua força. A relação de Sara com as meninas é particularmente significativa porque mostra que sua luta não está limitada ao enfrentamento imediato dos homens que se opõem a ela. Existe uma preocupação com aquilo que poderá acontecer depois, com a possibilidade de que uma nova geração de mulheres tenha opções que não estavam disponíveis para as anteriores. A sequência final, envolvendo Sara e um grupo de meninas em motocicletas, sintetiza essa ideia de maneira bastante eficiente e oferece uma conclusão coerente para sua trajetória.

No fim, Rompendo Rochas é um documentário cuja protagonista é mais interessante do que o próprio filme. Sara Shahverdi é uma figura fascinante, e sua história merece ser conhecida. O problema está na distância entre essa história e a forma encontrada pelos diretores para apresentá-la. Há boas imagens, situações relevantes e uma personagem central capaz de sustentar uma produção inteira, mas falta ao conjunto um pouco mais de ritmo, criatividade e capacidade de transformar observação em emoção.

É uma obra importante pelo que registra, mas apenas parcialmente bem-sucedida pelo modo como registra. Seu tema é poderoso, sua protagonista é memorável e algumas passagens realmente conseguem transmitir a dimensão da resistência que ela representa. Porém, o excesso de contemplação, a montagem irregular e uma narrativa que frequentemente se torna repetitiva fazem com que a experiência seja cansativa. Rompendo Rochas quer mostrar como uma mulher tenta abrir caminho em meio a estruturas sociais endurecidas pelo tempo. Ironicamente, o próprio filme parece encontrar dificuldade para abrir caminho até o espectador.

setembro 15, 2026

Coyote vs. Acme (2026)

 


Título original: Coyote vs. Acme
Direção: Dave Green
Sinopse: Após décadas de falhas catastróficas com os produtos ACME em sua caçada ao Papa-Léguas, Wile E. Coyote decide que é hora de buscar justiça e processar a corporação. Ao lado de um advogado azarado, Coyote trava uma batalha jurídica épica contra o impiedoso CEO da companhia. Enquanto enfrentam o sistema, a dupla desenvolve uma amizade improvável e luta para provar que a culpa de tantos desastres nunca foi do instinto, mas sim de defeitos de fabricação.


É curioso como alguns filmes conseguem chegar ao público carregando consigo uma história quase tão improvável quanto a que contam na tela. Coyote vs. Acme é exatamente esse tipo de caso. Um filme que ficou anos engavetado, parecia destinado a desaparecer e finalmente encontrou seu caminho até os cinemas em 2026. E existe uma ironia perfeita nisso, porque estamos falando de um personagem que passou décadas sendo esmagado, explodido, enganado e humilhado pelos produtos da ACME e que finalmente decide enfrentar a empresa responsável por todas as suas desgraças.

Eu esperava pouco. Muito pouco, na verdade. E talvez essa seja uma das maiores surpresas da experiência, porque Coyote vs. Acme é absolutamente sensacional. Não é apenas uma comédia nostálgica tentando explorar a memória afetiva de quem cresceu assistindo aos Looney Tunes. É um filme que entende seus personagens e, principalmente, entende que por trás de toda aquela loucura existe uma história muito humana sobre alguém que passou a vida inteira sendo tratado como o problema.

Sempre me identifiquei com o Coyote. E sempre o achei injustiçado. Existe algo particularmente melancólico naquele personagem que simplesmente não consegue vencer, não importa quanto tente. Ele planeja, pesquisa, compra os produtos mais absurdos da ACME, prepara suas armadilhas e, no instante seguinte, tudo dá errado. O Papa-Léguas escapa, Coyote sofre as consequências e nós rimos. O filme pega justamente essa velha piada e pergunta se talvez tenhamos passado décadas rindo da pessoa errada.

Dirigido por Dave Green, o longa acompanha Wile E. Coyote entrando em uma batalha judicial contra a ACME depois de tantos produtos defeituosos destruírem sua vida. Para isso, ele conta com o advogado Kevin Avery, vivido por Will Forte, enquanto John Cena interpreta o advogado da poderosa empresa. A partir daí, o que parecia uma premissa absurda se transforma em uma divertida comédia jurídica, mas também em uma história sobre amizade, injustiça e pessoas tentando ser ouvidas.

Will Forte funciona muito bem porque não transforma Kevin em um herói perfeito. Ele é inseguro, desacreditado e precisa recuperar a própria confiança. A relação que desenvolve com Coyote dá ao filme uma dimensão emocional que eu sinceramente não esperava encontrar. John Cena também se diverte bastante como o advogado da ACME, equilibrando o exagero necessário para uma produção desse tipo com uma atuação que nunca deixa o personagem cair completamente na caricatura.

Mas o grande astro continua sendo Coyote. O filme respeita a essência do personagem e entende que ele não precisa falar o tempo inteiro para ser engraçado. Seus olhares, movimentos e expressões continuam carregando aquela linguagem dos desenhos clássicos. E é justamente aí que o longa acerta em cheio.

Também fiquei muito surpreso com a maneira como a animação 3D é utilizada. Ela é bem sutil. Coyote e os demais personagens continuam parecendo desenhos, mas estão muito mais integrados ao mundo real do que em muitos filmes que tentaram fazer essa mistura. Para mim, Coyote vs. Acme é muito melhor que Uma Cilada Para Roger Rabbit. Não pela importância histórica, que pertence ao clássico de Robert Zemeckis, mas porque aqui a integração entre os dois mundos parece mais natural e menos preocupada em mostrar o próprio virtuosismo técnico.

A fotografia de Brandon Trost ajuda bastante nesse resultado, utilizando iluminação, perspectiva, sombras e interação física para fazer os personagens animados realmente parecerem parte daquele ambiente. O filme não precisa ficar o tempo inteiro lembrando que existe uma tecnologia por trás daquilo. Ela simplesmente funciona.

Mas o que mais me conquistou foi a crítica social. Coyote vs. Acme fala sobre grandes corporações, desigualdade de forças e pessoas que não conseguem ser ouvidas simplesmente porque não possuem dinheiro ou influência. E faz isso sem transformar a história em um discurso pesado.

É também uma excelente crítica aos julgamentos precoces. Coyote passou décadas sendo visto como um sujeito obcecado e responsável pelos próprios fracassos. O filme nos obriga a olhar novamente para essa história e perguntar se ele realmente era o culpado por tudo aquilo. É um tapa na cara de quem julga os outros sem conhecer o contexto.

E essa ideia funciona porque Coyote não é transformado em santo. Ele continua sendo Coyote. Continua cometendo erros e tomando decisões questionáveis. A diferença é que, pela primeira vez, alguém está disposto a ouvi-lo.

O roteiro de Samy Burch consegue equilibrar humor, aventura, crítica social e emoção sem esquecer que, acima de tudo, estamos diante de uma história dos Looney Tunes. A trilha de Steven Price acompanha bem essa mistura, enquanto a montagem mantém o filme movimentado, principalmente nas sequências de humor físico.

A única coisa que realmente me impede de considerar o filme completamente perfeito é o ritmo em alguns poucos momentos. Há cenas que se esticam um pouco além do timing ideal, quando poderiam terminar alguns segundos antes. É um detalhe pequeno, mas perceptível justamente porque o restante funciona tão bem.

No fim, Coyote vs. Acme é uma das maiores surpresas que tive com um filme desse tipo. Eu esperava pouco e encontrei algo absolutamente sensacional. É nostálgico sem viver apenas da nostalgia, engraçado sem ser infantil e crítico sem perder a leveza.

Sempre achei o Coyote injustiçado. Depois desse filme, acho ainda mais.

E talvez essa seja sua maior vitória. Pela primeira vez, ele deixa de ser apenas a piada e passa a ser o protagonista da própria história. Depois de décadas caindo de penhascos e sendo vítima das próprias armadilhas, finalmente chegou o momento de alguém ouvir o seu lado.

Quase perfeito. E, para um personagem que passou a vida inteira perdendo, já é uma vitória e tanto.

abril 29, 2026

O Diabo Veste Prada 2 (2026)

 


Título original: The Devil Wears Prada 2
Direção: David Frankel
Sinopse: Miranda Priestly navega por sua carreira em meio ao declínio das publicações tradicionais de revistas. Ela se confronta com Emily Charlton, sua ex-assistente, agora uma influente executiva de um grupo de luxo, que detém verbas publicitárias de que Miranda Priestly precisa desesperadamente.


É curioso como certas continuações parecem existir apenas para confirmar aquilo que já desconfiávamos. O Diabo Veste Prada 2 chega quase duas décadas depois do original com a promessa de revisitar um universo que marcou época, mas acaba funcionando mais como um eco esvaziado do que como uma evolução real. Dirigido novamente por David Frankel e reunindo nomes como Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci, o filme tenta atualizar o universo da moda para um cenário dominado por crises editoriais, digitalização e perda de relevância das revistas impressas . O problema é que, no meio desse esforço de modernização, ele perde justamente aquilo que fazia o original funcionar.

A maior prova disso está na própria Miranda Priestly. A personagem, que antes era magnética, cruel na medida certa e absurdamente fascinante, surge aqui irreconhecível. Não por uma tentativa ousada de reinvenção, mas por um esvaziamento evidente. É uma Miranda mais “humana”, mais contida, mais simples, e isso destrói completamente o eixo dramático. Parte do charme do primeiro filme vinha da aura quase mitológica que Meryl Streep construía com mínimos gestos e olhares. Aqui, essa força desaparece. O roteiro tenta justificar essa mudança com o declínio do mercado editorial e pressões corporativas , mas a sensação é de que tiraram o veneno da personagem sem colocar nada no lugar.

E talvez seja aí que se entenda por que a própria Streep raramente se envolve em continuações. Existe um momento em que revisitar um papel deixa de ser revisitar e passa a diluir. Em vários trechos, percebe-se uma atuação correta, profissional, mas sem o brilho que antes dominava cada cena. Não é uma questão de talento, que continua intacto, mas de material. Quando o texto não sustenta, até uma gigante como ela parece presa a algo que já perdeu o timing.

A narrativa acompanha Andy Sachs retornando ao universo da Runway em meio a uma nova fase da carreira, agora mais madura e inserida em um jornalismo em crise . A ideia tinha potencial. Havia espaço para discutir ambição, ética e adaptação a novos tempos. Mas o desenvolvimento é arrastado, com conflitos que nunca ganham peso real. Tudo parece diluído em diálogos excessivos e situações que se repetem sem chegar a lugar algum. O filme tem pouco mais de duas horas, mas a sensação é de algo ainda mais longo, tamanha a falta de ritmo.

E é justamente esse ritmo que compromete a experiência. O longa se arrasta de forma quase preguiçosa, como se estivesse sempre prestes a engrenar e nunca conseguisse. As cenas se acumulam sem urgência, sem tensão e sem aquela dinâmica ácida que fazia o original ser tão envolvente. Em vez de acompanhar uma escalada dramática, o espectador se vê preso a uma sequência de momentos mornos, próximos do entediante.

Curiosamente, quem acaba roubando a cena em meio a esse marasmo é Lady Gaga. Sua participação, que poderia facilmente ser apenas um artifício promocional, surge como um dos poucos elementos vivos do filme. Além de contribuir com a trilha, incluindo a música “Runway” , ela entrega uma presença cênica segura e carismática. Gaga já demonstrou em outras ocasiões que sabe atuar, mas aqui chama atenção justamente por conseguir trazer energia a um projeto que parece constantemente cansado de si mesmo.

O restante do elenco até tenta manter algum nível de interesse. Emily Blunt e Stanley Tucci ainda encontram momentos pontuais de brilho, especialmente pela familiaridade com seus personagens. Mas nem isso é suficiente para sustentar o filme. Há uma sensação constante de repetição, como se tudo fosse uma versão diluída do que já foi feito antes, sem o frescor ou a ironia que marcavam o original.

Outro problema evidente é a falta de novidade. Apesar de abordar temas contemporâneos como inteligência artificial e a crise do jornalismo, o filme não consegue aprofundar nenhuma dessas ideias. Tudo é tratado de maneira superficial, quase como pano de fundo decorativo. O roteiro parece mais interessado em revisitar situações conhecidas do que em realmente dizer algo novo sobre esse universo.

No fim, O Diabo Veste Prada permanece intocado justamente porque sabia quando parar. Sua continuação, ao contrário, expõe o risco de retornar a histórias que já se encerraram com perfeição. O resultado é um filme que até tenta recuperar a elegância e o sarcasmo de antes, mas que termina como uma versão simplificada e sem impacto daquilo que um dia foi icônico.

E talvez essa seja a maior decepção. Não é um desastre completo, mas é um filme que não convence, não se justifica e, principalmente, não acrescenta nada. Em vez de reafirmar o legado, acaba apenas lembrando que nem toda história precisa de um segundo capítulo.

abril 26, 2026

Devoradores de Estrelas (2026)

 


Título original: Project Hail Mary
Direção: Phil Lord, Christopher Miller
Sinopse: O professor de ciências Ryland Grace acorda em uma espaçonave anos-luz de casa sem memória de quem ele é ou como chegou lá.


Há algo de profundamente revelador quando um filme consegue provocar não apenas desinteresse, mas um tipo raro de rejeição ativa, quase física. Devoradores de Estrelas, adaptação do romance de Project Hail Mary dirigida por Phil Lord e Christopher Miller, entra para um território muito específico da experiência cinematográfica: aquele em que o espectador não apenas se desconecta, mas decide abandonar a sessão. Foi exatamente isso que aconteceu aqui. Em mais de duas décadas escrevendo sobre cinema, esta foi a primeira vez que levantei da poltrona antes do final. Não por choque, não por indignação estética sofisticada, mas por puro esgotamento diante de algo que simplesmente não funciona em absolutamente nenhum nível.

E não há rodeios possíveis: é simplesmente, preto no branco, um filme péssimo. Mas péssimo em caps lock.

A proposta até poderia sugerir algo interessante. Um astronauta acorda sozinho no espaço, sem memória clara de quem é ou do que precisa fazer, enquanto uma ameaça cósmica coloca em risco a sobrevivência da humanidade. É inevitável lembrar de 2001: Uma Odisseia no Espaço, não apenas pela ambientação, mas pela tentativa de criar um senso de mistério existencial e contemplação científica. O problema é que aqui essa inspiração não passa de um esboço mal compreendido. Onde o filme de Stanley Kubrick constrói tensão através do silêncio, da imagem e da ambiguidade, Devoradores de Estrelas opta por explicar tudo, o tempo todo, de forma confusa, truncada e, pior, entediante.

O roteiro parece não saber o que quer ser. Ele se estrutura como uma sucessão de problemas técnicos que precisam ser resolvidos, mas nenhum deles carrega peso dramático real. Não há conflito verdadeiro. Não há dilema. Não há urgência emocional. Tudo soa como uma lista de tarefas, quase um manual mal adaptado para o cinema. O protagonista enfrenta obstáculos que nunca parecem realmente ameaçadores, e a narrativa se arrasta sem qualquer senso de progressão. Em vez de uma jornada, temos uma repetição de situações ocas, que se acumulam até perder completamente o sentido.

E isso nos leva ao centro do problema: não conseguimos sentir absolutamente nada pelo protagonista.

Ryan Gosling, que já construiu uma carreira baseada muito mais em presença estética do que em profundidade dramática consistente, aqui atinge um nível impressionante de apatia. Sua atuação é mecânica, sem vida, e em vários momentos dá a sensação literal de que ele está lendo as falas diretamente do roteiro, sem qualquer esforço de interpretação. Não há carisma, não há vulnerabilidade, não há humanidade. Em um filme que depende quase exclusivamente da conexão com seu personagem central, isso é fatal.

Para piorar, o filme toma decisões estéticas e narrativas que parecem mirar um público infantil, mas sem a leveza ou a criatividade que esse tipo de abordagem exige. A introdução dos alienígenas, criaturas feitas de rocha com comportamento quase cartunesco, empurra a obra para um tom que beira o constrangimento. Em vez de fascínio ou estranhamento, o que se sente é um deslocamento absurdo. A ficção científica aqui não instiga, não provoca, não encanta. Ela infantiliza.

O contraste entre a ambição aparente e a execução real é gritante. Há uma tentativa clara de criar algo grandioso, de lidar com temas cósmicos e existenciais, mas tudo é reduzido a diálogos expositivos e soluções fáceis. O filme não confia na inteligência do espectador, mas também não consegue ser acessível de forma genuína. Fica preso em um limbo narrativo que o torna cansativo e irrelevante ao mesmo tempo.

É inevitável estabelecer um paralelo com outros filmes espaciais recentes que também falharam, cada um à sua maneira. Interestelar (o filme que mais odeio na vida) sempre me pareceu um exemplo clássico de cinema cafona disfarçado de profundidade, com uma trilha que parece saída de vídeos motivacionais de redes sociais e um sentimentalismo forçado que beira o ridículo. Gravidade, por sua vez, sempre me soou como uma comédia involuntária travestida de thriller espacial. Agora, Devoradores de Estrelas se junta a esse grupo, formando uma espécie de trilogia do absurdo cósmico. Três filmes que parecem, em espírito, terem sido produzidos e dirigidos por Mel Brooks, mas sem a menor consciência de que poderiam ser encarados como paródia.

A diferença é que, enquanto Interestelar ainda tenta emocionar e Gravidade ao menos aposta na experiência sensorial, Devoradores de Estrelas não oferece nada. Não há espetáculo visual memorável, não há construção de atmosfera, não há sequer um ritmo minimamente envolvente. O tempo parece se arrastar de forma cruel, transformando cada cena em um teste de paciência.

E talvez o mais grave seja isso: o filme é profundamente desinteressante.

Não há um único momento em que a curiosidade seja despertada de verdade. As revelações não impactam. As soluções não surpreendem. As interações não convencem. Tudo soa previsível, mal articulado e, acima de tudo, irrelevante. É como assistir a um rascunho que nunca foi revisado, uma ideia que nunca encontrou sua forma.

Em determinado ponto, a experiência deixa de ser apenas ruim e passa a ser quase inacreditável. Realmente nunca tinha visto um filme tão ruim assim. E isso não é uma hipérbole jogada ao vento. É um reconhecimento honesto de que estamos diante de algo que falha de maneira tão completa que se torna difícil até encontrar parâmetros de comparação.

Talvez a melhor definição venha de um lugar inesperado. Como diria o influenciador Valter Guijhon em suas aulas de etiqueta e postura, Devoradores de Estrelas é um filme para ser visto “jamais, em hipótese alguma, é o Apocalipse!”. E raramente uma frase se encaixou tão bem.

No fim das contas, o que fica não é raiva, nem frustração criativa. É um vazio. Um silêncio desconfortável de quem percebe que perdeu tempo com algo que não tinha absolutamente nada a oferecer. Se o cinema é, em sua essência, uma experiência de conexão, aqui temos o oposto absoluto. Um filme que não se comunica, não envolve e não justifica sua própria existência.

Devoradores de Estrelas não é apenas ruim. Ele é o fundo do poço do cinema. E, sinceramente, sair da sala antes do final foi a decisão mais lúcida que essa experiência permitiu.

abril 25, 2026

Super Mario Galaxy: O Filme (2026)

 


Título original: The Super Mario Galaxy Movie
Direção: Aaron Horvath, Michael Jelenic
Sinopse: Depois de salvar o Reino dos Cogumelos, Mario e seus amigos se encontram em uma missão intergaláctica para deter um novo vilão ameaçador.


Há algo curioso — e até um pouco desconcertante — em assistir a Super Mario Galaxy: O Filme, dirigido por Aaron Horvath e Michael Jelenic, quando se está completamente deslocado do universo que o filme tenta celebrar com tanta insistência. E talvez esse seja o ponto de partida mais honesto para falar dessa animação: a sensação constante de que ela conversa com um público muito específico, quase fechado em si mesmo, e que deixa de lado quem não compartilha dessa bagagem afetiva.

Entendo completamente que é um filme para quem tem a nostalgia de ter jogado “Mario Bros” nos anos 80 e 90. Não foi a minha realidade. Sempre fui avesso a vídeo games e, com exceção dos jogos de Pokémon em diversos consoles, nunca joguei Mario Bros e conheço os personagens somente por ter jogado Super Smash Bros, desde o Nintendo 64, passando pelo GameCube até o Wii. E eu sempre jogava contra o Mario. Eu era sempre o Mewtwo ou o Pikachu querendo destruir o Bowser. Então, foi uma experiência inusitada. Existe quase um estranhamento ao tentar absorver um filme que claramente espera de você um tipo de envolvimento emocional que simplesmente não está ali.

Ainda assim, seria injusto não reconhecer que, tecnicamente, a animação em si é muito bem executada. Há um cuidado evidente com texturas, iluminação e fluidez de movimento. Os mundos são vibrantes, cheios de detalhes, com cores que saltam da tela de forma quase agressiva. Inclusive ouso dizer que, em vários momentos, o nível visual supera produções recentes de estúdios como Pixar e Disney, que parecem ter entrado em uma certa zona de conforto nos últimos anos. Aqui, há energia, há dinamismo, há uma tentativa constante de impressionar visualmente. E isso funciona.

O problema é que o filme parece acreditar que isso basta.

A narrativa é simples a ponto de parecer quase automática. Personagens entram em cena já estabelecidos, com relações pré-definidas que o filme não se preocupa em construir. Mario, Luigi, Peach, Bowser, Yoshi, Toad. Todos ali, como peças de um tabuleiro que já deveria ser conhecido pelo espectador. Não há esforço em apresentar quem são essas figuras para quem não tem intimidade com esse universo. É como se o filme dissesse, sem rodeios: ou você já ama isso, ou vai ficar de fora.

E isso fica ainda mais evidente nas escolhas estéticas que apelam diretamente para a nostalgia. As sequências em 8-bit que surgem ao longo do filme são, sem dúvida, um agrado claro aos fãs mais antigos. Elas funcionam como pequenas piscadelas cúmplices, como se o filme estivesse constantemente dizendo “lembra disso?”. Para quem viveu essa época, imagino que haja um encanto genuíno aí. Mas, para quem não tem esse vínculo, essas cenas soam mais como interrupções curiosas do que como momentos realmente emocionantes.

No final das contas, ainda assim, é um filme para nostálgicos dos jogos. Isso se demonstra bem nessas inserções retrô e em toda a estrutura da narrativa, que mais parece uma sequência de fases do que uma história propriamente dita. Para quem não é nostálgico, a nova geração, eu simplesmente não sei o que eles sabem sobre Mario e Luigi e Yoshi e Peach e Toad, mas parece que funciona muito bem com essa nova geração, uma vez que eles estavam extasiados com o filme. E talvez esse seja o maior paradoxo da obra: ela não se preocupa em explicar, mas ainda assim conquista.

Outro ponto que pesou bastante na experiência foi o fato de este ter sido meu primeiro filme dublado em quase 20 anos. Eu não sabia mais o que era isso. E confesso que tive limitações em entender muitas falas. Ao contrário da generalidade das redes sociais, eu acho dublagem péssima e a dublagem brasileira querendo incorporar gírias de “periferia” mais péssimas ainda. Há um esforço evidente de modernização da linguagem, mas que muitas vezes soa artificial, deslocado e até cansativo. Em vez de aproximar, acaba criando uma barreira adicional.

E isso é particularmente problemático em um filme que já depende tanto de conexão emocional prévia. Quando o texto não ajuda, quando as falas não convencem, o pouco que poderia surgir de envolvimento acaba se dissipando rapidamente.

Curiosamente, mesmo com todos esses problemas, há momentos pontuais de charme. Algumas interações entre os personagens funcionam, especialmente quando o filme desacelera um pouco e deixa de lado a necessidade constante de espetáculo. E, de forma totalmente pessoal, há um carinho inesperado pelo Yoshi, que talvez seja o único elemento que realmente desperta algum tipo de simpatia genuína.

Mas são momentos isolados em um conjunto que, no geral, não consegue se sustentar para quem está fora da bolha.

No final, uma animação que não me tocou, mesmo eu sendo uma cria dos anos 1980. Mas acredito que tocou à maioria, visto o tanto de arrecadação que esse filme teve. E isso é importante dizer. O sucesso comercial não é um acidente. Existe algo ali que conversa fortemente com o público. Só não conversa comigo.

Enfim, não sou gamer, não gosto de vídeo games, é uma coisa desde criança. Nunca teve apelo para mim. Sempre fui uma criança de enfiar a cara em livros. Então, mesmo mais de 30 anos depois, “Super Mario” não tem nenhuma afinidade emocional ou sentimental comigo. E isso faz toda a diferença aqui.

Porque, no fim das contas, Super Mario Galaxy: O Filme não é exatamente um filme que tenta conquistar novos públicos. Ele reforça um vínculo que já existe. Ele alimenta uma memória coletiva. Ele celebra um passado que, para muitos, é fundamental.

Mas, para quem olha de fora, ele se resume a isso: uma vitrine visualmente impressionante, barulhenta, acelerada e, acima de tudo, distante. Uma animação qualquer. Mas eu gosto do Yoshi.

abril 22, 2026

Michael (2026)

 


Título original: Michael
Direção: Antoine Fuqua
Sinopse: A história da vida de Michael Jackson além da música, traçando sua jornada desde a descoberta de seu talento extraordinário como líder dos Jackson Five até o artista visionário cuja ambição criativa impulsionou uma busca implacável para se tornar o maior artista do mundo.


Há algo curioso acontecendo com a recepção de Michael (2026), dirigido por Antoine Fuqua. Ao contrário do que a esmagadora maioria dos críticos está publicando, vou discordar veementemente da impressão que eles tiveram, em comparação com a minha. Existe quase uma má vontade generalizada em aceitar o filme pelo que ele se propõe a ser. E talvez esse seja o ponto central. Michael não quer ser um estudo psicológico aprofundado, tampouco um drama biográfico convencional que disseca traumas em ritmo lento. Michael é um espetáculo visual e sonoro impressionante, é um mega videoclipe muito bem realizado, e é justamente nisso que reside sua força.

Desde os primeiros minutos, o filme deixa claro seu compromisso com o ritmo e com a experiência sensorial. A montagem é acelerada, quase pulsante, acompanhando a própria energia da carreira de Michael Jackson. A edição rápida é eficaz, o filme não se prolonga muito em dramas e atinge especialmente a nova geração, acostumada com vídeos ágeis nos seus TikTok ou Instagram. Há quem veja isso como superficialidade, mas me parece uma leitura equivocada. O filme entende o tempo em que está sendo lançado e dialoga com ele sem abandonar completamente os espectadores mais antigos. É uma obra que respira modernidade sem apagar suas raízes.

E é justamente nesse equilíbrio que o longa surpreende. O balanceamento deste filme é impressionante. Para quem foi contemporâneo de Michael, como eu, o filme sutilmente, nas entrelinhas, coloca itens e falas que remetem a eventos muito importantes da vida dele, sem ser explícito. Há sugestões discretas sobre sua infância rígida, sua adolescência moldada sob pressão e até aspectos mais delicados, como sua relação com a religião (Michael foi Testemunha de Jeová até a época de Thriller) e os primeiros contatos com medicamentos que mais tarde teriam consequências trágicas. Nada disso é jogado na cara do espectador. Está ali, para quem quiser enxergar. Já para quem não conhece profundamente sua história, o impacto vem por outro caminho. Os mais jovens certamente saem da sessão com uma impressão avassaladora sobre quem foi talvez a maior estrela pop da história da música.

Claro, nem tudo é perfeito. A meia estrela que falta para que o filme seja absolutamente irretocável está no roteiro, que é, sim, fraquinho e simplista em diversos momentos. Há uma tendência a resolver conflitos rapidamente demais, como se o filme estivesse mais interessado em seguir para a próxima performance do que em explorar as consequências dramáticas de cada situação. Mas, sinceramente, isso acaba ficando em segundo plano. Diante do espetáculo que se desenrola por pouco mais de duas horas, o roteiro não chega a incomodar de verdade. Ele cumpre sua função básica de conduzir o espectador de um ponto a outro.

E se há algo que sustenta esse espetáculo com força quase inacreditável, são as atuações. Colman Domingo, no papel de Joseph Jackson, está simplesmente aterrador. Ele não interpreta, ele encarna uma presença opressora, quase demoníaca. É o tipo de atuação que provoca reação imediata do público. Na sessão em que estive, era comum ouvir insultos e murmúrios indignados sempre que ele aparecia em cena. Isso não é algo trivial. É sinal de que o filme conseguiu estabelecer um elo emocional direto com a plateia.

Mas o grande milagre aqui atende pelo nome de Jaafar Jackson. Interpretando o próprio tio, ele atinge um nível de mimetismo que beira o inacreditável. Durante toda a exibição, a sensação não é de estar vendo um ator, mas o próprio Michael em carne e osso. Cada movimento, cada expressão facial, cada inflexão vocal parece ter sido extraída diretamente de arquivos históricos. E o mais impressionante é que não se trata apenas de imitação física. Nas cenas de estúdio, em que a voz é do próprio Jaafar, há uma entrega vocal que sustenta a ilusão de maneira impressionante. Existia uma dúvida legítima sobre sua capacidade dramática, já que não vinha de uma carreira consolidada como ator. Essa dúvida desaparece rapidamente. Ele não apenas sustenta as cenas mais emotivas, como as eleva.

Seria injusto não destacar também o trabalho do jovem Juliano Krue Valdi, que interpreta Michael na infância. Há ali um carisma natural que evita que o início do filme se torne apenas um prólogo funcional. Ele incorpora os trejeitos, o jeito de cantar e dançar com uma naturalidade que impressiona. É um primeiro ato que poderia facilmente cair no lugar-comum, mas ganha vida própria graças à sua presença.

Um ponto que certamente dividirá opiniões é a escolha de ignorar completamente as polêmicas mais pesadas da vida de Michael Jackson. O filme não toca em nenhuma delas. Para alguns, isso será visto como omissão. Para mim, é uma escolha consciente de foco. Michael é um filme feito para os fãs antigos e para criar novos fãs do artista. Ao evitar mergulhar em controvérsias que dominariam a narrativa, o longa preserva a centralidade da música, da performance e da aura quase mítica do artista. É uma abordagem que privilegia o encantamento em vez da desconstrução.

Outro aspecto interessante é a decisão ousada da Lionsgate e Universal Pictures de dividir a história em partes. O filme acompanha Michael desde os tempos dos Jackson 5 até 1988, logo após o lançamento do álbum Bad. Para muitos espectadores, inclusive na sessão em que estive, foi uma surpresa completa chegar ao clímax e ver surgir na tela a frase indicando que a história continua. Essa estratégia lembra o que vimos recentemente com Wicked, embora os contextos sejam completamente diferentes. Aqui, há um apelo global muito mais amplo. Michael Jackson transcende gerações, culturas e fronteiras de uma maneira que poucas figuras na história conseguiram.

Meu palpite é que essa decisão será acertada do ponto de vista financeiro. Ainda assim, para quem acompanha a trajetória de Michael há décadas, fica uma sensação de que essa primeira parte poderia ter sido ainda mais expansiva. Mesmo com seus 127 minutos, o filme parece enxuto demais. Há material ali para pelo menos mais uma hora de duração sem que o ritmo fosse comprometido. Para fãs de longa data, assistir a quatro horas desse universo não seria um problema. Muito pelo contrário.

E vale reforçar algo essencial. Este é um filme para ser visto na maior tela possível, com a melhor qualidade de som disponível. Não é exagero. A experiência audiovisual é parte fundamental da obra. Ver Michael em uma sala IMAX, por exemplo, é algo que transforma completamente a percepção do filme. Cada batida, cada coreografia, cada jogo de luz ganha uma dimensão quase física.

No fim das contas, Michael é um filme que talvez esteja sendo julgado por critérios que não se aplicam a ele. Não é uma biografia tradicional. Não é um drama introspectivo. É uma celebração grandiosa, energética e altamente estilizada de um artista que redefiniu o conceito de espetáculo na música. É memorável, inesquecível, assim como o biografado. E enquanto muitos se prendem ao que o filme não faz, eu prefiro valorizar com entusiasmo tudo aquilo que ele faz com uma confiança impressionante.

Agora resta esperar pela continuação. Se este primeiro capítulo já consegue capturar com tanta força a ascensão de Michael Jackson, fica a expectativa sobre como será retratada a fase mais complexa e melancólica de sua vida. E inevitavelmente surge a curiosidade. Assim como este se chama Michael, será que o próximo carregará o peso do sobrenome? Talvez Jackson. Seja qual for o título, a expectativa já está criada.

P.S.: foi uma rara vez que vi por mais de uma vez um filme no cinema. E mais estranho ainda, que a experiência (porque é uma experiência, não um filme) se torna ainda maior. A avaliação inicial era de 4 estrelas e meia, subiu para 5 estrelas. Não há como distinguir Jaafar Jackson de Michael Jackson. E não acreditem no que os críticos estão dizendo, sobre o roteiro "raso" de Michael. É muito mais profundo do que qualquer pessoa possa imaginar. A menos que tenha o mesmo histórico que Michael Jackson teve.



Para quem tiver interesse, recomendo ler essa biografia, não autorizada pelo Michael mas que fala toda a verdade. E o filme fica bem aquém do que aconteceu de verdade.

março 30, 2026

Os Pecados do Padre (2024)

 


Título original: Gudstjänst
Direção: Ludvig Gür
Sinopse: Após a recuperação inexplicável de sua esposa doente, o padre Theodor torna-se uma sensação religiosa. Mas quando um cético começa a investigar seus supostos milagres, segredos sombrios vêm à tona.


Existe um tipo de filme que nasce com uma ideia muito forte, quase irresistível, mas que parece não saber exatamente o que fazer com ela. Os Pecados do Padre é exatamente esse tipo de obra. Dirigido por Ludvig Gür, o longa sueco parte de um conceito simples, mas cheio de potencial: um padre que ganha notoriedade após um suposto milagre envolvendo a cura de sua esposa, e que passa a ser investigado por alguém disposto a desmontar essa fé construída em cima de algo duvidoso.

A premissa, por si só, já carrega um peso dramático enorme. Religião, milagre, dúvida, fé cega e manipulação são temas que sempre funcionam bem no cinema quando tratados com segurança. O problema aqui não é a ideia, mas a forma como ela se desenrola. O filme até consegue construir um clima interessante no início, com aquele ar frio típico do interior europeu, igrejas silenciosas e uma sensação constante de que algo está errado, mesmo quando tudo parece normal.

Linus Wahlgren, no papel do padre Theodor, segura boa parte do filme nas costas. Ele transmite bem essa dualidade entre devoção e desespero, alguém que talvez acredite no que prega, mas que também parece cada vez mais perdido dentro da própria narrativa que criou. Ao seu redor, nomes como Vilhelm Blomgren e Lisa Henni ajudam a compor esse ambiente de suspeita, onde ninguém parece completamente confiável.

O que chama atenção de forma positiva é a atmosfera. O filme claramente tenta se apoiar mais no desconforto do que no susto fácil, e isso funciona em vários momentos. Há uma influência perceptível de um terror mais psicológico, com um ritmo mais lento e cenas que se alongam para criar tensão. Em alguns trechos, essa escolha é acertada e contribui para o clima. Em outros, no entanto, acaba deixando a narrativa arrastada demais, quase como se o filme estivesse girando em torno de si mesmo sem sair do lugar.

E é justamente aí que começam os problemas mais evidentes. Os Pecados do Padre parece prometer mais do que entrega. A investigação sobre os milagres, que deveria ser o motor da história, avança de maneira irregular. Há momentos em que a trama sugere caminhos interessantes, especialmente quando flerta com elementos mais sombrios ligados à fé e ao oculto, mas raramente desenvolve essas ideias até o fim.

Existe também uma sensação constante de que o filme quer ser mais profundo do que realmente é. Ele levanta questões sobre até onde alguém iria para sustentar uma mentira ou manter a fé de uma comunidade, mas nunca mergulha de verdade nessas perguntas. Fica sempre na superfície, como se tivesse receio de assumir um posicionamento mais forte.

Tecnicamente, há méritos. A fotografia ajuda bastante na construção do clima, com tons frios e uma iluminação que reforça a sensação de isolamento. A trilha sonora é discreta, mas eficiente, aparecendo nos momentos certos para aumentar a tensão sem chamar atenção demais. Por outro lado, a montagem em alguns pontos parece falhar, especialmente quando o filme tenta acelerar acontecimentos que mereciam mais desenvolvimento, o que acaba deixando lacunas na história.

Outro ponto que pesa contra é o próprio desfecho. Sem entrar em detalhes, o final dá a impressão de que faltou coragem para ir até as últimas consequências. Algumas questões ficam em aberto não por escolha artística, mas por falta de construção mesmo. Isso enfraquece o impacto geral e deixa aquela sensação de algo inacabado.

Ainda assim, não é um filme completamente descartável. Há uma identidade ali, uma tentativa honesta de fazer um terror diferente dentro de um contexto pouco explorado, já que o cinema sueco não costuma investir tanto nesse gênero. Em alguns momentos, essa tentativa funciona e mostra que havia um caminho interessante a ser seguido.

No fim das contas, Os Pecados do Padre é um filme que intriga mais pela ideia do que pela execução. Ele começa sugerindo um mergulho profundo em temas complexos, mas termina apenas arranhando a superfície. Fica a sensação de que, com um pouco mais de foco e coragem, poderia ter sido algo realmente marcante. Do jeito que está, é um daqueles casos em que o conceito é mais assustador do que o próprio filme.

março 29, 2026

O Homem no Meu Porão (2025)

 


Título original: O Homem no Meu Porão
Direção: Nadia Latif
Sinopse: Charles Blakey, um homem negro que mora em Sag Harbor, está estagnado, sem sorte e prestes a perder sua casa que está há gerações na família quando Anniston, um peculiar empresário branco com sotaque europeu, se oferece para alugar seu porão durante o verão.


O Homem no Meu Porão, dirigido por Nadia Latif, nasce com uma premissa daquelas que parecem prontas para um grande exercício de tensão psicológica. Um homem à beira do colapso financeiro aceita alugar o porão de sua casa para um estranho que oferece dinheiro fácil, e o que deveria ser uma solução prática rapidamente se transforma em um jogo incômodo de poder, culpa e memória. A ideia é forte, quase irresistível. O problema é o que o filme faz com ela.

Baseado no romance de Walter Mosley e estrelado por Corey Hawkins e Willem Dafoe, o longa acompanha Charles Blakey, um sujeito atolado em dívidas e emocionalmente paralisado, prestes a perder a casa que carrega o peso de sua história familiar . Quando o misterioso Anniston Bennet surge com a proposta absurda de alugar o porão por um período específico, pagando uma quantia generosa, o filme encontra seu ponto de partida. A partir daí, o que deveria ser um thriller claustrofóbico e crescente se transforma em algo muito mais confuso do que envolvente.

Nadia Latif claramente tem ambição. Isso é visível desde os primeiros minutos. Há uma tentativa constante de transformar o porão em um espaço simbólico, quase um organismo vivo onde passado e presente se misturam, onde traumas históricos e pessoais se sobrepõem. A casa de Charles, aliás, funciona como metáfora direta de sua própria condição, um espaço decadente, carregado de memórias e impossibilidades . O problema não está na intenção, mas na execução. Tudo parece carregado demais, como se cada cena precisasse carregar um significado maior do que consegue sustentar.

O filme tenta discutir racismo, culpa histórica, desigualdade, identidade, memória e até espiritualidade. Só que faz isso de maneira dispersa, sem foco. Em vez de aprofundar um ou dois desses temas, prefere abraçar todos ao mesmo tempo, e o resultado é um roteiro inchado, que fala muito e diz pouco. Há momentos em que os diálogos soam artificiais, quase como discursos disfarçados de conversa, o que quebra qualquer naturalidade .

E isso é especialmente frustrante porque o filme tem dois atores que poderiam carregar algo muito mais interessante. Willem Dafoe faz exatamente o que se espera dele. Ele constrói uma figura inquietante, ambígua, alguém que nunca se revela completamente e que domina a cena com uma presença estranha e desconfortável. Já Corey Hawkins entrega um protagonista mais contido, marcado por uma apatia que até faz sentido dentro da proposta, mas que acaba prejudicando o envolvimento. Falta intensidade, falta variação. Em muitos momentos, ele parece reagir menos do que deveria ao absurdo da situação.

Quando os dois estão frente a frente, há lampejos de um filme melhor. Dá para imaginar uma versão mais enxuta, quase teatral, centrada apenas nesse embate psicológico dentro do porão. Ali, sim, existe tensão. Ali, sim, existe um conflito que poderia crescer. Mas o filme insiste em sair desse eixo, em expandir sua narrativa para além do que consegue sustentar, e perde força toda vez que faz isso .

A própria estrutura narrativa contribui para esse desgaste. O ritmo é irregular, alternando momentos de aparente construção com longos trechos que parecem girar em falso. A promessa de um thriller psicológico se dilui em uma experiência que nunca decide exatamente o que quer ser. Em alguns momentos flerta com o terror simbólico, em outros com o drama social, e em outros ainda com um estudo de personagem. Nenhuma dessas frentes se desenvolve plenamente.

O desfecho segue a mesma linha. Há uma tentativa de fechar o arco de Charles com uma ideia de redenção ou tomada de consciência, conectando-o ao peso da história e à necessidade de agir diante dela . Só que esse caminho não é construído com consistência ao longo do filme, então o impacto simplesmente não chega. Em vez de catarse, o que fica é uma sensação de vazio.

Talvez o maior problema de O Homem no Meu Porão seja justamente esse desequilíbrio entre ambição e controle. Nadia Latif quer fazer um filme importante, cheio de camadas, carregado de significado. Mas esquece que, antes de tudo, é preciso contar uma boa história. Sem isso, qualquer simbolismo vira peso morto.

No fim, o longa se torna um exemplo curioso de desperdício. Há uma boa premissa, bons atores e até uma atmosfera interessante em certos momentos. Mas tudo isso se perde em um conjunto que parece constantemente sobrecarregado, como um porão cheio demais, onde não há espaço para respirar. E o mais irônico é que, ao tentar dizer tanto, o filme acaba não deixando quase nada que realmente permaneça.

A História do Som (2025)

 


Título original: The History of Sound
Direção: Oliver Hermanus
Sinopse: Em 1917, Lionel e David se conhecem no Conservatório de Boston, unidos pelo amor à música folk. Anos depois, eles se reencontram e partem juntos em uma viagem pelo interior do Maine para registrar canções tradicionais de ex-soldados da Primeira Guerra. Durante essa jornada que transformará suas vidas para sempre, eles descobrem que compartilham muito mais do que a paixão pela música.


Há filmes que parecem feitos para ecoar por dentro da gente, mas acabam soando mais bonitos do que realmente profundos. A História do Som, de Oliver Hermanus, é exatamente esse tipo de obra: um filme que se constrói sobre silêncio, memória e afeto, mas que, em muitos momentos, parece mais interessado em preservar sua própria delicadeza do que em realmente nos atingir.

A história acompanha Lionel, vivido por Paul Mescal, e David, interpretado por Josh O’Connor, dois jovens que se conhecem ainda no contexto da Primeira Guerra Mundial e se reencontram depois para uma jornada bastante peculiar. Eles viajam pelo interior dos Estados Unidos, especialmente pela região rural do Maine, registrando canções folclóricas e vozes anônimas, como se estivessem tentando capturar algo que o tempo inevitavelmente apagaria . Esse ponto de partida é, por si só, extremamente bonito. Há uma poesia natural na ideia de gravar vozes esquecidas, de dar importância a histórias que nunca entrariam para os livros, e o filme entende isso muito bem.

O problema é que essa beleza conceitual nem sempre se traduz em força dramática. Hermanus, que já demonstrou sensibilidade em trabalhos anteriores, aqui opta por um caminho extremamente contido, quase tímido. Tudo parece calculado para ser sutil, elegante, contemplativo. E, de fato, há momentos em que isso funciona. Quando a música entra em cena, o filme ganha uma vida que antes parecia adormecida. As canções folclóricas, captadas de forma quase documental, carregam uma emoção genuína, como se fossem pequenas cápsulas de humanidade preservadas no tempo .

Mas entre uma música e outra, o filme se arrasta. A relação entre Lionel e David, que deveria ser o coração pulsante da narrativa, nunca atinge a intensidade que promete. Existe química entre Mescal e O’Connor, isso é inegável, mas o roteiro parece sempre hesitar em aprofundar essa conexão. Em vez de construir camadas, ele prefere sugerir, insinuar, deixar no ar. E sugestão demais, sem sustentação, acaba virando vazio.

Essa sensação de vazio não vem da falta de acontecimentos, mas da falta de impacto deles. Há separações, reencontros, cartas que não chegam, silêncios que deveriam doer mais do que doem. O filme até tenta trabalhar a ideia de memória e ausência, mostrando como certas relações ficam presas no tempo, incompletas. Só que tudo isso é tratado com uma distância emocional que impede qualquer envolvimento mais forte. Em vários momentos, parece que estamos observando a história de fora, como quem escuta uma gravação antiga sem realmente se conectar com quem está falando.

Visualmente, o filme é bonito de um jeito quase óbvio. As paisagens rurais, o inverno, a luz suave atravessando janelas e campos, tudo contribui para uma atmosfera melancólica e nostálgica. É aquele tipo de fotografia que claramente quer ser admirada, e provavelmente será. Mas há um certo excesso de “bom gosto” que pesa contra o filme. Em vez de reforçar a narrativa, essa estética polida acaba deixando tudo um pouco engessado, como se o filme tivesse medo de se sujar, de se tornar mais humano.

Essa crítica não é isolada. Parte da recepção apontou justamente essa rigidez, descrevendo o filme como excessivamente controlado e até um pouco anestesiado, como se estivesse preso à própria elegância . E isso faz sentido. Há uma diferença entre ser delicado e ser inofensivo, e A História do Som frequentemente escorrega para o segundo caso.

Ainda assim, não é um filme descartável. Há mérito no cuidado com que ele trata a música e na tentativa de conectar som e memória como formas de resistência ao esquecimento. A ideia de que registrar uma canção é também preservar uma vida inteira é poderosa. Em alguns momentos, o filme realmente toca nisso com sensibilidade, principalmente quando deixa de lado a trama romântica e se concentra nas pessoas que Lionel e David encontram pelo caminho.

No fim das contas, o que fica é uma sensação agridoce. Há um filme muito bonito aqui, cheio de intenções interessantes e com dois atores competentes segurando bem seus papéis. Mas também há uma falta de coragem narrativa, uma recusa em mergulhar mais fundo nas emoções que ele mesmo propõe explorar. O resultado é uma obra que encanta pela superfície, mas que raramente ultrapassa essa camada.

A História do Som quer ser sobre aquilo que permanece, sobre ecos do passado que insistem em sobreviver. Ironicamente, ele próprio corre o risco de se tornar apenas mais um desses ecos: bonito, distante e fácil de esquecer assim que o silêncio volta a tomar conta.